Educar crianças para quê?

por | jan 29, 2016 | 2 Comentários

Coluninha | Por Roberta Ecleide.

Nascemos sem estratégias, desamparados e integralmente dependentes. A humanidade chega ao bebê por volta dos três meses, ocasião do sorriso social – gesto de reconhecimento que atrai o cuidador para uma ação específica de permanência e alívio da tensão de existir sem instinto.

A falta de natureza impõe que sejamos feitos pelos outros e isso exige que a transmissão de cada detalhe se faça de modo minucioso, no miudinho, a cada traço cotidiano: educação.

É preciso, pois, educar as crianças. Nosso tempo (pós) moderno é infeliz ao tentar nos desobrigar desta tarefa – essencial para todos –, quando parece dizer: “Não precisa! Espera que depois aprende!”. Educar é necessário, não é fácil e nem pode sê-lo.

Pior: é chato. Dizer não, redizê-lo, tirar daqui e dali, retirar, orientar, repetir! Educar é ensinar o que deve ser feito para ter tempo e espaço de fazer o que se quer e gosta, e arcar com as consequências do feito.

Educar crianças é a tarefa mais importante da humanidade e não pode ser banalizada por ditames apressados como “criança é tudo de bom!”. Nem sempre é bom ser criança. O bom (que o adulto vê) está na inconsequência, na presumida liberdade das crianças. Ser livre é ser responsável pelos atos e felicitar-se com a capacidade de assumi-los. As crianças não são livres. Como, então, podem ser perenemente felizes?

A tolerância à frustração é aprendida na delicadeza das proibições, na aspereza dos limites. Sem ela, não suportamos a dor (física, das perdas, da saudade) nem a dificuldade, infelizmente onipresente, da convivência. É da tolerância cotidiana de nossos defeitos e achaques que podem brotar a flor da paciência, o fruto da aceitação.

Para que educar as crianças? Para dar-lhes a chance de aprenderem o quanto antes a difícil arte de conviver na dificuldade. Não se aprende a conviver melhor no passar das décadas. Aprende-se que é difícil, mas, com tolerância e paciência, vem a aceitação da dificuldade e do valor de se ficar junto, simplesmente isso.

Aprendemos, ao educar as crianças, que ficar junto é bom quando estamos em função dos outros – de todos nós, por todos e cada um. Educar é uma ocupação, uma ação que nos ocupa, diverte e compromete.


Roberta Ecleide Kelly é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica, pós-doutora em Filosofia da Educação, coordenadora do NEPE.

Escrito por Roberta Ecleide
Psicóloga, psicanalista, doutora em Psicologia Clínica e pós-doutora em Filosofia da Educação. *Autora convidada e seus textos não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Leiturinha.
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2 Comentários

  1. Avatar

    Gostei muito do texto. Pena ser tão raro encontrar blogs e textos com conteúdo já ouvi muito isso: ele é muito pequenininho pra entender ( qdo estou a por limite , falando não ou mesmo dando uma bronca) no meu filho de um ano e meio. Mas ele entendeu tudo. As pessoas subestimam os pequenos alegando que não entendem o limite pra se convencerem q é justo no postergar essa tarefa que as incomoda. Nem acreditei qdo meu filho parou com as birras tão rápido. A intensidade da borra veio forte mas foi proporcional ao limite q tive q por. Claro sem a orientação da Roberta não teria conseguido. Eu e Arthur agradecemos 😉

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  2. Avatar

    Como sempre, Professora Roberta,com simplicidade e acertiva, sua mensagem é clara. Paciência e tolerância. Um grande abraço.

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