Você conhece a cultura e identidade surda?

por | set 24, 2020 | 1 Comentário

Você se lembra da primeira palavra do seu pequeno? Lembra-se quando ele ainda começava a falar e você tentava ensinar novas palavras a ele? Conversar com as crianças desde bem novinhas é fundamental para seu desenvolvimento da linguagem. Você já parou para pensar como você faria se o seu pequeno não ouvisse? Muito mais do que uma forma de linguagem, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é muito importante na cultura e identidade surda. Porém, somente no ano de 2002, a Libras foi reconhecida como um meio legal de comunicação. Para entendermos mais sobre o assunto, conversamos com uma convidada especial. 

Conversando com uma especialista

Convidamos a Professora Doutora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Janice Gonçalves Temoteo Marques, onde ministra aulas de Libras e Educação de Surdos para nos explicar mais sobre a cultura surda no país. Ela é também autora do Dicionário de Língua de Sinais do Brasil: a Libras em Suas Mãos (São Paulo, Edusp, 2017). 

Michelle: Em um aspecto geral, o que é a cultura surda?

Janice: Pode-se definir cultura surda como a própria identidade do surdo representada por meio de uma língua visual, a língua de sinais, em que as percepções do mundo são marcadas pelas experiências visuais. Para a psicóloga e educadora Nídia Sá (2006), a cultura surda “refere-se aos códigos próprios dos surdos, suas formas de organização, de solidariedade, de linguagem, de juízos de valor, de arte, etc.”

Um exemplo clássico de um aspecto da cultura surda é o “batismo com um sinal”. Em que uma pessoa ganha o seu “nome” na Língua de Sinais Brasileira. Ou seja, o seu “sinal”, este que irá identificá-lo na comunidade surda. Este sinal pessoal por tradição e autenticidade só pode ser feito por uma pessoa surda. Geralmente, ele é escolhido com base em uma característica física que se destaque visualmente.

Michelle: Quais são os maiores problemas que a comunidade surda enfrenta atualmente?

Janice: Assim como as pessoas ouvintes, as pessoas surdas enfrentam dificuldades nas mais diversas áreas e graus. Porém diria que o principal deles é o de acessibilidade a conteúdos e serviços em línguas de sinais. 

As famílias surdas precisam ir aos serviços de saúde e não há profissionais que saibam Libras para de fato oferecer um atendimento com comunicação eficaz, salvo raras exceções em que os intérpretes de Libras são requisitados. Pensando na educação, a grande maioria das crianças surdas não tem acesso a escolas bilíngues e falta o básico, como materiais bilíngues Português/Libras para alfabetizá-las. Em muitas escolas há carência de professores bilíngues e a inexistência de serviços de intérpretes. 

A falta de acessibilidade comunicacional linguística transversaliza todos os problemas. A partir deste, outros problemas se agregam, e nas mais diversas áreas. Um exemplo atual e gritante é a falta de acessibilidade nos assuntos relacionados a Pandemia do COVID-19. Tenho recebido vídeos de surdos que ficam aflitos por não compreenderem o que de fato está acontecendo, pois nem sempre há a janela de Libras disponível. O que torna a compreensão do problema sobre o coronavírus ainda mais difícil. É importante lembrar que, além disso, eles não estão imunes a Fake News. Por isso é fundamental que os meios de comunicação, como programas de TV, tenham janela de Libras.

Michelle: Como ocorre o aprendizado da criança surda, desde o nascimento, dentro da comunidade e da cultura surda?

Janice: Se a criança surda nasce em uma família em que os pais são surdos ou pelo menos um deles é sinalizador, a comunicação ocorre naturalmente. Como por exemplo ocorre em uma família de pessoas ouvintes, em que as crianças aprendem a falar simplesmente por estar em contato com seus pais que a estimulam o tempo todo. A criança surda que é estimulada desde cedo em língua de sinais vai aprendendo naturalmente a língua e os valores culturais do povo surdo.

Michelle: Em sua opinião, qual o maior problema para o desenvolvimento de uma criança surda, quando os pais ouvintes rejeitam a cultura surda?

Janice: A surdez não pode ser diagnosticada durante a gravidez. Por isso, mesmo a criança sendo surda, só é possível detectar a surdez por meio de testes ao nascer. Para as famílias de pessoas ouvintes, receber a notícia de que seu filho é surdo é um grande choque. Porque até então tudo estava “aparentemente bem”. Muitos pais não sabem lidar com a nova realidade, de não ter o filho “perfeito e idealizado”. 

O desconhecimento sobre a língua de sinais e cultura surda faz com que essas famílias tendam a acreditar que se a criança surda sinalizar, ela não se desenvolverá bem na fala. Mito! Sabemos que uma coisa não suprime a outra, mas podem andar juntas. Acredito que inicialmente os pais não rejeitam a cultura surda, na verdade, nem a compreendem bem. Rejeitam sim qualquer coisa que ameaça a possibilidade de ver seu filho “falando”. 

Pode demorar para que uma criança surda “aprenda” a falar

Para uma criança com surdez severa ou profunda, por exemplo, a aquisição da fala oral não é uma coisa simples. E pode demorar anos para que a criança tenha ganhos significativos na fala mesmo com o acompanhamento fonoaudiológico semanal. Enquanto isso, se essa mesma criança tivesse acesso a Libras, paralelamente, sua comunicação não seria comprometida.

Infelizmente, na maioria dos casos, a língua de sinais só é apresentada a essas famílias tardiamente. O maior problema para o desenvolvimento de uma criança surda certamente é privá-la do acesso a língua de sinais e consequentemente da cultura surda, em um período ideal de aquisição de língua. Isso pode trazer consequências desastrosas para seu desenvolvimento cognitivo e escolar. Implicações estas, muitas vezes sem volta.

Michelle: Como, atualmente, se dá o ensino de libras nas escolas do país?

Janice: Atualmente não há ensino de Libras para alunos ouvintes nas escolas públicas do país. O que existe são dois projetos de lei em andamento, o Projeto de Lei 6.284/2019 que é de autoria do senador Romário de Souza Faria e o Projeto de Lei 5.961/2019, que é de autoria da senadora Zenaide Maia. Esses projetos falam do ensino de Libras nas escolas. Mas ainda não foram aprovados e há várias questões sobre o tema que precisam ser discutidas. Como, por exemplo, quem serão os professores de Libras dessas escolas e como ocorrerá a capacitação desses profissionais.

Ensinando libras: para falar da cultura e identidade surda!

Conheça o livro “Ensinando Libras” da Loja Leiturinha:

A Língua Brasileira de Sinais é a segunda língua oficial do nosso país. Mesmo que os livros se comuniquem com a maioria das pessoas, ainda assim é muito difícil encontrar no mercado livros acessíveis para surdos. Essa Coleção mostra que é possível unir acessibilidade à literatura e à sua emoção.

Para conhecer ou adquirir, acesse “Ensinando Libras“.

 

Leia mais: 

Escrito por Michelle Rachid
Bióloga, acredita que a aprendizagem eficaz acontece por meio da leitura e das brincadeiras. Leitora voraz, ama viajar, é fã de carteirinha de animações e autora no Blog Leiturinha.
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1 Comentário

  1. Avatar

    Parabéns! Esse tema deveria ser abordados mais vezes .. Parabéns a Professora Doutora Janice Gonçalves Temoteo Marques pelas explicações, foram muito claras e com certeza tiraram muitas dúvidas. O Leiturinha poderia fazer livros em Libras .. fica a ideia.. às crianças iriam amar , começariam a aprender a ler desde pequenos.Abraços 👏👏👏👏👏

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