Separação após nascimento do filho

A anunciação de uma nova vida no mundo vem carregada de expectativas, principalmente quando somos nós os responsáveis por instruí-la. Tal função é desempenhada sem ensaio. Não há quem nos instrua, podemos nos espelhar, tentar não cometer os mesmos erros dos outros, mas uma vida é sempre uma incógnita, um universo montando-se baseado no que passamos a ele. Somos desnudados e, não obstante, afrontamos também o companheiro que está no mesmo processo de despir-se de todas as máscaras. Por isso, muitas vezes, o relacionamento cai por terra e segue-se a caminhada, um a um.

Após muitos planos, preparativos e expectativas, o bebê finalmente chega! O primeiro filho do casal traz uma imensidão de alegria e amor, nunca antes imaginados. No entanto, por outro lado, com a chegada do pequeno, não só a rotina do casal muda, como eles também. Com as responsabilidades e os cuidados com o recém-nascido, o tempo fica curto, os sentimentos à flor da pele, o sono não tem vez e, com isso, é possível que haja o cansaço e o afastamento do casal, resultando algumas vezes na separação após nascimento do filho.

Mas quais seriam esses conflitos que, sem um bom diálogo, dedicação e paciência, podem ser tão intensos a ponto de levar à separação após o nascimento do filho?

1. Puerpério

Puerpério é também conhecido como pós-parto. É um momento de muitos conflitos pois, além do nascimento, abarca também um período de luto. Luto por quem éramos, pelo que fazíamos, pelos sonhos antigos que ficaram para trás e terão de ser refeitos.

Nascem um bebê, uma mãe, um pai e toda uma nova perspectiva de vida que terá que ser conciliada com a nova rotina. No puerpério, os hormônios de ambos estão à flor da pele, em conjunto com todas as outras situações, como a dificuldade para amamentar, a recuperação do parto, o curto período de licença-maternidade e paternidade e a indisposição.

2. Divisão de tarefas

Tarefas, antes simples, acabam se tornando dispendiosas e exaustivas, considerando que o recém-nascido carece de colo e, muitas vezes, acaba não sobrando tempo nem para um banho ou cuidados básicos consigo mesmo.

Devido ao pouco conhecimento em geral de como é a maternidade real, cria-se a ideia de que dedicar-se aos cuidados com os filhos é uma tarefa simples, quando, na verdade, demanda muito tempo e esforço, principalmente, somados às demais tarefas. Quando não há a divisão exata das tarefas e a plena compreensão do quão complicado é desempenhar cada uma delas, é certo que haverá conflito.

3. Confronto de limites

O dia não dá trégua e as noites são mais curtas. Qualquer desatenção é bomba, toda inadimplência é um insulto. São as brechas que encontramos para extravasar a tensão que se acumula, mas o problema é que são dois, de ambos os lados. Os panos quentes quem coloca é a própria rotina.

4. Afastamento e esfriamento da relação

Diante de tantas novas obrigações, é certo que muitas coisas acabam sendo deixadas para trás ou passam despercebidas. Quase não há tempo para os olhos se encontrarem, pois estes estão voltados para o relógio, as mãos não se tocam, pois estão trocando fraldas, as bocas não se beijam, pois estão provando a temperatura do leite ou da comida. O abraço não chega, pois o cansaço é mais forte. O carinho pode esperar, pois o corpo não espera…

5. Privação do sono, esgotamento físico

Anoitece e o nosso corpo assimila o escuro ao descanso. Os olhos pesam, a energia dá os sinais de que está chegando ao fim e precisa se recompor. Mas com a noite, o bebê que antes dormia, entra em um estado incontrolável de desespero. A noite é silenciosa, escura, fria, não tem os mesmos ruídos do útero. É o clima perfeito para o surgimento de dores e medos e, por isso, eles choram.

Nosso corpo precisa aprender que o sono não tem mais espaço na rotina corrida. No lugar deste, vem os banhos noturnos, o “sh sh sh” que não cessa, a tentativa de descobrir a posição mais confortável para o bebê e as discussões por conta do cansaço.

6. Aprender a conciliar a vida pessoal com a nova vida

Somos sonhos cansados, mas não deixamos de ser. Em meio a tanta confusão, temos de reconstruir o lar e a si próprio, mas as coisas estão sempre perdidas… O sonho da promoção estava dentro da gaveta, mas foi encontrado em cima da cortina. Aquela viagem do ano que vem sumiu no escuro embaixo da cama. A pós-graduação? Não sei, nunca mais vi…

Com isso, os sonhos menores como o passeio de mãos dadas na praia, o beijo na virada do ano, o abraço em momentos de alegria, acabam sendo varridos para baixo do tapete e se perdem por lá.

7. Saudades da vida antiga

Os amigos se distanciam, junto com as asas do pássaro livre. Agora, só conseguimos sair do ninho se for para voltar com o alimento da cria. Qualquer outro desgaste excessivo é demais, faz falta. Nossos assuntos passam a não ser mais interessantes, pois o futebol, a política, a filosofia são substituídos pela dúvida sobre qual carregador de bebê é melhor, o desgaste diário ou o preço da fralda.

O único confidente passa a ser o companheiro, que também carece de cuidados e de ser ouvido.

8. Aumento das dívidas

O dinheiro dos fins de semana é convertido para suprir as necessidades do pequeno e isso é quase inconsciente, não sentimos o impulso, pois ele é instantâneo. Nossas necessidades acabam se tornando menores quando comparadas à vontade de proporcionar a melhor base aos nossos filhos.

9. Necessidade de autoafirmação

Olhar-se no espelho e enxergar apenas uma aparência cansada. Sentimos o peso de todas as obrigações nos ombros. O corte de cabelo a desejar, a ruga que antes não estava lá, o sono que precisava se aliviar em algum lugar e achou conforto justo embaixo dos olhos.

A beleza deixa de fazer morada no espelho e a auto-confiança cai.

É amor demasiado voltado para a família, enquanto nós, somos esquecidos por nós mesmos.

E quem se lembra?

O amor fica na memória, não dá tempo de lembrar. Então ele parte.

Leia também:

Profile photo of Victória Silveira

Sou Victória Silveira, escrevo como convidada para o Blog da Leiturinha e, no amanhecer dos meus 19 anos, acabei por me reconhecer como escritora, amante das Artes e mãe da Helena.