A leitura compartilhada é um momento de grande intimidade que fortalece e consolida os vínculos afetivos e propicia as conversas mais delicadas. É como bater suavemente na porta da emoção para que as informações possam ser elaboradas a seguir. – Andrea Taubman

Conversando sobre abuso infantil

Conversar sobre o abuso infantil não é fácil. É um assunto que desperta desconforto, repulsa e revolta, mas que merece atenção, pois discuti-lo é fundamental para que haja uma conscientização e um combate efetivo a essa violência. Hoje no Brasil, dados mostram que a cada hora, três crianças são vítimas de abuso, e o que nem todos imaginam é que 95% dos casos desse tipo de violência são praticados por pessoas conhecidas das crianças, sendo que em 65% dos casos há a participação de pessoas do próprio grupo familiar.

Considerando que o abuso sexual infantil não precisa, necessariamente, estar relacionado a um ato violento e doloroso, é importante trazer esse diálogo não só para as escolas, mas também para dentro de casa. Afinal, empoderar nossas crianças é um passo muito importante para o combate ao abuso infantil. Mas como abordar um tema tão delicado com nossos pequenos de forma que lhes seja compreensível e não cause medo?

Não me toca, seu boboca: livro premiado fala sobre abuso infantil com as crianças

Andrea-Viviana-Taubman

Nesse ponto, a ludicidade e a literatura podem ser grandes aliadas. Por meio da vivência dos personagens, os pequenos aprendem a nomear suas próprias experiências, conseguindo, assim, identificar os limites do seu próprio corpo. Pensando nisso, a autora Andrea Taubman, depois de muito estudo e trabalho, publicou o livro infantil Não me toca, seu boboca! (Editora Aletria), que aborda o tema do abuso sexual de forma simples, leve e natural. A obra, que levou sete anos para ser desenvolvido, recebeu o Prêmio Neide Castanha de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, uma iniciativa do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.

Nós batemos um papo com a autora para entender melhor sobre suas motivações para escrever sobre este assunto, sobre o processo de escrevê-lo e sobre os desafios de trazer a temática para o universo da literatura infantil.

PlayKids: Quando e por que surgiu a ideia de escrever um livro infantil que abordasse o tema do abuso infantil?

Andrea: “Não me toca, seu boboca!” foi meu 12º livro publicado, porém foi o quarto a ser escrito. Nasceu de um desejo de minha alma. Fui voluntária em abrigo temporário para crianças em situação de risco social, vítimas de maus-tratos. Foi lá que conheci crianças que tinham sido vítimas de abuso sexual. O olhar delas, tão desesperançado, me mobilizou muito. Sou mãe de dois meninos e essa questão era aflitiva. Como falar de algo tão horrível para as crianças? Foi por essas duas razões, principalmente, que escrevi esta história. Pelo desejo sincero de ajudar as famílias (e a sociedade como um todo) a abrir esse diálogo para que isso não aconteça com nenhuma delas e para, de alguma forma, acolher aquelas que já tenham passado por esse flagelo.

PlayKids: Como foi o processo de escrevê-lo?

Andrea: A primeira versão nasceu em 2010, envolvida em forte emoção que misturava dor, repugnância e alívio. Ao longo do processo, chorei muitas vezes, quis desistir outras tantas, pensei que nenhuma editora teria coragem para publicar um livro que abordasse esse tema.
Logo que terminei a primeira versão, enviei o texto para um grande amigo de infância, psicólogo especialista em terceiro setor. Ele se prontificou a me colocar em contato com a Childhood Brasil, instituição criada pela Rainha Silvia da Suécia com o objetivo de proteger a infância e especializada no assunto. Enviei o texto para eles, que responderam com uma série de considerações e sugestões, elogiando minha iniciativa e reconhecendo que produzir materiais sobre violência sexual infantojuvenil é um desafio.

Também encaminharam seu informativo “Orientações De Comunicação Sobre Violência Sexual Contra Crianças E Adolescentes”, recomendando que eu lesse para entender tecnicamente a questão e pudesse reescrever sem cometer erros conceituais e, finalmente, se colocaram à disposição para novas revisões. A partir desse retorno, comecei a pesquisar, estudar, frequentar seminários e me relacionar com especialistas da psicologia, do direito e da assistência social. Não há uma vírgula, uma exclamação, uma palavra que não tenha sido estudada à luz desses conhecimentos; inclusive as estratégias das ilustrações (Thais Linhares fez um trabalho brilhante). Algumas frases foram reescritas mais de 30 vezes. Felizmente, em todo o processo – desde que a Aletria encarou o desafio – tive o apoio e a parceria de toda a equipe da Editora, que tem se engajado fortemente nas ações que venho desenvolvendo a partir da obra.

PlayKids: Qual o maior desafio de trazer um tema delicado como esse para a linguagem infantil? Como e onde você buscou ajuda/referência para isso?

Andrea: Desde o início eu sabia que, para alcançar a emoção das crianças sem assustá-las, precisaria trabalhar com um texto rimado, narrado por uma criança, em primeira pessoa. Foi um caminhar constante sobre o fio da navalha: como falar o que precisa ser falado, sem deixar de dizer o necessário, sem nomear partes do corpo, sem tipificar o abusador nem as crianças (o que foi resolvido com os personagens que são ilustrados como animais humanizados), sem recorrer a personagens (principalmente adultos) que pudessem levar soluções mágicas e, ao mesmo tempo, não deixar de contar uma história literária, de forma lúdica, com a voz da infância que a literatura infantil requer. A história precisava ser uma “história de quase” (essa é a forma como tenho contado “Não me toca, seu boboca!” para as crianças; ou seja, que uma coisa muito ruim “quase” aconteceu, mas que acabou não acontecendo). Para resolver isso tudo, criei a nossa protagonista-narradora Ritoca, que, por perceber as intenções do abusador, grita NÃO a tempo de interromper a ação e alertar seus amigos sobre o perigo.

Como disse antes, contei com ajuda de especialistas e de instituições dedicadas à proteção da infância. O resultado foi um livro que tanto envolve ludicamente quanto informa e aciona o mecanismo intuitivo que toda criança tem (no final da história, ainda na voz de Ritoca, entra uma parte informativa para as crianças). O livro conta também com um texto informativo que orienta como denunciar casos de abuso sexual na infância e adolescência, baseado nos dados do site da Childhood Brasil, quarta capa assinada pela Fundação Abrinq e orelha da jornalista Rita Lisauskas do blog “Ser mãe e padecer na internet” do Estadão. “Não me toca, seu boboca!” vem recebendo inúmeros apoios de diversas instituições ligadas à infância e blogs dedicados à LIJ. Fomos agraciados com o Prêmio Neide Castanha de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, julgado pelo Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes na categoria “Produção de Conhecimento”, que recebemos em Brasília no dia 14 de maio, durante o II Congresso Brasileiro de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes.

PlayKids: Na sua opinião, como a literatura infantil pode ajudar a tratar temas complicados com as crianças?

Andrea: Sempre que me dão um microfone para falar com adultos, reforço o quanto a Literatura Infantil é uma ferramenta preciosa para se abordar com as crianças qualquer questão, principalmente os temas mais sensíveis. A Literatura Infantil é uma verdadeira ponte de afeto para alcançar as emoções que as crianças, de um modo geral, têm grande dificuldade para expressar. Como ainda faltam vocabulário e experiências para elas poderem falar desses sentimentos, há uma natural angústia. É aí que entra a leitura literária, provocando a identificação por semelhança e auxiliando a criança a se entender nesse universo, estimulando a leitura do mundo e das relações. A leitura compartilhada é um momento de grande intimidade que fortalece e consolida os vínculos afetivos e propicia as conversas mais delicadas. É como bater suavemente na porta da emoção para que as informações possam ser elaboradas a seguir. Meus filhos, que hoje são dois rapazes, se lembram até hoje de várias histórias que eu lia ao lado das camas na hora de dormir. Esse ritual é muito poderoso, porque possibilita o diálogo e cria uma cumplicidade imensa, que perdura por toda a vida.

PlayKids: O que você diria para pais, mães e educadores em relação a importância de falar sobre o tema com os pequenos?

Andrea: Tive um encontro com uma professora do interior do Rio de Janeiro em um simpósio sobre o tema do abuso sexual infantil e ela me disse: estou tentando levar a discussão para meu município, mas dizem que o tema é muito ousado. Respondi na hora: enquanto o tema for considerado “ousado”, um pequeno está sendo abusado. Ora, a maior vantagem que o abusador tem em relação à criança é o conhecimento dele em relação ao desconhecimento dela sobre o assunto. A criança não tem referenciais comparativos, portanto é fácil confundi-la dizendo “que isso é normal, carinho é legal”, dando presentes, dizendo que “é isso que as pessoas que se gostam, fazem”. Dessa forma, vão seduzindo e avançando. Se a criança souber de antemão que “SE FOR DE UM JEITO SUSPEITO, NINGUÉM DEVE TOCAR NA GENTE!” (palavras de Ritoca), vai ter mais recursos para identificar uma situação de potencial perigo. Não podemos subestimar a intuição das crianças, muito pelo contrário: devemos ouvi-las atentamente, encorajá-las e empoderá-las, oferecendo amor, atenção e informação. Para mim, essa é a melhor maneira de fortalecer os vínculos e protegê-las de possíveis assédios e violências.

O livro “Não me toca, seu boboca!”, juntamente com “Pipo e Fifi”, faz parte da coleção de livros Conversando Sobre Abuso Infantil. Para adquiri-la, acesse: Loja Leiturinha!

Profile photo of Ana Clara Oliveira

Jornalista e autora no Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.