É chegado o grande dia. Seja de surpresa ou com data agendada, é sempre um mistério a maneira como se desenrolará a chegada da cria ao mundo. A verdade é que, independente da forma, a ansiedade e o nervosismo se manifestam na mesma intensidade. Parir é confrontar o desconhecido, é permitir-se entregar ao inexplorado e ao inesperado, visto que nenhum parto ocorre da mesma forma. E é aí que surgem as idealizações.

O parto idealizado

São, em média, 39 semanas, nas quais, na maior parte do tempo, é inevitável fazer com que o dia D seja esquecido. É comum quando nos deparamos com uma situação que não é dominada, a idealizarmos –  pois desta forma, é como se a contivéssemos.  Por isso, limitamos a um parto idealizado, é como se passássemos um recado tranquilizador a nós mesmas, que se o parto correr como o esperado, vai ficar tudo bem. E nem sempre é assim.

Quando colocamos em pauta a preferência pelo parto normal, muitas mulheres acabam por preferir o mínimo possível de interferências, para que tudo transcorra de acordo com os instintos da mãe e do bebê. Porém, em alguns casos, o corpo requer auxílio, o que põe fim à idealização do parto natural. Nasce uma emergência. Rompe a bolsa do parto natural e nasce a cirurgia e a mágoa por não ter conseguido.

Irrompendo o ventre, surge uma fenda moldada por um bisturi.

É a hora de parir o sonho do parto normal, de se inconformar. O dia esperado acaba por ser marcado por um momento de apreensão, o normal se torna utópico. Das inconstâncias da vida… Pausa-se a mágoa para receber aquele ser pequeno junto ao rosto. A incompreensão diante do milagre de dar luz a uma vida. Nessa hora, o filho transmite um pensamento via cordão umbilical: conseguimos.

A sensação do triunfo por ter gerado uma criança.

O filho vem ao seio, essa é a nova aliança, a nova ponte de comunicação, que substitui o cordão umbilical. Então, o pequeno experimenta o leite pela primeira vez, assim como o aconchego e o calor que tem os braços. A mãe aprende a recepcionar o recém-chegado.

O primeiro contato é rápido, retorna a realidade com a lembrança do ocorrido, do corte na barriga que precisa ser reparado. A cria se separa da mãe, pois é hora de remendar a passagem do filho e desenhar a cicatriz no ventre. A eterna marca de que houve uma vida gerada ali. São os sinais da aliança entre mãe e filho: as cicatrizes na barriga.

A mãe possui a cicatriz do corte.

O filho, a cicatriz em forma de umbigo.

Marcas de amor.

Infelizmente, a marca esconde, além do nascimento, a dor de não ter alcançado a utopia do parto perfeito. A lembrança de não ter sentido a chegada do filho, da passividade, das luzes do centro cirúrgico e o medo da anestesia.

Os riscos de uma cirurgia e a rejeição da mesma.

O incômodo diante do corpo que treme sem vontade, da coceira após o anestésico. Amamentar com um corte na barriga. O medo de manter a coluna ereta e romper os pontos.

A cabeça guarda a eterna dúvida.

Se tentasse mais um pouco? Se, de repente, a situação revertesse e o corpo conseguisse parir sem intervenções? Se acontecesse um milagre?

Pois o que houve foi um milagre. A sabedoria ao saber o momento certo de intervir e abrir mão do sonho do “parto ideal”. A força ao permitir deixar-se sedar para conceber uma cesárea.

De fato, a idealização do parto ocorre em qualquer situação. Seja natural, caso demore, o sonho é de que transcorresse mais rápido. Não obstante, caso o desenrolar se suceda mais rápido, sentimos como se não tivéssemos vivenciado a totalidade da experiência. Por fim, aprendemos que o parto ideal foi o parto que aconteceu. O que trouxe a cria ao mundo. Não importando o caminho, nem as horas, o êxtase do parto é o primeiro choro e é o que faz valer a pena toda a desconstrução da utopia.

O tempo acaba por conformar, mas quem dá a primeira lição é o filho. Aprendemos que não existem partos ideais, todo parto, por si só, é doloroso.

Independente da forma que são concebidos, os pequenos já nos ensinam desde início, que maternar é perder o controle.

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Sou Victória Silveira, escrevo como convidada para o Blog da Leiturinha e, no amanhecer dos meus 19 anos, acabei por me reconhecer como escritora, amante das Artes e mãe da Helena.