Coluninha | Por Luciana Mendina.

Quando li o livro Limites sem trauma, da Tânia Zagury, em 2001, não imaginava que ele se manteria atualíssimo quinze anos depois. Não é à toa que o livro está em sua 92ª edição, um feito para um país no qual a leitura não é valorizada. Na época, eu tinha dois filhos bebês: Maria Júlia com 2 anos e Bernardo com um ano, e me preocupava muito com a educação que daria para eles. Já percebia, na época, que a maioria dos pais era muito condescendente na hora de aplicar um castigo para o filho ou até mesmo de dar limites básicos, como dizer “não” para comportamentos inadequados. Eu não queria agir da mesma forma, eu queria ser uma mãe presente, carinhosa, mas que impusesse limites aos meus filhos sem traumatizá-los. O livro, então, foi uma resposta para minhas aflições. Vi que estava no caminho certo.

Infelizmente, nesses últimos quinze anos, em vez dessa questão melhorar, como eu acreditava que ocorreria, só tem piorado cada vez mais. Eu me deparo, no dia a dia, com cenas inacreditáveis de pais que, além de não educarem seus filhos, não permitem que outros o façam, principalmente os professores. Nunca os professores foram tão desvalorizados e maltratados como agora. Pelos pais e, consequentemente, pelas crianças. Para um eleitorado que reclama constantemente dos baixos investimentos em “educação” no país, esse fato é extremamente contraditório.

Até porque educação começa em casa. Não é privilégio de colégios. Muito pelo contrário. Normalmente, os filhos reproduzem nas salas de aula o que vivenciam em seus lares, seja em termos de conhecimento, seja em termos de comportamento. Pais violentos criam filhos violentos, pais sem educação criam filhos mal-educados e por aí vai. Os pais são, desde o nascimento, um espelho para seus filhos e têm um papel decisivo na formação de seu caráter. Então, a que podemos atribuir esse “medo” de impor limites dos pais hoje em dia?

Admito que vim de uma família bem rígida. Meus pais eram gaúchos e definiam regras para nós, suas filhas. Tínhamos horário para dormir – às 20 horas até os dez anos – horário para fazer os deveres de casa, para tomar banho, para brincar com os amigos, para ver televisão. Não assistíamos nenhuma novela depois das 20 horas, não havia exceção. Também não ficávamos assistindo TV a qualquer hora do dia. Ao acordarmos, tínhamos de arrumar nossas camas e todas as refeições eram feitas à mesa, com ou sem nossos pais (meu pai era piloto e precisava se ausentar alguns dias e minha mãe faleceu quando eu tinha 14 anos e minhas irmãs, 11 e 7 anos, respectivamente).

Essa rotina, longe de nos traumatizar, tornou-nos adultas responsáveis, disciplinadas e resistentes às frustrações. Entendemos que, às vezes, não conseguimos o que desejamos e que isso não é o fim do mundo. Também é essencial para que saibamos respeitar hierarquias, autoridades e a enxergar o outro com mais respeito e consideração.

Na rua não tínhamos permissão para pedir nada nas lojas em que entrávamos. Minha mãe avisava, antes de sair de casa, que se pedíssemos alguma coisa não sairíamos mais com ela, além, é claro, de não ganharmos o presente. Fazer birra, então, era impensável. Sabíamos que seríamos castigadas quando chegássemos em casa e nem tentávamos enfrentá-la. Cumprimentávamos as pessoas ao chegar em qualquer recinto. Escutei mais de uma vez de meus pais: vocês não precisam gostar das pessoas, mas precisam ser educadas e cumprimentá-las.

Nossos professores eram admirados e respeitados. Jamais os xingamos ou levantamos a voz para eles, muito menos os agredimos fisicamente. Se eles nos chamavam a atenção, minha mãe sabia que era para nosso bem, que o objetivo era nos tornar cidadãos conscientes e de bem. Com certeza, se fôssemos advertidas, nossos pais ficariam do lado dos professores e não tirariam a autoridade deles questionando suas atitudes. Bem diferente da realidade a que assistimos nos noticiários em todo o país. Até de estresse pós-traumático alguns professores têm sido vítimas por serem constantemente humilhados e agredidos.

Há menos de dois meses, em uma viagem de São Paulo para Brasília, onde moro com meus filhos, tive de suportar, calada, um menino de cerca de dois anos gritar por quase duas horas, com pequenos intervalos, enquanto seus pais assistiam, passivos, a esse comportamento. Não consegui descansar ou dormir durante o vôo, o que costumo fazer, graças a esses gritos (estridentes) constantes.

É claro que muitos dos passageiros ficaram incomodados com essa gritaria toda. É claro que os comissários gostariam de ter chamado a atenção desses pais, ainda mais porque essa atitude do menino estava incomodando outros passageiros. Mas ninguém fez nada, afinal de contas, além de os pais não educarem seus filhos, eles se revoltam se alguém tenta fazê-lo. Acreditam que a responsabilidade é única e exclusiva deles.

Mas se é assim, por que eles não educam seus filhos? Por que somos obrigados a aturar crianças mal-criadas e fingir que nada está acontecendo? Será que esses pais não percebem o mal que estão fazendo a seus filhos, a mensagem que estão passando para eles, de que eles podem fazer o que bem entenderem no lugar que bem entenderem e a hora que bem entenderem? Onde está o respeito ao próximo?

Não são esses meninos que mais tarde se tornarão monstros e queimarão índios em praça pública ou praticarão furtos e outros crimes, lesando nossa sociedade? Se eles aprenderem que não há limites para o seu querer, que eles podem tudo, que não precisam lidar com “nãos” em suas vidas, que tipo de pessoas eles se tornarão? Apesar de o assunto não ser divulgado, os índices de suicídio na juventude cresceram assustadoramente nos últimos anos. A depressão também aumentou e os índices de violência infanto-juvenil disparou.

Realmente não entendo esses pais que, em nome de uma pseudo-liberdade dos filhos, desperdiçam oportunidades de orientá-los e de mostrar a eles que existem regras de convivência e que nem tudo que queremos fazer nos é permitido. Mesmo estando presentes fisicamente, estes pais estão ausentes das vidas dos filhos, muitas vezes ocupados no Whatsapp e no Facebook, outras vezes mergulhados no trabalho e em outros afazeres.

Em contrapartida, as crianças se isolam também nessas tecnologias e nos games, acostumadas a ficarem em segundo plano no campo afetivo e serem atendidos em termos materiais, o que gera uma contradição: crianças carentes afetivamente e mimadas materialmente. Ganham tudo o que pedem, mas não ganham a atenção, o carinho e o diálogo de que tanto necessitam. Espero que um dia esses pais caiam em si e percebam que o que pode traumatizar uma criança é justamente viver sem limites, e torço muito para que isso aconteça o quanto antes!


Luciana Mendina é jornalista e autora do livro “O autismo tem cura?”, publicado pela Editora Langage.

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Jornalista

Autora do livro “O autismo tem cura?", publicado pela Editora Langage.