Como os livros ajudam a manter a conexão com a nossa cultura?

jul 11, 2024 | 10+ anos, 4 - 6 anos, 7 - 10 anos, Criança, Desenvolvimento, Educação, Família, Leitura, Leiturinha, Literatura, Livros, Parentalidade

GANHE PRESENTE DUPLO! Crescer com Leiturinha é mais divertido! Mas é por tempo limitado! Mochila da Iara + Régua do crescimento grátis no 1º kit! Botão: ASSINAR LEITURINHA

Eu tinha seis anos de idade quando minha família se mudou para a Inglaterra. Foi bem no meio do meu processo de alfabetização. As memórias dessa época são um pouco fragmentadas. Lembro que eu tinha um patinete vermelho, e que morávamos numa rua sem saída. Eu subia e descia a rua com meu patinete, acreditando que essa seria a melhor maneira de explorar aquele país estrangeiro. 

Na próxima lembrança, já estou cercada de amigas. Nosso uniforme tinha gravata. Isso fez com que eu me sentisse uma pessoa responsável. Eu, minha gravata, com meu próprio meio de locomoção. Só faltava uma coisa para que eu me tornasse uma adulta de fato: aprender a ler e escrever. 

Curiosamente, não tenho memórias de como aprendi a falar Inglês. Com seis anos de idade é tão fácil aprender uma língua estrangeira que, se houve algum esforço da minha parte, não ficou registrado. Num dia eu era a nova menina estrangeira vinda de um país distante, no dia seguinte estou cercada de amigas, perfeitamente adaptada. 

Mas lembro em detalhes da alfabetização. Tenho memórias do método Montessori, ainda no Brasil. Lembro do prazer sensorial de fazer o desenho das letras, com a ponta do dedo numa superfície com lixa. Na lembrança seguinte estou de volta à Inglaterra, sentada em roda, em sala de aula, ouvindo a professora lendo para nós. De vez em quando ela olhava diretamente para mim, talvez se perguntando se eu estava entendendo alguma coisa. E, sim, eu fazia que sim com a cabeça, entendia tudinho! Embora não me lembre de como aprendi o idioma, lembro desse instante de tomada de consciência de compreender a história toda num idioma tão diferente daquele que era falado em casa. 

Voltando para casa, ao final do dia, minha mãe fazia questão de reproduzir tudo o que eu havia aprendido na escola, porém em português. Para mim, era um novo momento revelador. Eu adorava a sonoridade da minha língua materna. As palavras me pareciam mais abertas, engraçadas, esculachadas. Palavras como jabuticaba, marmelada, maracutaia. Era um alívio em comparação à formalidade da escola da gravata. 

Através dos livros em português, que minha mãe lia para mim, nunca perdi a ligação com meu país de origem. Ele apenas foi se tornando mais mágico. Era habitado por sacis, bonecas falantes, sábios com corpo de espiga de milho, príncipes que viviam no fundo do rio. 

Quando chegou o inverno gelado, molhado e desconfortável, foi nos livros brasileiros que encontrei um aconchego ensolarado. Lembro da diferença no uso das cores. No mundo real, tons pastéis, bem delicados. No mundo feito de papel, cores básicas, mais fortes. 

Hoje, relembrando esse processo, não tenho a menor dúvida de que foi ali, nesses anos de formação de leitora que peguei um grande amor pelos livros. Eles eram meu ponto de contato com o país para o qual eu voltaria, mais cedo ou mais tarde. Na verdade, a cada livro que eu abria, era nítida a sensação de ter atravessado um portal, visitado minha terra natal, e voltado rapidinho. O Brasil continuava acessível, apenas num novo formato. 

Talvez, já naquela idade, eu tivesse mentalidade de escritora. Não me lembro de sentir saudades. As visitinhas literárias eram suficientes para manter a conexão. De um jeito lúdico e intuitivo eu entendi que toda a minha herança cultural estava contida na linguagem. Num tempo em que não tínhamos internet, celular ou vídeos, o texto, puro e simplesmente, deu conta de fazer toda essa transmissão. O Brasil seguia vivo e nítido dentro de mim. 

E quando eu voltei, mais uma vez tudo se deu num piscar de olhos. Num momento eu era a menina recém-chegada, e no dia seguinte, perfeitamente adaptada. 

Saiba mais como manter as raízes brasileiras por meio da literatura infantil!

📖  Leiturinha pelo mundo: mantendo vivas as raízes brasileiras
📖 Crianças que moram fora: 4 motivos para cultivar a língua portuguesa 
📖 Laços familiares: 4 dicas para manter a conexão à distância 
📖 Descubra como receber Leiturinha na Europa ou Estados Unidos

Índigo Ayer

Índigo Ayer, autora do Original "Leitor Desconfiado", compartilha como foi a experiência de ser alfabetizada na Inglaterra, mas mantendo as suas raízes brasileiras por meio da literatura infantil.

    Acompanhe nossas redes sociais