Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

Ajudar uma criança a desenvolver o hábito da leitura é uma preocupação de muitos pais e professores. As ações para isso são as mais variadas e os resultados, difíceis de ser medidos. Se de um lado há cada vez mais pessoas querendo escrever (a quantidade de originais de livros infantis que recebo é enorme!) e muitos pais interessados em promover esse hábito desde cedo, além de projetos lindos como o Literatura de Berço, por exemplo, que promove encontros de mães e bebês com autores de livros infantis, de outro os números de vendas nem sempre são muito animadores…

Em entrevista ao UOL no último dia 23 de fevereiro, a autora Ana Maria Machado, uma das poucas mulheres e autoras de livros infantis ocupante de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (a número 1, que já foi de Machado de Assis!), afirmou que, em sua opinião, o hábito da leitura vem do exemplo, ou seja, a criança desenvolve o gosto pela leitura por estar sempre vendo seu pai ou sua mãe lendo.

Não há como discordar dessa impressão, mas me dou ao direito – por minha própria experiência – de dizer que a familiaridade com o objeto livro também ajuda bastante. Meus pais nunca foram leitores vorazes, mas em minha casa e na de meus avós havia livros. Eu ganhava livros de presente e minha escola tinha uma biblioteca agradável, que nos estimulava levar os livros para casa.

Em uma deliciosa crônica, no livro Ex-Librisa escritora Anne Fadiman (ainda vou falar mais sobre ela) discute a importância desse convívio desde a mais tenra idade. Para a autora, filha de pais acadêmicos e leitores vorazes, o livro não pode ser tratado com o que ela chama de “amor cortês” – um amor platônico, distante, preocupado demais com as aparências e com a preservação do livro como objeto. É preciso usar, dobrar o canto da página, manusear, levar para lá e para cá e até – para muitos um sacrilégio – riscar as páginas. Fadiman é a favor do “amor carnal” pelo livro  – segundo ela, o objeto não precisa ser tratado como algo sagrado em si. Tanto faz se você lê um livro novo, como saiu da livraria, ou um velhinho comprado no sebo. Ou se está no Kindle. Sagrado é o conteúdo: as palavras, a história, a obra, o gênio do escritor.

Eu também acredito no amor carnal e na convivência intensa e radical com esse objeto. Ter livros em casa, ao lado da cama, poder carregá-los sem pudor, mesmo que isso resulte em uma lombada quebrada ou uma página dobrada (ou até eventuais rabiscos) é fundamental para que esse amor seja intenso desde criança.

Mais do que o hábito de gostar de livros, porém, talvez seja importante ensinar às crianças o prazer de ouvir e contar histórias. E quem sabe escrevê-las? Apesar de haver livros em minha casa, minha mãe lia, mas nunca foi leitora apaixonada. Do que ela sempre gostou foi de histórias. Às vezes, ficava louca de vontade de compartilhar o livro que tinha acabado de ler. Ela sempre me contava sobre os livros e filmes que assistia, e até as novelas, que até hoje a deixam envolvida e louca para saber o que virá no capítulo seguinte – mesmo que seja absolutamente previsível.

Ouvir e contar histórias faz parte da essência do ser humano – é assim que nos comunicamos e que conseguimos encontrar sentido para a vida. E é assim também que conseguimos ter encadeamento lógico para perceber “furos” em discursos que pretendem nos convencer de alguma coisa e para encontrar argumentos para defender nosso ponto de vista verbalmente e por escrito.

Essa prática é o que realmente nos conduz um degrau acima na consciência e na cidadania. Por isso, ter livros à disposição da curiosidade infantil e contar histórias em família são duas maneiras – entre tantas outras – de despertar o gosto pela leitura.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.