A representatividade na literatura infantil 

Já falamos aqui no Blog da Leiturinha sobre a importância de trabalhar a autoestima na educação das crianças para que elas cresçam mais seguras e independentes. Também já ressaltamos como a literatura infantil, com sua ludicidade e linguagem leve e adequada ao imaginário infantil, colabora para que, até mesmo, assuntos mais complexos sejam discutidos, como o respeito às diferenças, o combate ao racismo e a intolerância. Hoje, em comemoração ao mês da Consciência Negra, vamos falar sobre a importância da representatividade na literatura infantil, colaborando para a construção da identidade e da autoestima de crianças negras.

A construção da identidade na infância

Durante a infância, vivemos o auge do nosso aprendizado, especialmente na primeira infância, período que vai desde o nascimento até os seis anos de idade. Assim, tudo aquilo que os pequenos têm acesso e convivem, tornam-se referenciais na construção de suas teorias de mundo, suas ideias de família, de sociedade, de relações e de si mesmos. Porém, as crianças ainda não filtram o que lhes é apresentado e não refletem por si sós sobre o conteúdo que lhes chega – se é bom, ruim ou se haveria outra possibilidade. Para isso, precisam da intermediação de adultos, que os façam perguntas e os levem a refletir. Dessa forma, se uma criança sempre consome livros ou programas em que um padrão (de comportamento ou de imagem) se repita, aquela mensagem será captada como uma verdade para ela.

Por mais diversidade nas páginas dos livros!

Se vivemos em um mundo tão diverso e rico, por suas diferenças, não faria sentido encontrarmos na literatura apenas uma pequena parcela da sociedade representada, tanto nos personagens quanto na autoria destes livros. Por esse motivo, é cada vez mais importante que tenhamos personagens principais negros na literatura, bem como autores e autoras, de modo que crianças negras e brancas possam se identificar e construir visões de mundo mais amplas e realistas.

A importância da literatura na apresentação e representação das diferentes histórias e culturas

A autora nigeriana Chimamanda Adichie, em uma palestra ao reconhecido Ted Talks, fala sobre a importância da representatividade para que não haja uma história única sobre os diferente povos, culturas e lugares. Em sua fala, ela lembra como se sentia, quando criança, ao ler apenas contos de fadas em que as personagens eram brancas, de olhos azuis e viviam no frio, sendo ela negra e morando em uma região muito quente. Pensando nisso, faz-se necessário que a literatura, assim como os demais canais de comunicação, seja vasta e eclética, de modo a não apresentar sempre histórias com os mesmos padrões recorrentes. Como fator de identificação da criança, a literatura tem muito a contribuir para a construção de sua identidade e, no caso das crianças negras, é fundamental que hajam cada vez mais personagens principais negros.

A importância da representatividade na literatura não perpassa somente o tema da cultura afro, mas todas as demais, como, por exemplo, a importância de se ter autoras mulheres, sendo que, há algumas décadas, a maioria dos autores eram homens.

Literatura infantil, representatividade e identidade negra

IMG-20171117-WA0006

Luana e família. Arquivo pessoal

Nós conversamos com Luana Gabriela, graduada em Pedagogia, professora do Ensino Fundamental desde 2010 e mãe de dois pequenos. Neste bate-papo, ela relatou como vê a questão da representatividade na literatura, a importância de as crianças se identificarem com os personagens e como isso tem mudado desde a sua época de infância até os dias de hoje.

Leiturinha: Como você vê a questão da representatividade negra na literatura infantil?

Luana: Confesso que conheço pouquíssima literatura em que há uma  representatividade de negros. Vejo que não há um interesse em comercializar literaturas em que há negros. A maioria das histórias que vejo são de superação ou inclusão. E as crianças querem ser o que tem poderes e não aquele que venceu/superou preconceito ou a vida consequente de um massacre histórico.

Leiturinha: No seu dia a dia em sala de aula, como você lida com essa questão?

Luana: Estou em um momento de percepção, valorização e conhecimento da minha negritude agora, aos 35 anos. Em sala de aula, as crianças são provocadas a conhecerem quem, quando e como nosso país, povo e cultura foram construídos, através de estudos, mas sempre sinto falta de literatura que conte essa história de forma crítica, divertida e que as crianças compreendam. Sinto falta de heróis negros com os quais todas as crianças (negras ou não) se identifiquem.

Leiturinha: Qual a importância de as crianças se identificarem com os personagens?

Luana: Quando eu era criança, eu queria ser a Mulher Maravilha. Nem brasileira ela é! Penso que uma literatura que coloque personagens negros e, indígenas em situações cotidianas ou em situações que sirvam de referências para toda e qualquer criança, seja extremamente importante para que as crianças se identifiquem com personagens que sejam verdadeiramente nossos. Brasileiros! E que, ainda, dialoguem com essas crianças.

Leiturinha: Em relação a esta questão da representatividade, você sente que houve alguma melhora de sua época de infância em relação ao que seus filhos tem acesso hoje em dia? Como você conversa com eles a respeito deste tema?

Luana: Acredito, sim, que a representatividade seja diferente hoje em dia. Se hoje os negros aparecem timidamente na literatura, na minha época era ainda mais escasso. Na verdade nem me lembro de nenhum que eu tivesse conhecido na infância. É muito fácil embranquecer a vida de um filho, inclusive na literatura. Acredite, há muitos negros que pensam que são brancos. Isso é sério! Fruto de uma história, vida, mídia… Todo o tipo de recurso de embranquecimento, mesmo que em alguns segmentos isso não seja proposital. Com meus filhos, busco que eles saibam e tenham orgulho da nossa (todos) história, que se identifiquem como negros e vejam o quanto são lindos! Sempre que encontro, mantenho-os em contato com literatura que esteja relacionada à personagem, herói, história, pessoa… Negro!

Dica Leiturinha:

Pensando na importância da representatividade negra na literatura infantil, a Equipe de Curadoria da Leiturinha indicou 2 títulos incríveis que valorizam a história e a cultura afro, com negros e negras como personagens principais. Em breve, estes livros farão parte de uma Coleção Leiturinha imperdível: a Coleção Vozes Africanas.

OBAX

OBAX

Autor e ilustrador: André Neves
Editora: Brinquebook

Este é um conto de ficção pensado por André Neves com objetivo de resgatar e disseminar a cultura de diversas aldeias do oeste da África, através da literatura. Tribos essas que são referência na cultura étnica africana. As ilustrações remetem a arte feita por mulheres desses diversos grupos, que utilizam de pigmentos naturais feitos a partir de plantas. As referências visuais e linguísticas fazem desta obra uma conexão entre culturas, literatura e imaginação.

Zum Zum Zumbiiiiiiii

Zum Zum Zumbiiiiiiii

Autora: Sonia Rosa
Ilustradora: Simone Matias
Editora: Pallas

Esta obra traz a importante reflexão sobre a escravidão e a luta do povo africano na história do Brasil. Seu pequeno irá conhecer um pouco mais sobre o Zumbi dos Palmares, que é uma figura forte, muitas vezes até questionada, mas muito representativa do movimento de resistência negra no Brasil. Ele está presente nos livros e no calendário escolar dos pequenos de forma marcante e agora podemos levar esta reflexão para toda a família também.

 A Leiturinha preparou uma Playlist especial sobre este tema. Com importantes nomes da música nacional e internacional, cantando sobre diversidade, representatividade e importância da cultura negra, em ritmos leves e envolventes, a Playlist Consciência Negra é ideal para ouvir juntinho do seu pequeno!

Leia mais:

Profile photo of Sarah Helena

Mãe da Cecília, psicóloga, especialista em Filosofia, sempre trabalhou com famílias, especialmente com os pequenos. Por esse amor ao universo afetivo infantil, hoje, na Leiturinha, ela colabora fortalecendo o vínculo das famílias leitoras através da experiência da literatura.