Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

Se as crianças hoje têm essa infinidade de maravilhas impressas para manusear, brincar e se divertir desde a primeira infância, isso se deve em boa parte ao designer italiano Bruno Munari, falecido em 1998 aos 90 anos. Munari até hoje é uma grande referência no design e na comunicação visual, mas foi pensando nas crianças que ele desenvolveu algumas de suas obras mais criativas.

No livro “Das coisas nascem coisas”, ele dedica dois capítulos aos livros – e questiona o papel social desse objeto não só em relação ao conteúdo, mas principalmente quanto à forma. No capítulo “Um livro ilegível”, ele fala sobre como a narrativa visual e o papel em si são capazes de estimular a criança sem a necessidade de um texto. O papel e as características físicas passam a assumir uma posição de destaque não só como suporte, mas também para a comunicação e o conteúdo.

acreditar que você estará lá sempre que ele precisar.

Em suas experimentações, Munari explorou ao máximo essas possibilidades, tentando demonstrar que era possível comunicar alguma coisa em termos visuais e táteis e sem palavras. Ele combinou uma infinidade de papéis, das mais diversas texturas e cores, acreditando que cada um deles comunica suas próprias características e que isso pode ser usado em combinação com outros elementos para trazer outros conhecimentos.

Pensando nas crianças menores, pré-alfabetização, ele também criou os “pré-livros”, tema de outro capítulo do mesmo livro. Completamente diferentes entre si, todos se chamam “Livro”, e são “como os volumes de uma enciclopédia que contém todo o saber ou, pelo menos, muitas e diferentes informações”. Assim, são todos parecidos na forma, mas por dentro são totalmente diferentes entre si, estimulando todos os sentidos da criança com informação visual, tátil, material, sonora e até térmica.

Bruno Munari não viveu para ver as crianças brincando no tablet ou no celular antes mesmo de conseguirem dizer uma frase com sujeito e predicado, mas, criativo e curioso que era, talvez estivesse hoje experimentando o potencial dos aplicativos em tudo que eles têm de estimulantes e divertidos. Mas além da falta da questão tátil que os pré-livros e os livros ilegíveis que ele inventou proporcionam, Munari sem dúvida continuaria defendendo acima de tudo que é preciso deixar a imaginação voar.

É preciso, desde cedo, habituar o indivíduo a pensar, imaginar, fantasiar, ser criativo. Eis porque esses livrinhos não são mais do que estímulos visuais, táteis, sonoros, térmicos, materiais. Devem dar a impressão de que os livros são objetos assim, com muitas surpresas dentro. A cultura é feita de surpresas, isto é, daquilo que antes não se sabia, e é preciso estarmos prontos a recebê-las, em vez de rejeitá-las, com medo de que o castelo que construímos desabe.

Dica de passeio

Para quem está em São Paulo ou tem chance de aparecer por aqui até o final de julho, o Espaço da Leitura do Parque da Água Branca está com uma exposição imperdível, que tem tudo a ver com a obra de Bruno Munari. “Leituras da Leitura – Maneiras de Ler” traz uma instalação com materiais aproveitados de demolição, além de apresentar as várias possibilidades materiais do livro para demonstrar justamente que a estrutura física, os elementos e o formato de um livro também fazem parte da experiência de ler. O Espaço da Leitura tem um acervo de mais de 2 mil títulos de obras infantis e está aberto de quarta a domingo, das 9h às 18h. A entrada mais fácil é a da Rua Ministro Godói, 180.


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.