Qual foi sua experiência ao assistir o filme do livro que você leu?

Coluninha | Por Marcella Abboud.

Você já sofreu a amarga decepção de ver o seu livro favorito ser transformado em filme? Acho que a adaptação talvez seja a forma mais instigante, porém cruel, de testar a capacidade imaginativa e o modo de lidar com frustrações de uma pessoa. Durante a minha graduação, escrevi meu TCC sobre o livro do José Saramago, o Ensaio Sobre a Cegueira, livro que, na mesma época, foi adaptado por Fernando Meirelles para o cinema.

O filme do livro

A crítica gostou. Os meus amigos amaram. Eu não vi naquele mês. Eu não quis ver. Passei 2008 inteiro adiando, fugindo, esquivando desse assunto, mentindo para as pessoas, como se eu estivesse escondendo um vício secreto: o vício de ter um cenário criado por mim, e não pelo outro.

A gente vive se enganando dizendo para nós mesmos que a culpa é do diretor. Ou do espaço infinitamente menor que o cinema proporciona à narrativa. Ou do ator. (JAMAIS eu aceitaria o rosto do Gael García Bernal como o pior vilão já descrito, um estuprador!). Culpamos aqui, ali, acolá, quando na realidade a culpa é nossa.

Aliás, repito a frase substituindo a moral cristã, deixando mais mística: a sorte é nossa.

Porque eu tenho uma profunda e sincera compaixão com quem não se decepciona com adaptações. A decepção com a adaptação é, por excelência, nossa resposta imaginativa e criativa ao mundo: queremos criar a experiência narrativa, ser coautores, e não meros receptáculos da informação dada.

Contestar e detestar adaptações é, para mim, o sinal da vivacidade de um aluno. Tomara que seu filho se decepcione com Jogos Vorazes, com Percy Jackson, com Romeu e Julieta, com Os Três Mosqueteiros (se bem que o Gérard Depardieu ficou bem com cara de mosqueteiro). Tomara que nenhuma baleia no mundo seja a cachalote Moby Dick, que nenhum ator seja suficientemente bom para ser Robin Hood; que nenhuma mulher seja bonita o suficiente para ser Afrodite.

Tomara que seu filho se decepcione.

E quando seu filho olhar decepcionado, agradeça. Tire a culpa do diretor e dos atores, tente explicar que a magia do cinema é outra. Que são duas obras, e não uma que está ali (e isso é fundamental, porque em momento algum quero que pensem que sou contra adaptações). Mas sorria em agradecimento à imaginação criativa do seu filho. Console-o com a maior verdade de todas: não existe lugar no mundo mais legal que a sua cabeça.

Eu vi Ensaio Sobre a Cegueira e faria um filme do livro totalmente diferente. Faria não, fiz. No momento em que eu li. Essa é a verdadeira satisfação e justificativa: nosso repertório cultural nos permite que construamos algo incrivelmente melhor (só que melhor para gente). Se invertermos essa lógica ela é a mesma que embasa o preconceito. Prometo falar disso qualquer hora…

Não se desesperem, mães e pais, se toda essa história não funcionar com os pequenos, pois há sempre um segundo consolo: quando ele crescer, vai assistir O Poderoso Chefão e vai descobrir que existem, apesar dos pesares, adaptações que superam os livros. Mas isso é assunto para outra crônica.

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Coluninha

Mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP, onde também cursa doutorado. É professora de Língua Portuguesa e autora do livro Guia Prático do Feminismo: como dialogar com um machista. Escreve no blog marcellarosa.com.