Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

No meio da Olimpíada, como falar de livros? Não sei quanto a você, mas para mim esporte e leitura sempre pareceram gostos opostos. Em uma família que tinha um jogador de futebol (meu avô paterno) e uma jogadora de basquete (prima do meu pai), ambos convocados para as respectivas seleções brasileiras de suas modalidades, minha falta de intimidade com a bola realmente fez com que a família desistisse muito cedo de me ver praticando algum esporte coletivo.

Como eu sempre gostei de ler – tanto que aprendi em casa, sozinha, assistindo ao programa Vila Sésamo – cresci com a impressão de que uma coisa e outra não eram compatíveis. Na escola em que estudei, várias colegas jogavam vôlei muito bem. Algumas delas até participavam de times dos clubes próximos. Só de lembrar a força daquelas cortadas, já me encolho toda, como fazia nas aulas de educação física. Não tenho a menor ideia se elas gostavam de ler ou não, mas como eu nunca gostei de praticar esporte, achei que a recíproca fosse verdadeira.

Minha família também tinha pessoas que desenhavam e pintavam muito bem e minhas habilidades de desenho também estavam longe do nível de exigência familiar. O resultado? Sempre fui incentivada a fazer o que já tinha facilidade para fazer e a deixar de lado aquilo que não era tão fácil assim.

Fico em dúvida se essas coisas acontecem porque os pais querem nos poupar do vexame ou se porque o nível de exigência é realmente muito alto. Mas em alguns momentos da vida resolvi me testar e descobrir se eu realmente era tão ruim quanto imaginava. Ainda na escola, consegui fazer parte do time de basquete da minha classe. Não saí do banco, mas estar ali já foi uma vitória. Foi preciso concentração e dedicação e só de virar a chavinha e decidir que sim, era possível, tudo ficou mais fácil.

O mesmo aconteceu quando decidi fazer uma graduação em design e comecei a ter aulas de desenho. Com uma técnica de ensino diferente, fui capaz de reproduzir imagens, algo antes impensável para mim. Acho que se tivesse continuado teria sido capaz de fazer desenhos bem legais.

Não se trata apenas de querer se desafiar, de querer ir contra a própria natureza – a questão é que somos muito mais amplos e potentes do que imaginamos. Pode ser que tenhamos uma ou outra habilidade mais evidente, mas com um pouco de dedicação e foco é possível estimular outros saberes e práticas.

Tudo isso apenas com o objetivo de não deixar nenhum músculo atrofiar – para que hipertrofiar um lado do cérebro, se o outro e o resto todo do corpo também estão sempre ávidos por exercício?

Hoje em dia muito mais gente pratica atividades físicas regularmente, porque faz bem para a saúde. Aí, como não poderia deixar de ser, voltamos a eles, aos livros (afinal, com Olimpíada ou sem Olímpiada, é disso que estamos falando, certo?). Por que será que tanta gente diz que “não tem cabeça para a leitura”? E por que será que tanta gente que gosta de ler na infância e na adolescência para de ler quando chega à idade adulta?

Os motivos são os mais variados – e os mesmos usados para quem fica no sofá na frente da televisão comendo salgadinhos e não se dispõem a praticar exercícios. Mas tudo é hábito – inclusive ficar na frente da TV comendo sem parar. O corpo inteiro – e a vida – funcionam melhor quando todos os músculos estão sendo exercitados.

Ler cem livros por ano como fazem os leitores mais vorazes pode não ser para qualquer um, assim como minhas habilidades esportivas nunca me permitiriam fazer parte de uma equipe olímpica. Mas se eu consigo entrar numa rodinha de vôlei e não detonar a diversão do pessoal, aposto como qualquer um consegue ler um livro do início ao fim. Quer valer?


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

 

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.