Coluninha | Por Roberta Ecleide.

Recentemente, houve uma postagem nas redes sociais sobre uma mãe que assim identifica sua situação: “amo meu filho, mas odeio ser mãe”. Tal resposta, claro, pela virulência da globalização, deu muito assunto. Uns a favor, outros, contra.

Desde frases acusando a moça “de não ter coração” até considerações sobre “uma mulher tem que ser mãe”, até “ter filhos é para ter quem cuide de você, velhinha”.

Não encontrei, porém, comentários que tentassem entender, de fato, como tal função é difícil de sustentar. Talvez porque este assunto não seja devidamente contemplado em sua complexidade.

Histórica e culturalmente, a maternidade está atrelada às mulheres, cabendo a estas, de acordo com suas condições, serem fator de risco ou de proteção para seus filhos. Muita responsabilidade? Sim, mas é preciso compreender que responsabilidade é essa e que isso se faz de acordo com a capacidade coletiva de cada época de dar sustentáculo e apoio às mães.

No livro de Lionel Shriver, Precisamos falar sobre Kevin, que recomendo a todos os adultos (não indico o filme, é muito parcial e sensacionalista), há uma reflexão inicial sobre por que uma mulher desejaria ser mãe. Esta questão, aliás, foi a que motivou a autora para escrever o livro.

Outrora, tinham-se filhos, pensa a autora, para dar conta do próprio futuro, para trabalhar nas fazendas, para cuidar dos pais, velhos… Ora, não é bem mais esta a demanda de se ter um filho. As mulheres podem escolher, via métodos contraceptivos, se querem ter filhos ou não e podem ser trabalhadoras por longo período…

Ah, diria o leitor, mas uma mulher só se realiza enquanto mãe! Mas é esta, de fato, a realidade dos acontecimentos ou esta é determinada imagem que provoca, nas mulheres, a premência e a urgência de uma gravidez?

A imagem da gravidez, em blogs e vídeos, é de uma mulher plena, feliz, “com o rei/rainha na barriga”. As artistas de TV falam, maquiadas e preparadas para a cena, que esta é a coroação de suas vidas.

Mas as imagens não contam do miudinho das dores, dos achaques (rinites, aumentos de pressão, quedas de pressão, diabetes e riscos de morte). É recente a ideia de não se morrer no parto; por recente, traduza-se em torno de cem anos. Antes, muitas mulheres morriam para que seus bebês nascessem. Por isso, ainda se deseja às parturientes, uma boa hora!

A imagem da gestação, veiculada por aí, conserva só os enjoos e vômitos, quase tidos como frescura. Mas também como possível sinal de rejeição da mãe – pensamento que faz com que se moralize a mulher nauseada como incapaz ou não-merecedora.

Não é preciso, com isso, que se endeusem as mulheres ou que as coloquemos em condição especial, como heroínas. Mas é justo dizer que a gestação é um período difícil para muitas, mesmo para as convictas da ideia de ter um filho. Os últimos dias ou últimas semanas são fisicamente penosos e cansativos…

Da maternidade em diante, desde seus primeiros dias, continua a imagem de beleza e encantamento. Mas esta também é uma visão parcial. Há um trabalho importante, delicado e persistente de construção da intimidade de ser mãe para cada um de seus filhos.

Neste momento, identifico o peso maior das imagens, pois qualquer sinal de desconforto, cansaço ou reclamação é visto como ameaça à imagem da mãe por instinto, por vontade e por sacrifício. Já assisti muitas mães envergonhadas, culpadas e adoecidas por não darem conta destas imagens maquiadas e preparadas, que pouco dizem do dia-a-dia, pois são bidimensionais.

Não sabemos do dia-a-dia das mães midiáticas. Mesmo quando são blogs, pois falha a percepção imediata da convivência. É preciso saber como ser mãe ou como construir a maternidade em cada família, em cada comunidade, bem de perto, pois maternar é de pertinho.

É fundamental que as mulheres pensem, com muito cuidado, se querem, de fato, ser mães por um desejo próprio ou pela imagem de plenitude que vende a elas que “só serão mulheres se forem mães”. A pressão dos “35-anos-the-clock-is-ticking-óvulos-envelhecendo-tem-que-ser-agora” apresenta situações difíceis de não saber se queria-se, mesmo… Mas, aí, não tem volta. Tem um ser totalmente dependente, todos os dias, para tudo, que não aparece nas propagandas de fralda descartável. Aliás, a criança da propaganda não tem refluxo, não regurgita, seu cocô não tem cheiro e não acorda ninguém à noite.

Ser mãe em nossa época é uma escolha. E tem que ser uma escolha feita com calma, pois filho dá trabalho, por muito tempo… É preciso dar conta de ter tempo para os filhos, para si mesma, para os agenciamentos que permitem a sobrevivência dela e deles. Esta conciliação não é simples, nem fácil… Este agenciamento é cotidiano e menos difícil se a mãe tem apoio doméstico e social para encontrar o seu equilíbrio.

Para quê ser mãe? Para cuidar de alguém na intimidade de um pretenso processo. De verdade, não há desenvolvimento nem educação sem gerúndio. Em todas as idades, estamos nos educando. No filho, porém, sonhamos a origem da humanidade e pretendemos ser melhores, através deles. É nossa ilusão de eternidade.


Roberta Ecleide de Oliveira Gomes Kelly é psicanalista, doutora em Psicologia Clínica e pós-doutora em Filosofia da Educação.

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Psicóloga

Psicanalista, doutora em Psicologia Clínica e pós-doutora em Filosofia da Educação.