Sobre ser mãe

“Ser mãe é me doar a todo momento, é pensar e estar com ele no meu pensamento 24h por dia, é me preocupar, é sentir esse medo, acho que até mesmo um medo de perder, é querer aproveitar cada momento como se fosse único e pedir que o tempo pare”. “Ser mãe é  crescer e amadurecer, é entender o real motivo do meu propósito de vida, do amor, do que eu sinto por eles”. “Ser mãe é saber que eu vou continuar viva em algum canto, porque depois que você tem filho, você se vê em coisinhas que eles fazem, você vê repetições de como você é ou de como você não é, neles”.

Um retrato da maternidade real

Gerar, parir, criar, maternar. Ser mãe é lindo, é solitário, é intenso, é difícil, é para sempre. Entre o instinto materno, o amor incondicional, a responsabilidade vivida sozinha e compartilhada também. Entre as noites mal dormidas, a carga de cuidar e a carreira profissional. Entre o coração de mãe que sempre cabe mais um e o peso de querer – ou precisar – dar conta de tudo sozinha. Entre vontades, desejos, anseios, inseguranças, angústias, realizações, alegrias e um amor infinito, estão as mães. Mães de um, de dois, de três. Mães-solo, mães que podem contar com alguém, mães modernas, mães corujas, mães jovens, mães bravas, mães liberais, ou tudo isso em uma só.

Dizem que mãe é tudo igual, só muda o endereço. Mas entre tantas semelhanças e diferenças, cada uma sabe as dores e as delícias de colocar e educar uma criança nesse mundo. Só elas sabem do peso e das alegrias de ver os filhos crescerem e se tornarem tudo aquilo que elas idealizaram ou o contrário disso tudo. Só elas sabem dessa culpa e do orgulho também. Só elas sabem e sentem o que é acordar a cada dia pensando se estão fazendo o certo ou o suficiente, mas com a certeza de que estão fazendo o melhor.

Três mães, três histórias, três maternidades

Se de um lado, algumas mulheres sonham desde criança em serem mães, de outro, outras nunca se imaginaram nesse papel até se tornarem uma. Se de um lado a maternidade é idealizada, perfeita e incrível, do outro, está a maternidade real, intensa e difícil. Histórias tão singulares, com apenas uma coisa em comum: o peso e o amor de ser mãe. Para dar voz às diversas vozes da maternidade e para homenageá-las também, nós conversamos com três mães que contaram um pouco sobre as suas maternidades e sobre as alegrias, as dores, as satisfações e os desafios que este papel traz.

Mãe de um

Bruna SilvaNo dia 02 de março de 2015, com 27 anos, Bruna Silva se tornou mãe do Matheus. A gravidez, sempre muito sonhada, veio de surpresa, mas Bruna encarou o desafio e assumiu seu mais novo papel com muita coragem e amor. Hoje, três anos depois, Bruna é a principal responsável pela educação do filho. Divorciada há quase um ano, ela conta com uma rede de apoio, que inclui a mãe, a sogra, o ex-marido e os irmãos, para ajudá-la. Mas, ainda assim, nem sempre é fácil enfrentar a rotina corrida do dia a dia, e a jornada tripla entre emprego, casa e os cuidados com seu pequeno. Em meio a tudo isso, Bruna encontra na força e no afeto os pilares para a construção diária da sua maternidade.


1) Para você, o que é ser mãe do Matheus?

Ser mãe mudou muito a minha vida, mudou meu tempo, mudou minha rotina, mudou minha maneira de pensar. Eu passei a dividir o meu coração com alguém. Ou seja, meu coração passou a ter dono, a tomar conta de mim e a me ensinar a amar. Ser mãe é me doar para ele a todo momento, é pensar e estar com ele no meu pensamento 24h por dia, é me preocupar, é sentir essa preocupação, esse medo, acho que até mesmo um medo de perder, é querer aproveitar cada momento como se fosse único e pedir que o tempo pare. Às vezes, me pego vendo fotos dele e penso que o tempo poderia parar para eu não ver ele crescer, porque eu quero o Matheus cada vez mais próximo de mim. Mas sei que isso é impossível.

2) Em que momento da sua rotina você se sente mais mãe?

No momento em que eu estou educando, na hora que eu estou ensinando e passando para ele os valores que eu acho que ele tem que levar adiante. É uma responsabilidade muito grande, porque o futuro dele depende de mim e eu sei que estou contribuindo para a sua educação. É nesses momentos em que eu paro e penso… Será que eu estou certa? Será que estou sendo uma boa mãe? Também me sinto mãe nos momentos que estou com ele e que estamos lendo juntos, principalmente. Isso me ajuda muito e eu me sinto cada vez mais próxima dele. E, principalmente, quando alguém o elogia, quando alguém diz “Olha como seu filho cresceu…”, “Como seu filho fez isso…”. Eu me sinto muito orgulhosa, eu me sinto mãe.

3) A opinião das outras pessoas influencia, ou impacta, na sua forma de ser mãe? O que você faz para driblar isso?

Não… Eu sempre gosto de pedir e escutar a opinião de outras mães, principalmente, das da faixa etária dele. Busco informações e opiniões, mas não deixo isso impactar ou me influenciar. Sempre absorvo aquilo que é necessário e o que é bom. Pego dicas em grupos de mães para tirar dúvidas com outras mães que passaram pelas mesmas questões que eu, e isso me ajuda muito, mas não deixo a opinião dos outros me influenciar. Absorvo apenas o que é necessário e o que vai me ajudar. A pressão existe e é muita, mas eu não deixo isso tomar conta, eu não me sinto culpada, porque procuro me esforçar ao máximo e faço tudo que posso para estar sempre presente ao lado dele. Julgar, julgam mesmo. Mas eu não fico preocupada, porque estou fazendo da melhor maneira possível.  

4) Para você, qual o lado bom e qual o lado ruim de ser mãe?

O lado bom é você ter outra pessoa para dividir o amor e o carinho, você poder amar, poder ensinar, educar e compartilhar o dia a dia com essa pessoa, que é um serzinho que depende de você. É você poder retribuir tudo isso. Agora, o lado ruim é a responsabilidade, é muito cansativo, a correria do dia a dia… Essa responsabilidade e essa carga de ser mãe são as partes mais difíceis.

Mãe de dois

Carolina Borges

Carolina Borges sempre gostou da casa cheia e da mesa rodeada de gente. Por isso, sempre teve certeza de que seria mãe, só não imaginou que assumiria esse papel tão cedo. Aos 19 anos, ela se tornou mãe de Mariana. No início, as coisas não foram fáceis, mas, conforme amadurecia, Carolina via seu amor crescer cada vez mais. Dez anos depois, mais uma surpresa, nasce Guilherme, seu segundo filho. Hoje, com 36 anos, Carolina divide as responsabilidades e as delícias de criar os dois filhos, com seu marido e pai dos pequenos, Rodrigo. Em meio a uma rotina para lá de agitada, Carolina dribla a culpa e a insegurança, assumindo o verdadeiro papel de mãezona.

 

1) Para você, o que é ser mãe do Guilherme e da Mariana?

O nascimento da Mariana me fez crescer como mulher. Depois que ela nasceu eu nunca mais tive dias ruins. Às vezes, tem algum aborrecimento normal do dia a dia, mas o que ela mudou na minha vida foi isso, fez com que eu não tivesse mais dias ruins. Todos os meus dias tinham que ser bons para que eu pudesse estar ao lado dela e para que eu pudesse dar suporte para ela sempre que ela precisasse. E quando o Guilherme veio, isso só reforçou o que eu sempre imaginei, desde quando era criança: que ia ser mãe. Sempre tive certeza disso. Os dois me fizeram crescer e amadurecer e entender o real motivo do meu propósito de vida, do amor, do que eu sinto por eles. Eles mudaram o que eu sou como pessoa, os sentimentos que eu tenho pelo próximo, me fizeram pensar cada vez mais em querer o bem deles e estar sadia, eu e meu marido, para a gente dar, não tudo o que eles precisam, mas tudo que a gente puder. Eu vivo por eles, hoje a minha felicidade vai estar completa se eles estiverem bem. Com o nascimento deles, descobri o meu maior medo: perdê-los. Durante os nove meses de gestação o sentimento vai aumentando e quando nascem é impressionante como muda e aumenta o medo e o amor. Hoje vejo que os dois me completam, porém esse meu medo me atormenta. Coisa de mãe!

2) Em que momento da sua rotina você se sente mais mãe?

Eu amamentei por muito tempo. A Mariana, agora com 16 anos, eu amamentei até os 4 anos e meio, era o momento que eu mais gostava de ser mãe, o momento que eu mais me sentia mãe, além de todos os outros cuidados. E o Gui também, amamentei até os 3 anos e meio, e foi muito bom, eu não tinha pressa de cortar esse vínculo com eles. Nos dias de hoje, com a correria, o único momento em que a gente se encontra é na hora do jantar, então a gente prioriza muito sentar na mesa nós quatro juntos, conversar, perguntar como foi o dia do outro. A gente tenta se organizar para ter esses momentos juntos e é quando eu me sinto mãe, sinto, com alegria e orgulho, que tenho uma família.

3) A opinião das outras pessoas influencia ou impacta na sua forma de ser mãe? O que você faz para driblar isso?

Impactou, principalmente, na criação da Mariana. Como eu era muito jovem, eu ouvia muitos pitacos, daqui e dali, e cedia em alguns momentos, porque quando eu queria fazer da minha forma, não estava fazendo da forma certa… Por ser muito nova, eu era muito julgada. Com o Guilherme, eu já tinha mais maturidade, já tinha passado por muitos perrengues com a Mariana, então pensei “Esse é o meu jeito e cada mãe tem o seu jeito de fazer as coisas”. Opiniões a gente tem que ouvir, tem que deixar, mas tem que entender qual o momento certo de aceitar essas imposições. Cada mãe sabe a forma certa de criar e de impor limites para fazer bons filhos. Isso me incomodava muito no passado, mas hoje em dia eu não me importo tanto. Tento passar por cima disso para não me estressar, porque eu já me culpo muito por não passar tanto tempo com eles. Mas a gente escuta… Crítica sempre tem, de todos os lados, até em casa, no dia a dia, eu e meu marido, às vezes, entramos em desacordo também. Mas é isso… Não podemos deixar isso impactar na nossa vida.

4) Para você, qual o lado bom e qual o lado ruim de ser mãe?

Todas as pessoas mais próximas de mim que engravidam eu falo “vamos bater um papinho que eu vou te contar a real do que acontece…”, que é o lado que ninguém conta, que é mais difícil. Não são só flores, é cansativo… A gente que trabalha fora é mais ainda, é exaustiva a jornada. Mas hoje eu penso que o que antes não tinha muito é a ajuda do pai, do cônjuge. Eu fui mãe solteira com a Mariana, durante os primeiros cinco anos eu era a principal responsável pela educação dela. Com o Guilherme foi tudo mais fácil, eu tinha amadurecido e tinha mais a ajuda do meu marido. Mas o lado bom da maternidade é que você cresce, você amadurece nas dificuldades, porque no início dá trabalho mesmo. Hoje quando eu vejo o trabalho que os dois deram nos três primeiros meses, eu vejo o quanto era gostoso. Isso que é gratificante, você muda a rotina da casa, o cheiro da casa, você está se adaptando a eles e eles a você, mas é a melhor fase. Os três primeiros meses são os que dão mais trabalho, mas são os mais gratificantes. Eu gosto de casa cheia, almoço de domingo, a mesa cheia, rodeada de gente. Eu gosto de ser mãe. Às vezes eu penso que não sou aquele tipo de mãe tão presente na escola do filho, sou o necessário, mas eu tento ser cada vez mais presente e priorizo muito o tempo que eu tenho com eles.

Mãe de três

Cynthia SpaggiariCynthia Spaggiari nunca pensou em ser mãe e foi um susto, quando aos 16, se descobriu mãe de Giovanna. Não foi nada fácil enfrentar uma gravidez na adolescência em uma cidade pequena. Mas, sem recuar, Cynthia concluiu seus estudos e se mudou para outra cidade para cursar a faculdade, onde teve um novo relacionamento e foi mãe dos pequenos Otto e Antônio, de 10 e 5 anos. Hoje, com 37 anos, Cynthia é mãe-solo. Giovanna, já com 20, mora com os avós na cidade natal e os dois pequenos mais novos são criados pela mãe, que se divide entre os cuidados com os filhos e a profissão que ama, equilibrando as dificuldades e responsabilidades, sem nunca deixar de ser uma mulher completa.

 

1) Para você, o que é ser mãe da Giovanna, do Otto e do Antônio?

O que é ser mãe da Giovanna, do Otto e do Antônio… É saber que vou continuar viva em algum canto, porque depois que você tem filho, você se vê em coisinhas que eles fazem, você vê repetições de como você é ou de como você não é, neles. Ser mãe é se jogar em um mundo de incertezas, porque a gente sempre idealiza o que é ter um filho e o que você espera dele, mas na realidade, na vida nada disso é palpável. As coisas que vão acontecer são incertas e ser mãe é uma angústia para a vida toda.

2) Em que momento da sua rotina você se sente mais mãe?

O momento que eu paro para pensar que eu sou mãe é o momento em que todos eles dormiram eu estou do lado deles. É aí que você sente o quão é responsável e o quanto você tem que proteger sua cria. Enfim, acho que é a hora que eu paro para pensar o que é ser mãe e fico muito feliz por eles estarem ali bonitinhos, dormindo, seguros.

3) A opinião das outras pessoas influencia ou impacta na sua forma de ser mãe? O que você faz para driblar isso?

Ser mãe é essa questão de incertezas e é uma posição que a partir do momento que você vira mãe, você vira alvo de todas as pessoas que gostariam de ser ou que já foram, e é um conflito muito grande de você fazer coisas e ser criticado o tempo todo. Eu tenho essa questão com a minha mãe, que acha que várias coisas que eu faço hoje com as crianças, ela nunca faria; e a gente tem um embate grande com isso. Cada família tem a sua maneira certa, o seu jeito certo, mas é muito difícil fugir desse olhar que vigia… Mas eu sempre enfrentei e nunca liguei para o que estão achando. Igual quando você está no supermercado e a criança faz aquela birra. Você tem que ser firme com ela e tem pessoas que acham um absurdo você estar sendo firme com seu filho. Enfim, eu tento não dar muita moral para isso, para não impactar na minha vida.  

4) Para você, qual o lado bom e qual o lado ruim de ser mãe?

Acho que o lado bom é essa completude que você tem ao estar grávida, é uma sensação muito boa poder gerar um filho e ter esse poder de ter uma vida sendo criada dentro de você, que depende completamente de você. A parte ruim é quando isso sai do seu domínio de dentro do útero e vai para a vida. É você ter essa dimensão de que o filho está aí e que é para vida e que ele não é só seu. Eu acho que a parte ruim da maternidade são essas angústias de colocar um ser no mundo que não é seu, e de ter que prepará-lo para sofrer tudo que vai vir na vida. Eu acho que essa é a angústia do desprendimento, é a parte difícil de ser mãe.

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Profile photo of Ana Clara Oliveira

Jornalista e autora no Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.