Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

Como eu disse na minha coluna passada, nossa participação nas rodas de conversa da Flipinha trouxe muita inspiração. E um dos temas que surgiu durante a mesa Literatura Sem Diminutivos foi justamente o processo que está por trás da tessitura de um livro infantil, ou seja, desse trabalho de tecelões que juntam texto e imagens para compor uma obra.

Uma das intenções desta coluna, desde o início, era mesmo desvendar um pouco do mistério que há por trás da escrita e do próprio livro, então “bora aproveitar essa chance”.

Nas editoras que têm um projeto editorial de literatura infantil – ou seja, que estudaram os livros e o mercado, e sabem que tipo de recado querem passar para as crianças e que tipo de estímulo artístico querem despertar – o livro é resultado realmente de um processo de fiação e tecelagem.

Normalmente, primeiro chega o texto. Alguma coisa chamou a atenção de uma pessoa e ela precisou escrever sobre isso. Escrever é uma forma de interagir com o mundo, de tentar resolver os próprios problemas e os das pessoas à nossa volta, e quando essa escrita vem carregada de emoções e autenticidade, de uma combinação que os manuais não conseguem dar conta, ela se torna um texto literário.

Esse texto precisa chegar até o editor. Não é fácil. Desde que abri a editora, há pouco mais de dois anos, já recebi dezenas de originais de livros infantis. Muitos são incríveis, eu publicaria amanhã mesmo, mas nem sempre os recursos estão disponíveis. Outros não têm nada a ver com o que pensamos, com a linha da editora – muita coisa que recebo é justamente de pessoas que não se deram ao trabalho nem de olhar o que já publiquei…

Mas então o texto chega, é aprovado e vai virar livro. Uhu! Agora é a hora de escolher o ilustrador: às vezes o próprio autor se afina com algum com quem já trabalhou ou gostaria de trabalhar, às vezes a editora indica um profissional do seu conhecimento. E aí a urdidura do tecido, que é o texto, começa a ser preenchida pelos fios para formar a trama completa.

Uma das minhas autoras que estava na Flip disse que achou estranho quando percebeu que o autor e o ilustrador de um livro, presentes em uma palestra, tinham se conhecido ali mesmo, no evento. Há várias maneiras de fazer esse trabalho e quando as coisas chegam a um ritmo mais intenso, algumas das práticas iniciais acabam não sendo possíveis. Talvez só editoras menores consigam ter essa proximidade – e isso não significa, necessariamente, que o processo seja melhor. Na minha experiência, essa tem sido uma troca riquíssima, que deveria existir sempre.

Mas… voltando ao nosso livro. Escolhido o ilustrador, o texto precisa ser distribuído nas páginas, para que ele saiba quantas imagens vai produzir e possa pensar em quais são elas. O editor sugere, o autor também, mas é o ilustrador quem imagina a cena e a transporta para o desenho de acordo com sua sensibilidade e com os recursos de que dispõe. Limitações, como em tudo na vida, também estimulam a criatividade.  

Assim é construído o diálogo entre o texto e as imagens – são duas linguagens paralelas, que se complementam. No jornal é que temos uma foto e uma legenda (às vezes tão óbvia que nem precisava). No livro infantil, duas histórias são contadas em paralelo, tudo para que o leitor possa soltar a imaginação, mergulhar sem medo e trazer dali o que faz sentido para ele.

É a beleza da arte, expressa em palavras e imagens, para o desfrute da criança e de seu desenvolvimento pleno, livre e aberto para toda a riqueza que a vida oferece. E por trás de tudo isso está o editor, uma figura que morre de alegria quando consegue juntar tudo isso e vê seus livros ganharem o mundo e o coração das crianças.


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.