Escola e pais, em suas funções distintas, têm um interesse comum: o bom desenvolvimento de uma criança. Tendo isso sempre em vista é mais fácil agirmos diante das situações que surgem nessa relação.

Coluninha | Por Pamela Greco.

Quando procuramos uma escola para nosso filho queremos um lugar em que ele se sinta confortável para ser quem é, para explorar o mundo, para aprender e se socializar e também um pedaço acolhedor da vida no qual ele possa se sentir seguro. Diga um pai ou mãe que não queira isso para os filhos?

De forma geral, a escola deve garantir que todas as crianças sejam tratadas iguais, que se sintam seguras, amparadas e que encontrem todos os materiais/espaços/tempos para que todas aprendam e explorem.

Como fica a parceria entre pais e escola?

Se você ainda tem dúvida sobre o que é responsabilidade de cada um, aqui vai um resumo: a escola é responsável por ajudar seu filho a construir saberes técnicos, conhecimentos para que ele possa entender e participar do mundo em que vive. Os valores são por conta da família, assim como os cuidados e hábitos. Nesse sentido a escola deve apenas colaborar, e não assumir a tarefa para si.

No contexto brasileiro, existe um hall de responsabilidades da escola que são confundidos. Vamos falar, por exemplo, sobre o ambiente, estrutura e espaço. De maneira geral a administração de escolas públicas não está totalmente (ou quase nada) em posse da unidade escolar. Essa é uma briga antiga. Quem melhor do que a própria escola para saber administrar seu espaço e suas necessidades? A escola recebe uma verba do governo e deve aplicar de acordo com os interesses da comunidade escolar, prezando pela segurança dos alunos, pelos materiais disponíveis e pelo desenvolvimento da escola de forma estrutural.

Se você vê falhas nesse quesito, procure a administração escolar e se envolva nos processos de decisão. A escola deve ser aberta, mas não entenda que isso significa que você poderá decidir gastar o dinheiro com algo que só seu filho precisa. Ligue o modo “pensamento coletivo” e parta para ação. É possível que você descubra que a falha está no sistema político de repasse de verba. Sem preguiça, exerça sua cidadania e se movimente para cobrar na prefeitura mais próxima. Quando a gente cala, o corrupto agradece. Se seu filho estuda em escola particular, cobre da administração da escola as melhorias e proponha ideias. Não se deixe intimidar pelo “nós sabemos o que é melhor para seu filho”. Esteja envolvido e cobre seus direitos.

Há vários desacordos que podem acontecer quando falamos sobre o interior da “sala de aula” e a relação entre professores e alunos. Nós, professores, temos que garantir que seu filho esteja sempre seguro e que esteja se desenvolvendo. É do nosso interesse que você se sinta acolhido nas suas dúvidas quanto ao processo de ensino e é muito bom quando os pais dividem conosco situações familiares que podem interferir no comportamento da criança.

Minha dica é que quando você (como pai, mãe, ou responsável legal) for procurar um professor para uma dúvida, deixe as acusações de lado e parta do pressuposto de que ambos querem o bem do seu filho. Entender com calma o que aconteceu, qual a proposta que está sendo colocada, quais são as repercussões e como as situações estão se desenhando é essencial antes de decidir o que fazer.

Você pode descobrir que o problema é de ordem estrutural, por exemplo, e que a intervenção tem que ser feita a partir da administração escolar. Respeite o professor como qualquer outro ser humano merece respeito. Deixe de lado o ego e a ideia de que se você “paga o salário” (ou faz parte de não sei quantos mais que pagam) de alguém a pessoa é inferior a você. Aliás, largue disso em qualquer situação, ok?

Não estou assumindo que você sempre encontrará boas respostas. É possível que seu filho tenha caído e ralado o joelho porque a) a professora não dá conta de olhar 30 crianças, então precisamos pensar que a administração precisa de mais funcionários ou b) a professora estava lendo uma revista. Entende como os cenários são diferentes? Seja qual for o caso, lembre-se de manter a calma. Perdê-la não te fará resolver o problema, mas acrescentar outro. Se você usa da agressividade e da violência para resolver questões importantes, não se espante se seu filho fizer o mesmo.

Trate de suas dificuldades direto com o profissional. Seu filho passa pelo menos 20 horas por semana com o professor ou professora. É preciso que uma relação afetiva respeitosa seja estabelecida e que a criança perceba o respeito por esses profissionais. Quando dizemos “Essa professora é terrível!” para alguém, em uma festinha de criança ou com o parceiro, estamos desautorizando-os e ridicularizando-os. As crianças percebem isso e aprendem que o melhor jeito de resolver um problema com alguém é reclamar para outra pessoa ao invés de ser objetivo, direto e respeitoso. Além disso, é possível que ele não admire mais aquele profissional e isso prejudique seu desenvolvimento. Entendem onde quero chegar?

Aos professores eu peço que se lembrem do significado de seu trabalho e que envolvam e convidem os pais caso precisem de suporte. Não se sintam desamparados e se façam ouvir. Não sofram sozinhos um salário indecente ou uma turma cheia demais. É do nosso interesse que nossos filhos encontrem em você um porto seguro e uma luz no caminho. Recebam os pais com calma e atenção para suas dificuldades e dúvidas. Nada de julgamento, chega de rotular crianças porque “pais estão se divorciando”, “pais não dão limites” ou coisas do gênero. Partam para ação! Vamos conversar com esses pais, abrir diálogos e partir do conhecimento da situação para melhor intervenção conjunta. Qual o medo do pai que não dá limites aos filhos? Medo de perder o amor? Que tal organizar uma palestra com profissional pra falar sobre isso? Que tal acolher esses pais?

Vamos começar lembrando que em uma relação saudável não há vilões. Eu particularmente acho que essa briga instaurada entre escolas e pais é uma distração pra não olharmos uns para os outros e nos perguntarmos:

  • Quem foi que colocou 30 crianças em uma sala apertada?
  • Quem foi que disse que o melhor jeito de aprender é sentado estático em uma cadeira?
  • Quem decidiu que a melhor educação é aquela só do giz e lousa?
  • Por que eu passo lição de casa?
  • Por que eu não confio na escola?
  • Qual a formação do professor do meu filho?
  • A escola ensina a alegria?
  • Por que as crianças aprendem o que aprendem?

Vamos pensar nas questões mais sérias e dar as mãos de novo, o que acham?


Pamela Greco é pedagoga e criadora do Blog Pais que Educam.

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Pedagoga

Criadora do Blog Pais que Educam. Já foi professora de educação infantil, trabalhou com adolescentes e passou por ONGs.