Em um planeta com 7,5 bilhões de pessoas parece natural pensar que filhos são uma etapa essencial a ser vivida. No entanto, existe, em alguns países, uma tendência de queda no número de nascimentos. Consequentemente, ocorre um aumento no número de pessoas que não querem ser pais. Assim como o envelhecimento populacional, fenômeno que ocorre principalmente nos países desenvolvidos. No Brasil, segundo dados do IBGE, a escolha de “não quero ser mãe” ocorre para cerca de 14% das brasileiras. E, 79% dos brasileiros não querem ter filhos nos próximos anos, o que evidencia, não só um adiamento momentâneo da maternidade na população, como, em alguns casos, uma escolha por não ter filhos. 

Mulheres que fazem essa escolha ainda enfrentam o julgamento social

Apesar dos dados apresentarem uma tendência de diminuição, mulheres que não querem ser mães ainda causam um certo estranhamento social. “Como assim você não quer ser mãe?”, “Por que você não quer ter filhos?”, “E se você se arrepender depois?” são algumas perguntas frequentes que as mulheres que disseram não à maternidade já ouviram ao longo de suas vidas. 

O “não a maternidade” parece ser um caso de bastante curiosidade e desconfiança. Ao passo que as mulheres que optam em serem mães, dificilmente são questionadas com tais perguntas. Esse retrato evidencia o julgamento social que as não mães podem sofrer ao longo de suas vidas. E coloca em cheque alguns costumes e normas socialmente construídas que deveriam ser debatidas com empatia e respeito

Para adentrar esse mundo das mulheres que não querem ser mães, conversamos com três mulheres (Viviane, Cintia e Cris*) de diferentes idades e profissões, mas com um desejo em comum. 

*Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade.

Nathalia: O que te fez escolher pela não maternidade?

Cintia conta que não houve um fator que tenha determinado a escolha de não ser mãe. Porém, passou  os últimos 20 anos de sua vida priorizando diversos sonhos e planos que nunca incluíram ser mãe. “Imaginava que um dia a vontade chegaria, que o tal “relógio biológico” gritaria, mas até agora nada. Eu continuo tendo grandes sonhos, como cursos e viagens, e pequenos sonhos, como dormir e acordar a hora que eu quiser. Entendo que a maternidade me obrigaria a abrir mão de coisas que eu não quero abrir”. 

Viviane fala que a opção pela não-maternidade evoluiu naturalmente ao longo de seus 18 anos de casada e de uma carga-horária intensa de trabalho. “Minha família tem uma escola de educação infantil, então sempre tive muito contato com crianças. Sabia como era lidar com choros e birras. Após 7, 8 anos de casamento, meu marido fez uma viagem e trouxe um sapatinho de bebê de presente, quando abri, percebi que eu não queria. E meu marido foi sempre muito parceiro nesse sentido”. 

Cris conta que tem um ritmo de vida que não combina com filhos. “Sou muito agitada, faço muitas coisas, e ao mesmo tempo gosto de momentos de plena paz, de incertezas e de zero planejamentos. Acho que filhos não combinam com falta de tempo e rotina. Acho que a maternidade me deixaria muito estressada”. 

Nathalia: Como as pessoas a sua volta reagem por você não querer ter filhos?

“As pessoas reagem de diversas maneiras. Estou rodeada de mulheres que também não desejam ser mães, ou são empáticas o suficiente para respeitarem essa opção sem questionamentos. Mas há pessoas que não entendem. Estou casada há cinco anos e essa expectativa existe, e tende a ser cruel principalmente no começo. Espera-se da mulher uma série de atributos, entre elas ser mãe. E tudo que sai do script imposto pela sociedade causa espanto ou estranhamento.” conta Cintia.

Cris comenta a falta de empatia frente à decisão.  “Parece que preciso dar um bom motivo, uma justificativa, quando na realidade, falar que não quero deveria bastar. Afinal, acho que se eu quisesse eu teria, daria um jeito”. 

Viviane, fala que ouviu de tudo. “Por ser bailarina, ter um físico bonito, cheguei a ouvir de pessoas que eu não queria por medo de engordar. Já falaram que eu tinha medo de ter um filho com alguma deficiência, ouvi que o ballet tava me tirando a vontade, que eu iria me arrepender, ouvi de tudo. Tive que ser firme, chorei várias vezes e me questionei muito.”

Nathalia: Como você acha que seria a sua vida se tivesse tido filhos?

“Acredito que os filhos deixariam a minha vida bem diferente. Tenho um ritmo insano, de 150 horas por semana, começo às 7 da manhã e vou até as 22 horas da noite. Com certeza, não teria a carga de trabalho que tenho se tivesse filhos” conta Vivi. Cris também comenta sobre a intensa carga horária. “Seria mais estressante ainda”. 

Nathalia: Em algum momento você se questionou sobre a sua decisão?

Cris conta que o resultado final (família e filhos criados) parece interessante. Mas a jornada para chegar a esse resultado é tão difícil de encarar que em seguida já se sente reforçada de que não nasceu para a maternidade. Cintia diz que “arrepender-se significaria ter vontade de ser mãe, e se tivesse tido essa vontade, teria tido filhos”. Vivi se questionou bastante, divide, inclusive, que quando era pequena falava que queria ser mãe de muitos filhos. Mas, com o tempo, foi desistindo da ideia, de forma muito natural.

Nathalia: Qual é, para você, o maior benefício de não ser mãe?

Invariavelmente as três relacionam não ter filhos com liberdade. “Para mim, hoje, o maior benefício de não ser mãe é ter a liberdade de tomar quaisquer decisões levando em conta exclusivamente as minhas vontades e necessidades.” comenta Cintia. 

“Com certeza, o maior benefício é a liberdade. Gostamos muito de viajar, de aventuras, de coisas não programadas, de viajar de carro e de moto. Então com certeza, é uma liberdade de escolhas, de improviso”, compartilha Viviane.

“As pessoas me perguntam muito sobre o futuro: mas e se um dia você quiser ser mãe?” Bem, se um dia eu quiser ser mãe, eu vou ser mãe. Ser mãe ultrapassa o limite de gerar seu próprio filho, e se um dia eu tiver essa vontade nada será empecilho. O que eu não posso é hoje tomar uma decisão pensando em situações futuras que não existem. Ou no desejo de outras pessoas que não sejam eu.” finaliza Cintia.

Uma coisa é certa, as opção por não ser mãe são resultado de muitos questionamentos e reflexões. E como, qualquer outra decisão, é extremamente pessoal e digna de respeito e empatia. 

E você, como reage à pessoas que disseram não à maternidade? Conta para a gente!

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Profile photo of Nathalia Pontes

Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.