É… Os tempos mudaram!

Se lembrarmos da nossa infância, provavelmente seremos invadidos por memórias de brincadeiras com o pés descalços, salas de aula com giz e lousa verde, e em muitos casos uma televisão com canais abertos, em que esperávamos ansiosamente pelo momento em que nosso desenho favorito iria passar. Bem diferente da infância que as nossas crianças vivem hoje, que envolve brincadeiras no tablet, conteúdo televisivo on demand, via streaming, e escolas absolutamente tecnológicas, muitas com lousas digitais e laboratórios makers.

De fato, o saudosismo do relembrar, junto com a experiência que vivemos traz uma negação a esse novo contexto, que causa uma desconfiança nata da falta de vivência. Tudo isso junto com os questionamentos da maternidade e paternidade é a receita ideal para a pergunta “Será que estou fazendo certo?”.

Reeducação digital: o que nós, adultos, ainda precisamos aprender?

Aí, para confundir ainda mais, somos bombardeados com inúmeras possibilidades “certas”. Vemos, por exemplo, diferentes linhas pedagógicas, das mais tecnológicas até as mais puristas, que envolvem inclusive criar os seus brinquedos. Vemos pais que proíbem a tecnologia, que não tem TV em casa, e pais que oferecem o tablet para crianças recém-nascidas. Na nossa sociedade, bem marcada por maniqueísmos, polaridades e extremismos, ficamos cada vez mais em dúvida de como conduzir a criação dos pequenos. 

Na realidade, o que serve ou não serve, varia, (e deve variar), de acordo com as crenças e hábitos de cada família. No entanto, uma coisa é certa, negar a tecnologia é impossível, pois ela faz parte do cotidiano em que vivemos, dos trabalhos que praticamos, e inclusive, de acordo com alguns estudos, a tecnologia tem mudado a forma que pensamos e nos comunicamos. Ou seja, de alguma forma e em algum momento as crianças terão algum tipo de contato com a tecnologia. E nesse ponto, entra a nossa necessidade de reeducação digital.

Quem já foi ao terapeuta sabe, a forma que somos apresentados às coisas impacta a forma como nos relacionamos com a vida e com os outros. Por isso, o ideal é que os pais se questionem sobre como eles enxergam a tecnologia, qual o espaço que ela ocupa no dia a dia, qual a relação que ela tem na vida? São relações positivas ou negativas? Como eu consigo ressignificar isso para mim, para que meu filho usufrua desses avanços de maneira positiva? A tecnologia, assim como qualquer outra inovação, assume a força que nós atribuímos a ela, e essa pode ser muito positiva, ou muito negativa, só depende de nós.

Tecnologia e infância: o segredo está no equilíbrio e na mediação

Um estudo comparativo norte-americano, chamado “How to Keep your Kids Safe“, de Ana Bera, feito com mais de 100 mil participantes, mostra que a internet na infância é primordialmente utilizada para jogos, com 83% dos acessos. O uso da rede para estudos vem em terceiro lugar, com 71% dos acessos. Isso mostra que um padrão que possa vir à mente dos pais da equação Internet igual a Joguinho. 

No entanto, esses padrões precisam ser reconstruídos, para que os filhos consigam enxergar, através da mediação dos adultos, mais utilidades para a internet. Ou jogos, que não sejam joguinhos, mas de fato ferramentas de aprendizado. Tudo isso exige esforço, mudança de padrões de pensamento e, assim, uma mudança de status quo. Pois de fato, se a internet for só isso, teremos horas a fio sendo jogadas fora. Por outro lado, se a internet for descobrir informações, compartilhar vivências e aprender, aí vemos um ótimo uso das nossas horas.

Podemos perceber a mesmo equação para as conversas sobre o meio virtual. A mesma pesquisa mostra que 95% dos pais alegam saber o que os filhos fazem na internet, enquanto 17% das crianças alegam que os pais não tem a mínima ideia. Essa dicotomia é um dos muitos exemplos sobre a falta de diálogo e a incerteza sobre qual local a tecnologia ocupa. Vemos pelo menos 12 pontos percentuais de espaço para o diálogo, que inclusive pode aproximar os laços familiares.

Aprender também pode ser divertido!

O último ponto é uma máxima, que frequentemente aparece nos congressos de educação. Uma certo estigma de que aprender é meio chato, logo, aprender jogando é balela, para parecer aprendizado o jogo deve ser um quiz, ou algo que lembre um jogo educacional, algo, digamos, um pouco enfadonho. Esse pensamento é um dos que mais bloqueiam a criatividade e um olhar para o novo. Como diria Carol Dweck, esse é o típico pensamento “fixo”, que nos bloqueia de ver um passo à frente. 

Na realidade, hoje existem várias formas bastante interessantes e eficazes de aprender. Inclusive, o aprender pode ser bacana, sim, e que bom que seja. Nesse ponto, acredito que os pais possam buscar empresas e escolas que ensinem de uma maneira que converse com o seu filho de forma mais natural e entusiástica, e, mais uma vez, ressignifique tecnologia para os pais e ensine aos filhos diferentes tipos e usabilidades que a tecnologia dispõe

Claro, ressalto, que todos esses pensamentos devem ser feitos de acordo com o confortável para cada família, e com muito diálogo, para que, de fato a tecnologia traga benefícios e união. 

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.