A criança começa a chorar e em poucos minutos já está gritando, esperneando e se jogando no chão. Quem nunca passou ou presenciou uma cena dessas não sabe o que é sentir um misto de emoções difícil de explicar e de lidar. As birras dos pequenos conseguem deixar qualquer adulto sem ação, principalmente, quando acontecem em público. Seja porque a criança quer um brinquedo ou porque não quer terminar determinada refeição, na maioria das vezes o que desencadeia as famosas crises de choro é uma palavra bem pequenininha, de apenas três letras: NÃO. As crianças, principalmente quando mais novas, não gostam e não sabem lidar quando são contrariadas. Aí já viu, né? Lágrimas e gritos para os pequenos e muita paciência para os pais!

Até quando fazer birra é normal?

Nós conversamos com Sarah Helena que, além de psicóloga e curadora na Leiturinha, é mãe da pequena Cecília de 1 ano. Ela nos ajudou a entender um pouco sobre as causas e as formas de lidar com as tão temidas birras.

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Sarah Helena, mãe da pequena Cecília, psicóloga e curadora na Leiturinha

Sarah explica que não existe uma idade exata para a criança começar a fazer birra. “A birra é um sintoma de que a criança não está conseguindo lidar com uma frustração e de que ainda não tem habilidades para se comunicar de outra forma. O adulto não pode simplesmente reagir à birra. É necessário agir conscientemente, de modo a não reforçar este comportamento na criança. Isso significa pensar antes de agir, ter muita paciência e a noção de que a birra é também uma oportunidade de aprendizado para os pequenos.”, afirma a psicóloga.

Ainda que não haja nenhuma regra e que cada criança seja única com suas individualidades, é preciso que os pais estejam atentos e sensíveis aos comportamentos dos pequenos, para saber quando isso pode ser o indicativo de que algo não vai bem na vida da criança. “A birra pode surgir ou ser mais intensa em momentos de grande estresse, como separação dos pais ou a chegada de um irmãozinho, por exemplo. Ajuda profissional pode ser muito valiosa nestes casos”, ressalta Sarah Helena. A psicóloga também afirma que “o comportamento dos filhos está diretamente ligado ao dos pais e ao ambiente familiar. A birra é extremamente desgastante e os pais precisam se cuidar para cuidar dos filhos”.

O que você precisa saber para lidar com as birras?

Para ajudar mães e pais a lidar com as birras dos filhos, a psicóloga Sarah Helena pontua que é importante:

1. Não se importar com o que os outros pensam

É importante que os pais possam fazer o que tem de ser feito no momento da birra (ou até antes dela) e não cedam só para “não passar vergonha”. Tenha em mente que a educação dos filhos é mais importante do que alguns olhares de julgamento momentâneos.

2. Resolver o conflito sem violência

Bater e xingar nunca são uma boa opção. Existem outros caminhos efetivos que geram resultados mais prolongados e duradouros e, o mais importante, que melhoram ainda mais os vínculos entre vocês.

3. Saber que a birra é um pedido por limites

A criança precisa aprender que há momentos em que vai ganhar ou poder fazer algo que deseja e momentos em que não poderá e não ganhará o que quer. Isso é saber esperar pela recompensa. Esse aprendizado é algo valioso para o resto da vida! Especialmente para a vida adulta.

4. Ser resiliente

Se frustrar é algo que acontece com todos nós ao longo da vida, mas sair mais forte das dificuldades e ser resiliente é um comportamento aprendido. O momento da birra pode ser uma oportunidade para esse aprendizado.

5. Ter em mente que as birras são vividas de formas diferentes em cada família

Quando o que você fizer parecer não dar resultados, experimente ouvir outras mães e pais e trocar experiências. Com certeza, você vai ouvir opiniões e conselhos diversos. Filtre o que achar bom e experimente. Muitas vezes olhar de forma diferente para o mesmo problema pode ajudar.

6. Ter consciência do que proíbe, do que permite ou solicita

As regras e limites devem ser claras e acessíveis à criança e ela precisa sentir que está ao seu alcance cumpri-las.

7. No momento da birra

Tente não demonstrar o quanto você está afetado pelo comportamento dele(a), respire fundo e, se estiver em algum lugar público, procure um local mais calmo onde a criança possa extravasar sua birra – sem que você ceda ao que ela quer. Mantenha-se firme no que acredita ser o melhor para a criança naquele momento. Crianças sentem-se seguras quando os pais se mantêm coerentes e fazem aquilo que dizem.

8. Após o momento crítico da birra

Assim que estiver mais calma, tente conversar com a criança, explicando o porquê do “não” que recebeu. Demonstre que você se importa com ela com atos de carinho. Ouça seu pequeno e fale sobre o que foi possível aprender com aquela situação.

O que as mães têm a dizer?

Em uma enquete realizada no Instagram da Leiturinha, 74% das 1.865 pessoas que participaram, entre mães e pais, responderam que já passaram por alguma situação em que o filho fez birra em público. Na página, também recebemos depoimentos de pais que compartilharam suas experiências sobre a forma como lidam com as birras dos pequenos. 

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Confira alguns desses depoimentos:

Quando minha filha faz birra em casa, eu deixo ela se acalmar e me acalmo… Depois sento e converso com ela, digo que fazer isso não é legal e que eu fico muito triste com essa atitude dela. Deixo ela num cantinho pensando no que fez e não falo com ela… Ela sempre vem e pede desculpas diz que ela estava estressada e que não vai fazer mais. Uma vez ela fez em público, eu tentei manter toda a calma e conversei com ela, levei ela até o banheiro do estabelecimento que estávamos e lavei o rosto dela, dei um pouco de água pra ela beber e ficamos ali por uns 20 minutos até ela se acalmar. (@katia_regianne)

Não é fácil! Sempre achei que ia saber lidar com isso. Na teoria, todos têm solução, mas na prática é outros quinhentos. Na primeira vez é uma vergonha danada, você se estressa, fica com dó de brigar, acha que é normal na idade. Mas usei meus aprendizados e meus princípios para lidar com as próximas, e vou te contar… foram bem poucas. Quando ela faz algo que me desagrada e que é de comportamento inapropriado, eu já falo não e começo a ignorar. Mas eu falo um não bem ‘NÃO’, sem alterar a voz e sem expressar nenhuma agressividade nos gestos. Depois do não, saio andando meio devagar, esperando que ela me acompanhe. Como ela tem medo de que eu deixe ela nos lugares que vou, ela já vem resmungando, mas vem correndo atrás de mim. Quando ela pede alguma coisa que não posso dar, eu já explico que da próxima que nós sairmos, se ela se comportar, eu compro. Engraçado!! Ela sempre lembra e já fala no caminho que vai se comportar. E cumpre o que diz. Podem dizer que isso é errado, mas eu uso o método meritocracia em casa. Só vai ganhar se merecer. Ela é bem geniosa, tem uma personalidade incrivelmente irritante mas, em compensação, de bondade ela bate o recorde. Bom… Este é meu método, tem vezes que não dá certo, acho que por meu estado de espírito. Mas são bem poucas as vezes que não dá certo. (@_anapaulaf)

Demais!!! A última foi no domingo, ao chegarmos num aniversário de criança, meu filho não queria entregar o presente. Como ele viu que o presente era um carrinho, deu birra porque queria o carrinho para ele. Conversei, tentei explicar, falei que ele tinha um carrinho igual em nossa casa… Mas nada adiantava, ele chorava e ia até a caixa de presentes e pegava o presente de volta. As pessoas olhando… Foi difícil!!! Peço a Deus sabedoria e paciência. (@tharitagontijo)

Dica Leiturinha:

Mirtilo faz birraMirtilo faz birra

Autora: Sara Agostini
Ilustradora: Marta Tonin
Editora: Ciranda Cultural

Mirtilo é uma criança que faz birra a todo momento e sua mãe já está ficando sem saber o que fazer! Mas, juntos, descobrem uma maneira melhor de lidar com esse sentimento tão intenso. Este livro mostra que há um caminho de diálogo, atenção e carinho mesmo quando as coisas parecem “fugir do controle” e que é sempre possível aprender com nossas dificuldades.

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Profile photo of Ana Clara Oliveira

Jornalista e autora no Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.