De acordo com dados do último senso, temos 67 milhões de mães no Brasil. Esse número mostra que a maior parte das brasileiras dizem sim à maternidade. Para aprofundar esse tema, conversamos com três mães de diferentes idades que disseram “Escolhi ser mãe”, para entendermos o que de comum existe dentro das peculiaridades de cada vivência. 

Para esta matéria, conversamos com Fátima (50 anos, médica), Beatriz (41 anos,  supervisora) e Cilmara (58 anos, gerente nacional de relacionamento). Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade das participantes.

Nathalia: Em que momento você percebeu que queria ser mãe? 

O momento que a mulher decide ser mãe pode variar muito de acordo com cada experiência, no entanto, sempre há o momento. Fátima sabia que seu grande sonho de vida era ser mãe, ela nunca imaginou uma vida que não acolhesse filhos. Beatriz, de certa forma partilhava essa mesma vontade, mas não propriamente como um sonho, e sim como uma experiência que deveria ser vivida. 

“Acho que a palavra que resume o momento é curiosidade. Queria saber como um filho meu seria, como seria seu rostinho, sua personalidade, como seria amamentar e cuidar, queria testar a minha capacidade de procriar e de ver o resultado final”, afirma Beatriz. 

Para Cilmara, a vontade de ser mãe veio na vida adulta, quando ela começou a desfrutar a maternidade como espectadora de amigos e parentes. “Comecei a me interessar em ser mãe quando amigas e familiares começaram a ter bebês. Notava a felicidade que o bebê trazia para as mães recentes. Comecei a sentir vontade de experienciar tamanha graça”. 

Nathalia: Em algum momento você questionou a decisão de ser mãe?

Tornar-se mãe é um grande desafio, afinal toda escolha implica em renúncias, e ter um filho é a escolha mais importante que fazemos. Por tamanha grandiosidade, impacta quase, senão todas, as dimensões da vida. 

Como bem ressalta Fátima, “Após o nascimento do filho, a vida vira do avesso, você percebe que aquela criança depende 100% de você. É um pouco desesperador, eu que achava que controlava tudo, percebi que não controlava nada. Acho que às vezes pode passar pela cabeça um certo “o que que eu fui inventar”, mas aí você olha aquele serzinho e tudo vale a pena”. 

Em sua fala, ela ressalta as diferentes criações de geração para geração. Ela conta que, de certa forma, não havia sido criada para a maternidade, e sim para o trabalho, enquanto as mulheres de gerações anteriores haviam sido criadas para serem mães. Isso trouxe um pouco de angústia, como se ela não tivesse sido preparada para essa faceta. 

Nathalia: O que mudou a sua visão antes e pós maternidade? 

Vislumbrar a maternidade e ser mãe são experiências completamente diferentes, que exigem grande entrega principalmente nos primeiros meses de vida do bebê. Beatriz conta que a maternidade mostra que todos aqueles clichês de amor incondicional são reais. “Tudo em torno da maternidade é muito intenso, começando pela gestação, que te obriga a abrir mão do seu corpo para gerar outro. Depois do nascimento essa dedicação continua, é uma doação integral ao filho. Isso é impressionante, de como doamos sem pedir nada em troca. A compensação é sentir o amor que você sente pela criança”. 

Fátima, mostra um outro lado da maternidade, o empoderamento. “Eu me senti uma verdadeira leoa, a minha filha passou seus primeiros 40 dias na UTI. Eu sentia que se eu passasse por aquilo eu poderia passar por absolutamente qualquer coisa. Me senti forte, poderosa mesmo, mais madura e mais segura”. 

Cilmara conta que a maternidade fez dela uma melhor pessoa. “Sinto que a maternidade me alavancou, me mostrou outras formas de conquistas. Me senti blindada sendo mãe, mais madura. Me livrei dos medos do passado e senti um impulso para me tornar uma pessoa cada vez melhor”.

Nathalia: Se hoje você não tivesse filhos, como acha que seria a sua vida?

Para Beatriz, a maternidade é uma das vivências necessárias de vida. “Acho que eu teria uma pergunta não respondida. Me sentiria incompleta em relação às situações que eu julgo necessárias de serem vividas”. A mesma ideia é defendida por Cilmara, que veria um grande vazio em sua vida hoje se tivesse dito não à maternidade. “Sentiria que minha vida teriam lacunas. A maternidade me fez plena, grande parte da minha felicidade é a felicidade do meu filho”.

Fátima entende que como ela queria muito ser mãe, não saberia ao certo como seria para ela uma vida sem filhos. No entanto, ressalta que pode existir uma certa liberdade das mulheres que optaram por não serem mães, de fazerem o que quiserem quando quiserem. Diferentemente das mães, que sempre tomam decisões pensando no outro. 

Nathalia: O que você acha mais difícil em ser mãe? 

Para Fátima, o mais difícil é a preocupação eterna: “É andar com o coração do lado de fora do corpo, é se preocupar sempre se a pessoa está bem, segura e saudável”. 

Beatriz aborda o respeito às decisões do outro:  “O mais difícil talvez seja você saber que uma parte de você não está sobre o seu controle, saber que essa parte tem vontade própria. É assistir algumas decisões sem intervir, é entender que seu filho é outro ser humano, e não você, é segurar esse ímpeto de sofrer no lugar do outro”. 

Cilmara aponta a responsabilidade como principal desafio: “Educar, passar suas crenças e padrões. A responsabilidade de fazer com que aquela pessoa seja uma boa pessoa”. 

Nathalia: O que você mais gosta em ser mãe?

“É lindo vê-los crescendo, é tão mágico, da vontade de chorar. Não sou religiosa, mas me faz acreditar no divino. Sentir um ser mexer dentro de você, depois vê-lo sorrir, te olhar, crescer, ter suas ideia, ser quem é, é mágico”, contempla Fátima sobre a magnitude da experiência em si. 

Beatriz fala que o mais gostoso de ser mãe é “Acompanhar os passos e ver que eu pude promover isso. Saber que eu fui responsável por educar, ensinar aquela pessoa incrível é muito gratificante, é sentir cada conquista do seu filho como se fosse sua”. 

Cilmara menciona o amor só sentido entre mãe e filho, “O amor é tão grande que chega a doer. É um amor sem cobrança, sem expectativa, sem cobrança, é o amar por amar” diz. 

Nathalia: Como vocês encaram a maternidade em relação a carreira?

Para Fátima, a mulher é cobrada em todos os quesitos: de ser a mãe perfeita, fornecer a melhor educação. Todas essas cobranças podem suscitar expectativas irreais em torno do parto e da maternidade. Para ela o segredo da sanidade é entender que em algum momento a mulher abre mão de alguma coisa:  “Existiram momentos em torno da maternidade que eu perdi, enquanto outras pessoas participaram. Assim, como tiveram aspectos da carreira que eu abri mão, mas acredito que todas essas escolhas me fizeram uma melhor mãe. Pois me permitiram também trilhar uma carreira. Acho que poderia ser um peso para o meu filho ser o único responsável pela minha felicidade”. 

Essa mesma visão é compartilhada por Beatriz:  “Eu acho que o fato de eu ter continuado com a carreira me fez ser uma melhor mãe. Apesar de muitas vezes isso sobrecarregar mais, devido à dupla jornada. Mas, acho que dá para levar os dois, carreira e filho. A cobrança é mais minha do que a sociedade. Me cobro de não acompanhar tão de perto minha filha, mas consigo ver com mais clareza que somos duas pessoas. Consigo ter minha individualidade, e acho que isso me faz uma mãe melhor, talvez eu a sufocasse se fosse presente 24 horas/dia”. 

Cilmara adiciona “Jamais iria deixar a carreira em função do filho. Acredito que se esse ciclo de carreira se quebra, não há oportunidades de resgate. Eu sabia que meu filho ia crescer e iria embora, e eu não queria cobrar dele essa responsabilidade”.

Conta para a gente, você também escolheu ser mãe? Como foi para você?

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.