Pegue uma quantidade de argila e coloque sobre uma superfície lisa. Espalhe criando uma forma retangular e aperte bem, para que fique com cerca de 1 centímetro de altura. Antes que seque, utilize um graveto para riscar sobre a argila e ali deixar registrada a sua história. Pronto! Você acabou de criar uma página de livro, como fizeram os antigos sumérios, há cerca de 5.200 anos.

Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida

Uma placa de argila contendo trechos de um poema em homenagem a um rei, encontrada na antiga região da Mesopotâmia, hoje Iraque, é considerada o livro mais antigo do mundo. Essa singela placa sobreviveu durante todos esses anos para contar a história de como o homem começou a preservar seus conhecimentos e transmiti-los de geração em geração. Antes, tudo o que se sabia era contado de pai para filho, oralmente. A partir da invenção da escrita, foi possível registrar esses conhecimentos nos mais diversos materiais. E a reunião de escritos deu origem ao livro.

Primeiro foi a argila, depois as folhas do papiro. Inicialmente, eram rolos – e as bibliotecas eram depósitos de rolinhos um ao lado do outro (tem um filme muito legal chamado Alexandria, que mostra bem isso e ainda conta a história de uma mulher incrível, Hipátia, que foi astrônoma e professora na famosa biblioteca da cidade egípcia).

Só na época dos gregos e depois dos romanos é que os livros começaram a ter… páginas! Inicialmente, eles prendiam várias tábuas de madeira revestidas com cera de abelha onde se registravam as informações. Depois, surgiu o códex ou códice, uma reunião de pergaminhos, feitos de pele de animais. O códice era uma mão na roda: já imaginou pesquisar um trecho de texto em um rolo enorme de papiro sem o mecanismo de busca do Google? Com o códice, também foi possível inventar o índice. E assim criar referências para se encontrar informações específicas.

O papel mais parecido com o que conhecemos hoje, feito de fibras de plantas trituradas, foi inventado na China, cerca de 100 a.C. Ou seja, mais ou menos 3.000 anos depois daquela plaquinha de argila da Suméria. Mais ainda foram necessários mais 1.600 anos para que surgisse o primeiro livro impresso: a Bíblia de Gutenberg.

O alemão Gutenberg inventou, por volta do ano de 1.450, a prensa de tipos móveis, ou seja, uma máquina em que era possível juntar letras soltas para formar palavras, depois formar frases e linhas e então compor uma página e reproduzi-la infinitas vezes. Antes disso, os livros eram copiados à mão, um por um, pelos copistas.

Hoje as possibilidades aumentam cada vez mais com as novas tecnologias digitais. O livro digital pode ser lido em uma infinidade de aparelhos, no computador e no celular. Cada novo formato permite ao leitor explorar de uma forma diferente a leitura e extrair dessa interação novas experiências e conhecimentos.

A leitura não é importante apenas pelo conteúdo que traz – a forma como os textos são escritos também têm uma ação sobre o cérebro, permitindo que façamos novas conexões, criemos novas relações entre as informações que temos e as que acessamos.

É um efeito parecido ao de arrumar aquele quartinho cheio de tralhas no fundo da casa: conforme você vai tirando as coisas, vai recuperando lembranças, vai criando usos para objetos que antes aparentemente não tinham função e vai jogando fora o que não precisa. A leitura também nos ajuda a “arrumar a casa”: a organização e o estilo dos textos nos remetem a lembranças e às vezes trazem novos significados para situações que já vivemos.

E quanto antes desenvolvemos esse hábito, mais fácil fica nos adaptar a esse mundo, que muitas vezes parece mais bagunçado do que o depósito de tralhas de uma casa…


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

Profile photo of Lizandra Almeida
Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.