Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

No dia 18 de abril, comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil, em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato, escritor pioneiro dos livros para crianças no Brasil. Seus personagens estão no imaginário de todos, seja pelos livros, seja pelas adaptações para a televisão. E em meio a tanta confusão política, me lembrei da Emília e de suas reformas da natureza.

No universo do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Dona Benta é a mulher sábia que obteve seu conhecimento por meio dos livros. E Tia Nastácia é a mulher sábia do povo, que entende a natureza e seus ciclos. É por isso que, logo no início do livro “A reforma da natureza”, as duas são convocadas pelos maiores chefes de Estado da Europa, logo após a Segunda Guerra Mundial, para dar um jeito no mundo. Lobato leva as duas mulheres com seus saberes complementares para consertar o que a guerra tinha causado ao continente.

Emília – que representa a modernidade e a curiosidade científica, mas que nem sempre ouve a voz do bom-senso – dá um jeito de ficar no Sítio, e assim reformar a natureza, como ela vinha planejando. Narizinho desconfia das intenções da boneca, mas o narrador comenta: “Mas Dona Benta era a democracia em pessoa: jamais abusou da sua autoridade para oprimir alguém. Todos eram livres no sítio, e justamente por essa razão nadavam em um verdadeiro mar de felicidade. Emília recusava-se a ir? Pois então que não fosse”.

Emília fica e recebe a visita da Rã, uma menina que vem do Rio de Janeiro e com quem ela se identifica por seu espírito questionador. As duas viram o Sítio de ponta-cabeça – Emília, muito séria e compenetrada, achando-se “científica”, e Rã, com ideias divertidas e totalmente “bissurdas”, como elas mesmas diriam.

Depois da temporada na Europa, Dona Benta e Tia Nastácia cumprem a missão de ensinar aos governantes do mundo como viver em paz e a turma toda volta para o Sítio – e depara com as mudanças promovidas pela Emília. O passarinho ganhou um ninho nas costas, para poder levar seus ovos para onde for. Agora, porém, está muito pesado e não consegue fugir de seus predadores. As laranjas já nascem descascadas, mas não sobra uma, já que os passarinhos e insetos conseguem atacá-las com muito mais facilidade.

Exasperada com as mudanças, Dona Benta ordena rispidamente: “Vá já desfazer o que fez!”. Emília não se conforma e diz para a Rã: “Ela era democrática quando saiu daqui. Depois que lidou com os ditadores da Europa, voltou totalitária e cheia de ‘vás’. Pois não vou”.

A sábia Dona Benta então pondera e reconhece as boas intenções da Emília. Explica que a natureza levou muitos anos para se configurar dessa forma, e que as mudanças pontuais não levam em conta as inconveniências que podem acontecer. Mesmo assim, se dispõe a analisar item por item, e chega à conclusão de que algumas mudanças foram bem úteis: Emília inventou, por exemplo, que o leite assobiasse quando estivesse fervido e desligasse automaticamente o fogo, para não derramar. Talvez daí tenha surgido a ideia de quem inventou aquela chaleira que apita…

Monteiro Lobato tinha muita clareza de quão complexo o mundo tinha ficado. Mesmo assim, nesse pequeno volume, um dos mais curtos do Sítio, ele discute a paz mundial, a democracia, o autoritarismo, os problemas ambientais, os desmandos dos governos e a necessidade de diálogo, sempre com bom humor (claro que existem pontos questionáveis aos olhos atuais, como muita gente aponta, mas isso é assunto para outro texto).

Em toda a sua obra, Monteiro Lobato sempre defendeu a curiosidade científica e a evolução tecnológica. Neste livro, porém, fez Emília aprender a lição de que todas as mudanças precisam ser feitas com planejamento e bom-senso.

Nesses tempos confusos e diante de uma complexidade que só fez aumentar desde 1940, quando “A reforma da natureza” foi escrito, é fundamental saber que nenhuma solução simples dá conta de nossos problemas. Ponderação, diálogo, troca de ideias e empatia são fundamentais para superar as dificuldades. Emília aprendeu a lição sendo ouvida e podendo se colocar, sem perder sua veia questionadora.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.