O movimento pela humanização do parto, por meio das redes sociais e grupos de apoio, vem ganhando cada vez mais força no Brasil, pautando a importância de uma assistência mais humanizada em hospitais e maternidades de todo o país. Paralelamente a isso, o Ministério da Saúde comemorou, pela primeira vez desde 2010, o fato de que o número de cesarianas na rede pública e privada não cresceu no país. Este tipo de procedimento, que apresentava uma curva ascendente nos últimos anos, teve uma queda de 1,5 pontos. A desconstrução da nossa visão sobre o parto, o empoderamento da mulher no processo de decisão, o acolhimento e respeito em primeiro lugar e o papel das doulas neste momento, são pontos importantes quando falamos de parto humanizado. Mas você sabe ao certo o que significa este termo ou qual o cenário do Brasil em relação a este assunto? Para compreender melhor o tema, nós conversamos com Eliza Quinteiro, nutricionista e doula, com Victória Silveira que, recentemente, passou pela experiência de se tornar mãe, pelas mãos de duas doulas (entre elas, Eliza), e com o seu companheiro Gustavo Rodrigues.

O que é o parto humanizado?  

O parto humanizado nada mais é do que o parto normal como ele deve ser: centrado na individualidade de cada mulher, digno e respeitoso. Ele se fundamenta no resgate do protagonismo da mulher no processo de parir e na assistência vista não como um evento médico, mas como uma evento fisiológico que pode ser assistido por outros profissionais além do médico, como enfermeiros(as) obstétricas, obstetrizes, doulas e outros profissionais. Eliza Quinteiro afirma que “o parto humanizado se contrapõe ao modelo usual justamente por causa dessas premissas. O parto normal com assistência tradicional, geralmente, não respeita a individualidade de cada binômio mãe-filho”. Para Eliza, este movimento mostra que “as mulheres resolveram retomar as rédeas dos processos femininos, pois isso foi historicamente retirado de nós”. 

Eliza Quinteiro

Eliza Quinteiro é nutricionista e há 4 anos atua, como doula, pela humanização do parto.

Após a frustração de ver o segundo filho nascer de uma cesárea induzida, a nutricionista Eliza decidiu mergulhar no universo da humanização do parto. “O processo do puerpério após a cesárea foi muito complicado. Eu não aceitava não ter conseguido, não aceitava ter morrido na praia após buscar tanto meu parto normal. Eu não havia conseguido ser protagonista no nascimento do meu filho, nada havia acontecido da forma como eu busquei”, conta. Depois de ver um programa de televisão que falava sobre a quantidade de nascimentos por via cirúrgica realizados no Brasil, Eliza passou a pesquisar e a conhecer pessoas relacionadas ao movimento do parto humanizado. Apenas alguns meses depois, a nutricionista se inscrevia em um curso de doulas: “daí em diante não parei mais de ajudar mulheres a conseguirem ter um parto normal digno e respeitoso”, relata. Hoje, seu trabalho como doula envolve basicamente três frentes: a atuação com as gestantes antes, durante e depois do parto, a atuação enquanto co-fundadora e colaboradora do Círculo Materno – grupo de mulheres que se reúnem para trocar informações, experiências e apoio ao parto, amamentação e maternidade ativa – além da atuação enquanto ativista pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

Mas o que é doula e qual seu papel neste processo?  

A doula é uma profissional formada e especializada para auxiliar as mulheres no momento do parto, fornecendo informações para uma escolha mais consciente, tirando dúvidas, dando apoio antes, durante e depois do parto, por meio do suporte físico e emocional, se fazendo disponível sempre que a gestante precisar. Ou seja, o foco é na mulher, na mãe. Eliza afirma que “a doula é uma figura feminina que preenche a lacuna criada no ambiente hospitalar da presença de uma mulher apoiando outra mulher”.

A doula não realiza procedimentos médicos, de enfermagem ou técnicos e também não aplica nenhum tipo de medicação. Além disso, a doula não toma nenhuma decisão pela parturiente. Seu papel é apoiar, acolhendo as vontades da mulher e encorajando-a em suas escolhas. A doula é como uma personal trainner de parto, ela está ali para auxiliar a mulher, e acredita profundamente na força dessa mulher, dando força verbal para que ela siga em frente, mesmo quando tudo parece difícil. Com braços fortes para apoiar a mulher fisicamente”, ressalta Eliza.

Quais os benefícios do parto humanizado para a mãe e para o bebê?

Para a doula Eliza, os benefícios da humanização do parto são incontáveis, indo desde a espera pelo trabalho de parto – única forma de se ter certeza de que há maturidade fetal para o nascimento – até o uso de tecnologia apenas quando necessário. “Algumas pessoas acham que defendemos o ‘parto normal a qualquer custo’ ou que somos contra o uso de tecnologias na assistência e isso é absolutamente contrário ao que acreditamos. A tecnologia deve ser utilizada, porém observando-se a real necessidade do uso. Utilizar tecnologia apenas por utilizar, porque está disponível, além de encarecer a assistência, provoca danos à mulher e ao bebê”, afirma Eliza. No parto humanizado, a mulher é o centro e não o profissional que a assiste. Ela precisa ser ouvida, bem avaliada e bem acompanhada.

Quando uma mulher decide parir, ela precisa basicamente de informação e apoio. Sem apoio, o caminho é mais difícil e tortuoso. A mulher precisa de apoio para parir, para amamentar, para maternar. É nosso dever enquanto sociedade prover esse apoio e fornecer as bases para que as escolhas das mulheres sejam realmente escolhas e não imposições. – Eliza Quinteiro

O cenário brasileiro e os desafios a serem enfrentados

Com o objetivo de reduzir as altas taxas de intervenções desnecessárias – que deveriam ser utilizadas apenas em situações de necessidade, mas são muito comuns, deixando de considerar os aspectos emocionais, humanos e culturais envolvidos – o Ministério da Saúde vem realizando diversas implementações. Entre elas, estão as diretrizes de assistência para o parto normal, que servem para consulta de profissionais da saúde e gestantes. A partir das diretrizes, todas as mulheres passam a ter o direito de definir seu plano de parto, com informações como local onde será realizado, orientações e benefícios do parto normal. Além disso, o parto normal poder ser realizado pela enfermeira obstétrica ou obstetriz e as maternidades devem incorporar na assistência: liberdade de posição (cócoras, quatro apoios, de lado, em pé, ajoelhada) durante o parto, dieta livre (jejum não obrigatório), presença de doulas, acompanhante, respeito à privacidade da família e métodos de alívio da dor como massagens e imersão em água. Outras recomendações são o contato pele-a-pele imediato com a criança logo após o nascimento e o estímulo à amamentação.

Para Eliza, “estamos avançando aos poucos e mostrando que estamos lutando por um ideal de assistência ao parto e nascimento que seja digno, respeitoso e respaldado pela ciência para todas as mulheres. Pois todas têm esse direito”. Ainda assim, o movimento pelo parto humanizado enfrenta tabus, preconceitos e desafios. Um deles, por exemplo, é o fato de que ainda não há uma Lei Federal que autorize a presença de doulas no momento do parto, em hospitais e maternidades. A Lei nº 11.108/2005, a Lei do Acompanhante, garante a presença de um acompanhante durante o trabalho de parto, parto e pós-parto. Mas apenas um acompanhante. Alguns estados e municípios já vêm aprovando leis que autorizam a entrada e permanência da doula, além do acompanhante escolhido pela mulher, no momento do parto. Mas isso ainda não é válido para todo o território nacional, variando de acordo com cada localidade. Isso significa, que em algumas cidades e estados, é preciso que haja negociação entre doulas e gestores para que a mulher não precise escolher entre um acompanhante e sua doula, na hora do parto. “Mas estamos caminhando a passos largos e esse é o objetivo: fazer com que o parto humanizado seja acessível a todas as mulheres”, afirma Eliza.

Do outro lado da história

No dia 26 de abril deste ano, nasceu a pequena Helena e, junto com ela, nasceu também uma mãe e um pai. Victória Silveira e Gustavo Rodrigues, como qualquer casal de pais de primeira viagem, aguardaram ansiosamente pelo dia em que iriam conhecer o rostinho da primeira filha, Helena. A diferença é que, junto com eles, outras duas pessoas aguardavam tão ansiosamente quanto. Essas duas pessoas eram Eliza Quinteiro e Juliana do Carmo, as doulas de Victória, que estiveram presentes antes, durante e depois do parto, auxiliando até hoje, sempre que necessário. “Meu primeiro contato foi com a Eliza. É comum na gravidez termos muitas dúvidas. Foi quando ela abraçou a mim e minha família e cuidou de nós durante toda a nossa gestação. Eu corria pra ela e pra Ju, como um filho corre para o colo da mãe”, lembra Victória.

Em relação à importância das doulas durante o parto, Victória diz não saber mensurar: “mas sei descrever o clima e a calma que elas propiciam, é uma força ancestral e um vínculo profundo que criamos. Essas mulheres se colocam para nós de uma forma indescritível e abrem a porta da gaiola que encarcerava a nossa força. Elas nos convencem o tempo todo de como somos fortes”. Gustavo, noivo de Victória, ressalta a importância da participação e presença do companheiro neste momento da vida da mulher: participar do parto da Helena, integrado de corpo e alma, foi um momento de verdadeira transcendência, um encontro com Deus. Ver o nascimento de nossa filha, sem intervenção ou qualquer tipo de procedimento abusivo por parte da equipe, me fez refletir sobre a necessidade das pessoas entenderem a fundo o parto humanizado, sem filtros ou preconceitos. Busco, sempre que posso, passar a outros pais minha experiência, pois o homem que está junto com sua esposa, participando de forma ativa, só contribui para a humanização do parto”.

As palavras da mãe e o olhar do pai

Victória nos deu um depoimento sobre sua hora do parto, que foi acompanhada de perto pelas lentes de Gustavo que, além de companheiro é fotógrafo. O relato e registro transbordam sensibilidade, retratando o momento em que a pequena Helena veio ao mundo, com o apoio de duas doulas e uma equipe pautada pelo respeito, cuidado e acolhimento. Confira:

Lembro-me de ir me deitar em uma segunda-feira e me sentir a mulher que esteve escondida por tanto tempo. Na manhã do dia 26 de abril, às 6h, eu acordei, enquanto meu noivo ainda dormia. Não conseguindo pegar no sono novamente, comecei a ver vídeos de partos, em especial, um que aguardei para ver desde o início da gestação, sobre a dor do parto. Fiquei até às 8h na cama, sem conseguir retornar ao sono, precisei acordar meu noivo, pois havia algo diferente. Conversamos um pouco e decidi tomar banho. Tinha cólicas. Iam e vinham sem ritmo, provavelmente outro alarme falso. Falamos com a Ju e a Eliza, minhas doulas, e disseram para começarmos a cronometrar. Ainda sem ritmo, mas mais intensas. Eu entrava e saía do banho, a água quente era como mãos massageando minhas costas, mas com o tempo não fazia mais efeito. Lembro de pensar que aquela era a dor máxima e, realmente, não era tão ruim assim. Não era a dor máxima, às 11h eu gritava. Gritos de fêmea parindo, nas palavras de Ju. Gustavo, meu noivo, pediu que elas viessem. “Vic, respira, mais uma é menos uma”. Vinham basicamente de minuto em minuto, cheguei a vomitar de dor. Eles me vestiram e fomos para o hospital. Fui, aos gritos no caminho, ao som de Secos e Molhados. Chegando ao hospital, comecei a ter puxos no corredor da maternidade. Fui para a sala de pré parto na cadeira de rodas, mesmo desconfortável, era difícil ficar sentada. Ao me levantar, a bolsa se rompeu. Disseram para eu me deitar, não conseguia, então Ju sugeriu a banqueta. Eu já não conseguia ver nada, só sentir que a Helena estava vindo. Foi a beleza do parto normal, perder o controle e deixar que ela guiasse, no tempo dela. Lembro-me apenas de alguns flashs, a Eliza e o Gu se revezando para me darem apoio e a sala cheia de mulheres. 12h44, Helena nasceu pelo SUS. Meu parto foi humanizado e eu não escolhi isso, porque não é questão de escolha. Eu sonhei, sim, em parir na banheira, poder me movimentar, comer, mas mesmo não acontecendo com todas as facetas que tem o parto humanizado, ele não deixou de ser. Isso porque leram meu plano de parto, mesmo que correndo. Também porque seguraram minha mão, me chamaram pelo nome, me ouviram e me cuidaram. Permitiram que eu tivesse meu noivo e minhas doulas comigo, e eu não precisei me preocupar e nem me estressar com nada. Eu acredito que o maior pilar que sustenta o parto humanizado seja a informação, pois eu sabia que estava amparada pela lei e que meus acompanhantes estavam cientes dos meus direitos. Eu só precisei ouvir meu corpo e parir. A equipe médica só precisava me amparar e respeitar os limites de intervir. Foi assim que nasceram a humanização do parto e a Helena.

Foto de capa: Gustavo Rodrigues

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Jornalista e editora do Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.