Coluninha | Por Luciana Mendina.

(Acompanhe o início da história de Bernardo em O que está acontecendo com o meu filho?)

A suspeita da surdez

Nossa primeira impressão – minha e de meu marido – era de que Bernardo tivesse um problema auditivo. Agora vejo que, para nós, era melhor ter um filho surdo do que autista. Preferíamos que ele fosse surdo; mais fácil de tratar, mais fácil de curar, mais fácil de aceitar.

Minha vizinha e amiga Zoraima, que foi contrabaixista do Teatro Municipal, também tinha suas teorias. Para ela, a suspeita era de que ele era surdo ou tinha um sério problema auditivo. Ela dizia que não tinha outra explicação para o seu comportamento.

Zoraima morava dois andares acima de nós e, quando eu tinha um tempo livre, subia para lhe contar alguma novidade ou apenas para jogar conversa fora. Ela também aproveitava seus momentos de folga para me fazer uma visita.

Um dia, para me provar a sua tese da surdez, ela pegou a cabecinha dele e botou no buraco do instrumento e tocou uma melodia que, segundo ela, faria qualquer criança dar um pulo.

Qualquer criança, menos o meu filho. Bernardo nem se mexeu. Fiquei mais nervosa ainda. A hipótese da surdez foi ganhando mais adeptos entre amigos e familiares. Mas, pelo menos, era uma suspeita de surdez. Não era algo ameaçador. Não era uma doença fatal ou crônica.

Nesse meio tempo, decidi passar as férias de julho em Porto Alegre. Conversei com meu marido e achamos que seria melhor eu me afastar por um tempo, até para relaxar e matar as saudades da minha família, que poderia me ajudar com as crianças.

Minha irmã menor, Maria Pia, estava se formando em Psicologia e me sugeriu uma entrevista com a equipe multidisciplinar do Centro Lydia Coriat, em Porto Alegre, para investigar o comportamento do Bernardo.

Ela concordou comigo que o comportamento dele era realmente estranho e que eu deveria leva-lo a essa junta médica, formada por profissionais do Lydia Coriat, do qual o psicanalista Alfredo Jerusalinsky era diretor. A partir daí, tudo ocorreu como se estivesse predestinado.

O diagnóstico de autismo

Dr. Alfredo atendia em um consultório no bairro Auxiliadora e, já na primeira consulta, explicou a necessidade de uma avaliação multidisciplinar, com a intervenção de um neurologista e de um otorrino, para que fossem descartadas doenças como surdez e problemas neurológicos.

Fomos, então, ao consultório do Dr. Lavinsky, onde Bernardo foi submetido a dois tipos de exames: audiometria e PEA (Potenciais Evocados Auditivos). Tivemos dificuldades para realizar o exame de audiometria, pois meu filho não colaborava, e também o PEA, porque ele não se acalmava, não aceitava ter de ficar quieto para sua realização. Estava muito agitado.

Os resultados mostraram que não havia nenhum sintoma ou sinal de surdez ou qualquer comprometimento do canal ou da transmissão auditiva que pudesse causar seu estranho comportamento.

No dia seguinte, tínhamos consulta marcada com o neuropediatra Rudimar Riego, que o examinou no seu consultório e marcou o eletroencefalograma para os próximos dias. Durante a consulta, Bernardo ficou ansioso, irritado. Não aceitava ser tocado pelo médico. Precisou ser sedado para fazer o exame. Pegaríamos o resultado assim que estivesse pronto.

Faltava uma semana para o aniversário de dois anos de Bernardo quando recebi a “bomba” do neurologista, que foi categórico ao afirmar que Bernardo era autista. Lembro até hoje do que ele disse: “O Dr. Alfredo pode dizer o que quiser, mas ele é autista. Pode ser de grau leve, moderado, mas é autismo”.

Soube depois que o Dr. Alfredo também suspeitava de que ele era autista, mas ainda não tinha se pronunciado justamente por estar esperando o laudo neurológico e a finalização de sua própria avaliação.

Ter um filho diagnosticado com autismo soa como uma sentença. Uma sentença de morte em vida. Quando o neurologista explicou a situação, tentei convencê-lo de que ele estava errado citando ações, atitudes e feitos do meu filho, como se ainda fosse possível modificar o diagnóstico.

Sabia que ele era diferente, mas não sabia o quanto. Aquela certeza, aquela segurança em relação ao diagnóstico, deixou-me tonta. Fiquei atônita. Minha irmã Maria Amanda e meu cunhado Fabiano foram me buscar na consulta. Fiquei tão confusa, tão sem chão, que lembro de ter lhes dito, ao entrar no carro, que “se eles não quisessem mais ser padrinhos do meu filho, eu entenderia”. Foi a minha primeira reação. Uma reação completamente impulsiva, hoje eu percebo. Eu estava assustada. Achei que o mundo se fecharia para o meu filho, que ele seria rejeitado a partir daquele momento. Achei que só eu poderia aceitá-lo e amá-lo do jeito que ele era. Mas eu estava enganada.

Continua em O início do tratamento.


Luciana Mendina é jornalista e autora do livro “O autismo tem cura?”, publicado pela Editora Langage.

Profile photo of Luciana Mendina
Jornalista

Autora do livro “O autismo tem cura?", publicado pela Editora Langage.