“Meu filho anda meio tristinho…” 

“Minha filha não quer sair do quarto…”

“Meu filho não conversa com ninguém, anda cabisbaixo…”

As frases acima listadas são todas extraídas de fóruns na internet, onde pais desesperados tentam encontrar uma resposta para a tristeza que seus filhos vivem, dentro de suas casas. Muitas vezes, ela aparece do nada e deixa todo mundo desorientado, confuso. A resposta, principalmente quando o comportamento parece ser constante e duradouro, pode ser a depressão infantil. Apesar de ser algo crescente e encarado com mais naturalidade pelos adultos, a depressão também manifesta-se em crianças e aí vira um tabu, algo que não deve ser comentado e que infelizmente ainda é causador de culpa da parte dos pais. Mas como lidar com isso e, mais ainda, como explicar a depressão para crianças?

Precisamos encarar a depressão, acima de tudo, como uma doença. 

Nem mais, nem menos. Muitos pais tentam entender onde foi que erraram, tentam encarar como “falta de fé”, falta de amigos, falta de amor, falta de atividades. Mas a depressão é, como toda doença, um assunto clínico. E ninguém trata uma dor forte no estômago apenas com carinho. Geralmente recorre-se à medicina e a dor é diagnosticada e tratada da maneira correta, por profissionais qualificados. Por que fazer o contrário com uma doença tão séria quanto a depressão?

Sintomas da depressão infantil

Alguns sintomas da depressão infantil são listados por centenas de profissionais que dedicam seu tempo para estudá-la. O número de diagnósticos de depressão em crianças passou de 4,5% para mais de 8% nos últimos 10 anos. A previsão é que em 20 anos ela seja a doença mais comum no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Portanto, vale a pena observar se seu filho tem demonstrado algumas atitudes como:

– Dificuldade de concentrar-se na escola, geralmente acompanhada de falta de interesse em aprender coisas novas.

– Alterações bruscas de humor, ora irritando-se, ora em estado de euforia, ora chorando sem motivo aparente.

– Desinteresse em atividades que envolvam outras pessoas, sejam elas familiares, colegas de escola e demais crianças.

– Dificuldade para dormir durante a noite e sono excessivo durante o dia.

– Sentimento de culpa excessivo, com tendência a punir-se por pequenas falhas.

– Sentimento de rejeição, como se não sentisse que é parte deste mundo.

– Dores de cabeça, dores abdominais, cansaço excessivo nas pernas.

– Dificuldade de controlar o xixi.

Importante: toda criança manifesta os sintomas acima vez ou outra, mas quando eles passam a ser duradouros e cada vez mais intensos, é necessário atenção especial. Por isso, confie na opinião de um psiquiatra.

Para os pais, um alívio: não é culpa sua. 

Por mais que fatores externos contribuam para a depressão, a doença se manifesta em qualquer um, seja ele rico ou pobre, mimado ou não. Não dá pra carregar um peso que não é seu, ok? Ao invés de gastar essa energia culpando-se, que tal investir na criação de uma rede de apoio para o pequeno, demonstrando que ele não está sozinho? 

Cuidar da criança depressiva envolve um princípio primordial: não julgar, não ter preconceito e nem comparar a criança com as demais. Frases como “seu irmão é tão animado e você não é”, ou “aquela criança da nossa rua brinca tanto e você não sai de casa” só pioram o tratamento. Cada criança tem seu tempo e ritmo. Exerça empatia.

Mas como explicar a depressão para crianças?

Dito isso, vamos conversar sobre uma coisa delicada: como explicar a depressão para crianças? Para isso, temos algumas dicas importantes:

– Não crie lendas ou fantasias. 

Imaginar é tudo de bom, faz parte do universo infantil mas apenas na hora certa. Explique para a criança que a depressão que ela carrega é uma doença e que será tratada. Nem mais, nem menos. Lide como uma dor de barriga e trate o assunto com naturalidade. Para a criança, saber o que ela tem e saber que está sendo cuidada é um passo importante para diminuir a força da doença.

– Participe do tratamento.

Você não precisa fazer parte das sessões nem ajudar o terapeuta a entender seu filho. Ele sabe como fazer isso e, naquele momento, ficar a sós com o pequeno paciente é essencial. Sua participação no tratamento é acompanhar o pequeno até o consultório, conversar com o terapeuta para pedir indicações sobre como agir e incentivar o progresso da criança. Nada de ficar perguntando para o filho sobre os assuntos abordados. Por mais que a curiosidade e a ansiedade sejam enormes (afinal você quer ver a criança bem o mais rápido possível), seja paciente.

– Crie um ambiente seguro e amoroso.

Coisas simples, como uma nova roupa de cama no quarto, atividades em família e jantares com um toque de alegria (incluindo o prato predileto da criança) podem fazer a diferença. Não vão curar a doença, mas vão dar um recado claro de que a criança está em seu lugar, está sendo amada e respeitada.

– Elimine do vocabulário familiar termos pejorativos.

Nada de tratar a depressão como frescura, como birra, como falta de força, falta de fé ou como fracasso. A criança precisa ser incentivada e estimulada. Há relatos de pais que deixam de levar os filhos até um profissional de saúde mental alegando que “seu filho não é louco”. Pensar assim só vai trazer malefícios para todos.

– Faça dos professores seus aliados.

Peça ajuda aos professores da criança. Eles terão prazer em observar seu filho com carinho e atenção, para cuidar dele em situações de pressão, como trabalhos em grupo, provas e até mesmo pequenas desavenças com colegas. Deixe claro que é um pedido de ajuda, para que o professor não sinta que está sendo considerado culpado pela doença. Ele é, antes de tudo, um grande reforço.

– Incentive a imaginação.

Livros infantis são sempre ótimos aliados, sendo inclusive recomendados por profissionais, é a biblioterapia. Por isso, leia com seu pequeno, converse sobre as histórias, induza a sair um pouco de sua realidade e seus questionamentos sobre a vida rumo a momentos lúdicos que vão descansar a cabeça. A fantasia é um recurso inesgotável para momentos familiares.No PlayKids App, o conteúdo original Balãozinho traz meditações guiadas bem curtinhas, que abordam viagens imaginárias, ansiedade, alegria, tristeza e até mesmo ajudam a dormir bem. Faça uso dessas ferramentas.

– Por fim, Relaxe.

Aqui o conselho não é “deixar de lado os problemas e fingir que não existem”, mas sim uma dica para manter a paz e a saúde mental de todos em casa. Não adianta se desesperar, nem ficar em estado de alerta o tempo todo, por mais que a depressão exija cuidados.

Relaxar com a criança é fundamental, seja curtindo de fato os momentos em família, assistindo filmes que ela gosta e brincando junto

Faça sua parte, mas sem o peso de ser um super-herói. Você só precisa ser um pai/mãe atento e amoroso. Esse é o papel que vai fazer a diferença e trazer a luz necessária para a escuridão chamada depressão infantil.

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João Godoy é editor de conteúdo da PlayKids. Roteirista e produtor criativo, é um dos criadores dos personagens da série animada O Pequeno Mundo de Dante.