Coluninha | Por Roberta Ecleide.

Este tema é, para mim, muito especial. Não por nenhuma consideração de destaque aos jovens, mas porque, em nossa época, pensar sobre eles é fundamental para nosso futuro.

Vivemos tempos estranhos, de excesso de referências, de ausência de contorno, de medicalização das crianças e adolescentes (vou chamá-los de jovens), de descuido geral. Pensando sobre isso – e sobre o que se pode fazer com isso – colocar o assunto em pauta é uma das soluções.

Não há como nos esquivarmos de falar do ensino e da educação dos jovens, para, assim, pensar a subjetividade deste momento e, minimamente, que escolhas teríamos. Toda escolha, não há, pois existe o inconsciente que nos sobredetermina. Todavia, é na esteira de escutá-lo e seu maquinário que podemos ver nossas repetições, tropeços e mínimos avanços.

Educar os jovens é dar a eles três condições – duas delas que dependem quase que exclusivamente da dedicação e persistência dos adultos. Valem os parênteses. Persistência é “a ação e o efeito de persistir, manter-se constante em algo, durar por muito tempo, perseverar”. Persistir nada tem a ver com vontade, tem a ver com caminhada.

Então, os três aspectos:

  1. Ensinar a sobrevivência: os jovens têm que saber se virar na vida – tomar banho, escovar os dentes, lavar roupa, cozinhar, limpar a casa, distrair-se nas tardes de tédio, aconchegar-se no cobertor sem ajuda, consolar-se, e tantas outras coisas necessárias para darem conta deles mesmos. Isso é ensinado, laboriosamente, por alguém que intenta e tem interesse que o jovem aprenda. Pode ser chato e demorado. Por isso, a persistência.
  2. Dar exemplos diários da convivência: Cada vez mais entendo que conviver é tolerar e que o respeito, a gentileza, o cuidado dependem muito disso. Mas tolerar também é da ordem da persistência e não de gosto ou afinidade, ou mesmo dos valores morais. Aprende-se pelo exemplo, todos sabemos disso. Ao que parece, só quem não sabe disso, nessa época estranha, são os adultos cuidadores…
  3. Finalmente, o que depende só do jovem: a independência. Independer-se é conquistar – também na labuta cotidiana, no exercício da perseverança. E tem que se bancar e se firmar nas próprias pernas! Para isso, foi ensinado e, com-vivendo, foi aprendendo como ser si-mesmo.

Nada disso é milagre, nada vem de graça e tudo demora. Ensinar e educar dá trabalho. Mas para nós, reles humanos, fadados ao laço social para sobrevivermos e vivermos, o que importam são as relações; ainda que seja em sua (im)possibilidade.


Roberta Ecleide Kelly é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica e pós-doutora em Filosofia da Educação.

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Psicóloga

Psicanalista, doutora em Psicologia Clínica e pós-doutora em Filosofia da Educação.