Do campo para as páginas: o futebol na literatura infantil

O futebol é um dos elementos mais presentes no cotidiano e no imaginário das famílias brasileiras. Mais do que um esporte de competição, a bola rolando em um campinho de terra, na praça ou na quadra da escola fala sobre infância, amizade, encontros e o nosso jeito único de viver o afeto e a comunidade.

Por isso, selecionamos obras especiais que trazem a paixão pela bola para o centro da narrativa. A seguir, vamos mergulhar nos bastidores e nas inspirações do livro Quem vai lá buscar a bola?, conversando com suas autoras, e apresentar outros títulos imperdíveis que prometem encantar leitores de todas as idades.

O futebol e a infância em Quem vai lá buscar a bola?

Um dos grandes destaques do nosso acervo é a obra Quem vai lá buscar a bola?, escrita por Juliana Correia e ilustrada por Amma. A história nos transporta para o morro do Trapicheiro em um tempo em que não havia luz elétrica e onde o pôr do sol marcava o limite entre a diversão e um desafio de coragem: resgatar a bola que caiu no quintal da dona Esmeraldina. Se você já jogou futebol na infância, provavelmente viveu o desespero de perder a bola na casa do vizinho mais bravo do bairro!
A obra, que retrata de maneira sensível a infância no morro e traz elementos de mistério e humor, teve uma inspiração inusitada: o compositor e sambista Wantuir Cardeal. A escritora Juliana Correia nos conta:
“Estávamos na quadra do GRES Acadêmicos do Salgueiro, no bairro do Andaraí, no velório do Almir Guineto, outro nome importantíssimo da cultura do samba, e gurufim de sambista é campo fértil para boas histórias. Wantuir já não mora mais no morro há décadas, mas lembrava de todo mundo que ia chegando. Em algum momento, de repente, ele começou a falar do futebol no campinho de terra batida lá no alto do Salgueiro e de dona Joana, em quem me inspirei para criar a personagem dona Esmeraldina, ‘a vilã’ da história. E à medida em que ele narrava sobre o medo que tinham daquela senhora e de irem buscar a bola, fui lembrando da minha própria infância. Ríamos tanto que até saímos do velório. Seguimos conversando fora da quadra e me senti profundamente provocada a transformar a memória dele, que de alguma forma também era minha, em ficção.”

Para Juliana Correia, retratar essa infância no morro é um ato de afeto e afirmação. A autora salienta que escolheu mostrar a humanidade que pulsa nesses territórios:

“A favela, muitas vezes (e infelizmente), é retratada na mídia, na literatura canônica, na dramaturgia, a partir da violência e da escassez. Enquanto escrevia o texto de Quem vai lá buscar a bola?, cuidava para mostrar justamente o oposto: a humanidade, a vida que pulsa nesses territórios. Crianças negras e/ou moradoras do morro também são criativas, inteligentes e amam brincar. Para essa escrita, parti dos meus estudos sobre infâncias (aprofundados durante o mestrado em educação (UFRRJ), tendo o filósofo prof. Dr. Renato Noguera como orientador de pesquisa), da minha experiência no ofício de contadora de histórias e como mãe.”

Esse desejo também tem um valor pessoal para a autora:

“Quando meu filho Francisco nasceu em 2008, praticamente não havia livros com representação positiva de meninos negros. Foi nesse período que começou a minha busca por repertório que favorecesse a construção positiva do imaginário dele. Foi meu filho a minha grande inspiração ao mergulho no mundo da literatura para as infâncias. O lúdico é muito poderoso para a construção de novos mundos. E a autonomia das crianças, a representação positiva de meninos negros e o sentido de pertencimento comunitário foram pontos fundamentais para o desenvolvimento do texto.”

Juliana lembra com carinho de sua própria infância: era a “esquentadinha” que jogava com os meninos e não aceitava levar “ovinho” sem revidar, dividida em um lar entre o Flamengo e o Vasco. Essa vivência transborda para as páginas, provando que o futebol e a literatura têm tudo a ver.

As ilustrações de Amma contribuíram para enriquecer essa atmosfera, inspiradas em pesquisas fotográficas da década de 1950, como a ilustradora nos contou:

“Eu sempre começo meu processo de ilustração com uma pesquisa histórica em fotografias. Para este trabalho, mergulhei em imagens da década de 1950 para entender melhor como eram as favelas e a região do Trapicheiro, do Morro da Formiga e da Tijuca naquele período. Também fui atrás da origem do nome ‘Trapicheiro’, que pode soar estranho para quem não vive por lá. Descobri que, além de trapiche se referir a um armazém portuário, há também um rio chamado Trapicheiro que atravessa o bairro da Tijuca.”

A ilustradora complementa nos dizendo como traduziu esse ambiente comunitário para as páginas:

“As casas no morro, por exemplo, eram em sua maioria de madeira, e quase não havia muros, o que revelava uma forma de viver mais comunitária. Embora a história mencione um muro, optamos por representar um muro de arrimo, algo mais condizente com a paisagem do morro. Também foi importante imaginar esse espaço como um lugar cheio de vida: com plantas, bichos e crianças brincando livres. As comunidades são territórios vivos, e trazer essa vitalidade para as imagens é também uma forma de lembrar que todos têm direito a viver com liberdade e dignidade. As ilustrações trazem cores quentes, inspiradas tanto no clima do Rio de Janeiro quanto nas tonalidades do pôr do sol — o momento do dia em que se passa a maior parte da história. Esse clima de fim de tarde ajuda a construir a atmosfera afetiva que atravessa toda a narrativa.”

Mais craques na estante: outros livros sobre futebol

Além da jornada pelo Trapicheiro, a Leiturinha reuniu outros títulos incríveis que abordam a paixão pelo esporte sob diferentes ângulos:

  • Bolas do Mundo (texto de Elisabete da Cruz e ilustrações de Bernardo França): Apresenta Joca Coelho, um garoto apaixonado por todos os tipos de bolas. Através de sua coleção, Joca descobre que a bola de couro costurada tem um poder mágico: o de conectar pessoas.
  • Juno e a bola (texto e ilustrações de Gustavo Ramos): Neste Original Leiturinha, Juno perde sua bola e começa uma busca interativa por lugares inusitados, do jardim ao mar. A obra estimula a curiosidade e convida a criança a participar ativamente da descoberta de forma leve e divertida.
  • Caracol sabe tudo (texto de Manuel Filho e ilustrações de Helô Barbí): Na Vila Caracol, o campinho de futebol é o coração do bairro. A trama acompanha a busca por uma relíquia valiosa enterrada por um antigo craque, mostrando como o esporte une comunidades e revela heróis inesperados.

Seja no topo de um morro carioca, na coleção de um personagem curioso ou no campinho de bairro, essas histórias mostram que o futebol vai muito além da competição: é cultura, afeto e celebração.

Confira essas obras na Loja Leiturinha e traga essa paixão para a estante da sua casa.

Boa leitura!

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