Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

Quando entrei na faculdade de jornalismo no fim de 1988, tinha apenas 17 anos, mas total consciência da profissão que escolhera. Filha de jornalista, era clara a minha noção da responsabilidade envolvida e também da rotina difícil e cansativa que esse trabalho traria. Esperava investigar grandes temas e ajudar a resolver problemas da cidade. Sempre quis trabalhar “cobrindo buracos de rua”, como dizia o jargão. Porque o bom funcionamento da cidade – como todos sabemos – tem uma implicação direta na qualidade de vida das pessoas.

Nessa época, não podia imaginar que meu amor pela leitura, que cultivei desde pequena lendo tudo que caía em minhas mãos (e especialmente a coleção de Monteiro Lobato, que havia na casa de uma avó, e o tristíssimo “O meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos, que ganhei da outra avó), se transformaria em profissão.

Só soube que existia um curso dedicado à produção de livros quando entrei na Escola de Comunicações e Artes da USP. Durante a matrícula, também soube que o fato de estar ali me permitiria fazer disciplinas nesse curso. E fiz, logo no primeiro semestre. Com dois dos melhores professores que tive em toda a faculdade.

Essa experiência ficou gravada em mim, mas na época não se traduziu em possibilidade de trabalho. Terminei o curso, trabalhei como repórter, aprendi a ser editora de publicações e só depois de dez anos a combinação da minha formação jornalística e das traduções que fui fazendo durante esse período me levaram a trabalhar em uma editora.

E então percebi que minha paixão realmente poderia ser um trabalho. Passei pouco tempo na editora: queria colocar a mão na massa, participar de verdade do processo de produção dos livros. Abri então a Pólen Editorial em 2001 e em parte consegui. Desde então, traduzi e produzi dezenas de livros, às vezes em sua totalidade, em outras só em partes, para algumas das maiores editoras de São Paulo.

Mas foi no fim de 2013 que surgiu a oportunidade de realizar um sonho que sempre esteve adormecido: editar meus próprios livros, em minha própria editora. E assim surgiu a Pólen Livros, que começou com um título que resume realmente toda essa trajetória: “Manifesto do Sonhador”, da poeta e psicanalista Regina Gulla. Um livro que, de uma forma poética, tenta explicar o inexplicável: o amor à invenção, ao conhecimento, às histórias, às palavras.

E para mim tudo isso está muito ligado ao amor à leitura – que não se prende ao objeto livro, ao cheiro delicioso da tinta sobre o papel, à trama que não nos deixa pregar o olho e nos faz perder a noite tentando chegar ao final da história, à paixão que se constrói pelos personagens e pelos autores. O amor à leitura é um amor pela essência da humanidade, pelo que existe de mais bonito e também de mais terrível em nossa existência. Os livros nos ajudam a construir nossa identidade, nos apresentando desde cedo ao que há de igual e de diferente no mundo. Os livros nos fazem viajar por mundos e pensamentos próximos e distantes, colocando-nos em contato com o outro.

É sobre esse amor que pretendo falar nesta coluna, que inauguro hoje na Leiturinha – à cuja equipe agradeço muito a oportunidade. E com a curiosidade jornalística que sempre mantive, também trarei histórias sobre esse universo. Sugestões de temas e perguntas são sempre bem-vindas!

Abraços a todos e… boa leitura!


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.