Literatura e criatividade na infância

A arte de contar histórias: uma receita de 3 ingredientes

Dizemos que histórias, mesmo sem mudar o enredo narrativo, nunca serão contadas de maneira igual. Por isso, literatura e criatividade na infância caminham lado a lado, desafiando autores a recontar “clássicos” da literatura infantil e juvenil (pense em quantas versões de Chapeuzinho Vermelho você já viu) em novas criações.

A versão pode ser até mesmo uma tradução: por mais fidedigna que seja a tradução de um texto original, ela sempre transformará a referência originária. Na narração de histórias, por exemplo, para fazer diferente basta contar de novo: crianças pequenas sabem bem disso, quando fiscalizam, detalhistas que são, cada mínima mudança do que está sendo contado outra e outra vez.

Também, vamos combinar: qual seria a graça de um simples relato se a maneira de contá-lo não influenciasse a narrativa? Aqui, obviamente, não estou me referindo a relatos de notícias falsas. 

O “faz de conta” saudável da literatura

Transitar pela literatura e criatividade na infância, explorando gêneros narrativos e a criação de histórias, ajuda a distinguir o mundo real do mundo da ficção. Crianças e poetas sempre levaram a sério a “brincadeira” de transitar entre realidade e imaginação. O famoso “faz de conta” exercita a fantasia como criatividade — e não como fuga, que pode nos tornar reféns de interesses nocivos. Mais uma vez, a arte se mostra essencial para o nosso equilíbrio, permitindo que trabalhemos essas questões de forma natural e significativa.

Como uma receita: comida e imaginação, livros e pratos culinários

Para resumir e sempre exercitando a criatividade, podemos comparar histórias a receitas, comida e imaginação e livros a pratos (culinários). Isso por três razões:

✨ Mesmo seguindo passo-a-passo e ingredientes originários, uma receita nunca é igual, pois cada vez que for passada adiante em novo contexto, ela se transforma um pouco — assim como acontece com as histórias. 

✨ A comida é essencial para nossa sobrevivência. Vimos que a imaginação, enquanto humanos que somos, também. A culinária, que é ao mesmo tempo a técnica e a arte de preparar comida, cumpre uma função tanto vital quanto estética, além de cultural. A literatura também corresponde à arte e à técnica de se trabalhar a imaginação, cumprindo do mesmo modo função vital, estética e cultural. Os livros representam a materialização disso, assim como os pratos na culinária.

✨Mesmo respeitando todos os ingredientes de uma receita, a originalidade de um prato culinário depende mais de como é feito e do todo da composição do que da soma dos seus ingredientes isolados. Por isso, assim como ocorre na literatura, receitas “clássicas”, mundiais ou locais, são sempre reeditadas pelos chefs de cozinha. 

Vamos ver isso mais de perto? 

Literatura e criatividade na infância: o design é a chave!

Um dos princípios resumidos da Gestalt, a teoria da boa forma (base teórica do design e da comunicação visual) é de que o todo seria mais do que a soma de suas partes. Por isso, cabe bem o exemplo da receita para entender melhor a função do design no processo criativo e construtivo da narrativa de uma história. O projeto narrativo é um todo que nos livros ilustrados acontece pelo planejamento gráfico: é pela forma global do design do livro, entre criação e objeto, que começa a interação com o leitor. Quanto mais interessante for o todo resultante dessa criação narrativa, mais encantadora e prazerosa vai ser a leitura. Prazerosa não quer dizer fácil — às vezes, é exatamente o contrário: pode ser a dificuldade que atrai o leitor. Leitura é esse processo de percepção, de ver e rever, descobrindo camadas e construindo relações — inicialmente, é menos um processo consciente do que uma resposta da nossa curiosidade leitora fisgada. 

Curiosidade, preferências e circum-navegação

Verifique em seus livros ilustrados favoritos: sabe dizer por que você gosta mais de uns do que de outros? E a criança perto de você: já perguntou a ela por que prefere este ou aquele livro? Um pouco como no exemplo do livro “Octavio” que eu trouxe aqui, lembra? Um todo que nos atrai nos leva a ler, decifrar, perceber. Umberto Eco chama de “circum-navegação”, conceito que se refere ao ato de percorrer um livro, entrando na narrativa pela percepção gradual de todos os seus detalhes. Ele compara o ato de circum-navegar uma obra literária ao de entrar em uma grande construção, por exemplo, uma catedral, e andar por ela familiarizando-se aos poucos com sua arquitetura. Então, mais uma vez, a complexidade não está na soma de tantos elementos isolados, mas no fascínio da composição resultante como um todo. E olha: se você gostar muito de todos os seus livros e não conseguir escolher, não se preocupe! O que importa é a “circum-navegação”: ao compará-los, você aguça a sua percepção.     

“Pequena” caixa mágica de ferramentas

Design não é programa e nem aplicativo, mas um campo complexo de estudos e uma área ampla de atuação profissional. Mesmo assim, sintetizo e comento alguns parâmetros fundamentais da comunicação visual que selecionei para você:

A literatura e criatividade na infância se manifestam também na linguagem visual, composta por elementos como cor, tipografia, figuração (imagens, fotografia, desenho e ilustração) e outros símbolos. Algumas de suas técnicas compositivas incluem escala, alinhamento, contraste, minimalismo/saturação, movimento, enquadramento e sonoridade. A seguir, veja alguns dos pontos principais para a construção de livros, especialmente aqueles voltados para as infâncias.

1. Cor: de todos os elementos que vou listar, a cor é o mais complexo deles, porque, além do valor cultural e simbólico, corresponde também a um fenômeno neurológico. No contexto da literatura e criatividade na infância, a cor desempenha um papel fundamental, pois estimula a percepção, a emoção e a imaginação das crianças. Ela depende da presença de luz em um ambiente e pode alterar as formas por efeito de ilusão ótica e outros sentidos. O uso da cor em uma narrativa significa muito, porque interfere nas dimensões de espaço e tempo — dentro do recorte de uma página, como, por exemplo, no espaço composto pela dupla de páginas e no ritmo que percebemos no ato de virar página. Por isso, o branco do papel, materializando cor e espaço no suporte do livro onde tudo acontece, é um elemento muito interessante a ser explorado na estratégia de composição de um projeto narrativo. Não é por acaso que tanto design quanto literatura estudam conceitualmente esse elemento.

2. Tipografia: a tipografia representa componente fundamental do design gráfico, ao mesmo tempo o mais sofisticado e difícil de manejar. Traz em si os marcos da história da escrita e da reprodução técnica de impressão. Tem a ver com todo um letramento que passa pela leitura, basta pensar na alfabetização escolar e na tradição das gerações passadas em treinar o desenho da bela escrita, a caligrafia — práticas cada vez mais em desuso, a partir da tecnologia digital. Crianças e mesmo alguns adultos costumam não distinguir as características de uma letra tipográfica de uma desenhada à mão. A palavra escrita é um signo gráfico e, portanto, também desenho. Assim, diversos artistas, plásticos ou literários, das vanguardas do século XX, se viram atraídos pela tipografia e a utilizaram como meio de expressão. Por condensar a expressão máxima da junção conteúdo/forma representada pela palavra, costumava ser pela ousadia tipográfica que se via a inovação. Dessa maneira, as composições tipográficas foram amplamente exploradas nos “clássicos” do design.
Como designer, acredito que a ênfase dada à tipografia mudou e seria interessante voltar a investir mais nessa experimentação, principalmente nas narrativas dos livros ilustrados. Verifique nos seus livros preferidos como é trabalhada a tipografia!

3. Imagens: considerando que tudo aquilo que a gente percebe pela visão é imagem, vamos dividi-las em figuras ilustrações, desenhos e fotos — em geral, a parte mais significativa na narrativa infantil e juvenil. Se falamos genericamente em estilo de escrita, no caso dos livros ilustrados, podemos falar em estilo de figuras. Do mesmo modo que não há limites na composição final do projeto gráfico de um livro ilustrado, também não há limites nas formas possíveis de sua composição figurativa: todas as linguagens e técnicas são possíveis. É neste sentido que a experimentação estética em um livro ilustrado se aproxima muito da dos chamados livros de arte. Em termos de imagens, defendo que o inesperado provocado pelo efeito dos contrastes é uma das estratégias mais poderosas para a construção de novos significados: por exemplo, uma imagem realista com um desenho inventado ou formas geométricas em uma composição figurativa resultam sempre interessantes. As imagens têm o poder da ambiguidade e as ilustrações podem potencializar, na virtualidade do desenho, o jogo entre realidade e imaginação no contraponto com outras formas.

Queridos leitores e queridas leitoras, paro por aqui, o resto é com vocês: espero ter contribuído para estimular suas “circum-navegações” pelos livros e se alguém resolver investir em uma criação narrativa com direito a livro, quer dizer que nascerá um novo autor ou autora!

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