O quase lá: os sentimentos nas últimas semanas da gestação

por | ago 17, 2018 | 4 Comentários

São dez meses para ser mais exata. Geralmente 280 dias ou 40 semanas. Nos últimos instantes a ansiedade toma conta e é difícil racionalizar a espera. Existe uma linha tênue que separa a felicidade do medo, a vontade de conhecer das inseguranças prematuras. Os estigmas ouvidos durante toda a gravidez vêm à tona, transformados em uma única certeza: não vai ser fácil.

Do medo à ansiedade: Os sentimentos nas últimas semanas da gestação

O choro fácil se justifica pela separação que se aproxima, pelos hormônios em excesso, pela mudança repentina. Se uma palavra pudesse descrever o pré-parto seria urgência, ou algum sinônimo de pressa. Eu, por confusão dos astros, apesar de virginiana, tenho como característica a desorganização, ouvia sobre a necessidade de “arrumar o ninho” e achava balela. Agora pareço uma louca querendo deixar tudo pronto o quanto antes.

É quase instintivo. No mais, organizar parece ser uma ótima coisa a se fazer quando aquela estranheza bate. Um vazio enorme toma conta do nada… É como quando alguém que você ama muito está próximo de fazer uma longa viagem e a sensação do abraço parece ser mais dolorida, mais profunda. É seu corpo abraçando quem está saindo de perto. Deve ser por isso também que, nesta fase, experienciamos uma sensação única de solidão. Uma solidão doída, sem remédio. Como se pela primeira vez na vida, só você pudesse traçar seu desfecho, mesmo tendo pessoas maravilhosas à sua volta, e, acredite, elas fazem grande diferença, mas são incapazes de preencher os vazios desta fase.

Por vezes, no meio da noite, você acorda encoberta de uma alegria louca, uma ansiedade do bem que avisa que você está prestes a conhecer o maior amor da sua vida. E não se preocupe se você ainda não consegue ter dimensão deste amor. Eu também ainda não consigo. Dizem que é mágico e que acontece na hora que o rebento nasce.

A espera, à espera

Desde a anunciação de que Caetano chegaria, me dediquei assiduamente à sua espera. Me preparei emocionalmente, estudei muito, li muitos livros, cultivei meu emprego legal e fiz uma playlist para o parto. Tudo isso para perceber que ainda não estava pronta.

Ter uma vida tão minúscula flutuando dentro de mim era algo que eu não estava preparada, obviamente.  Saber o que era preciso para fornecer vida era algo que eu não estava pronta. Prematuramente, eu sobrevivi. Sem me dar conta da fraqueza inicial. 260 dias, e hoje eu só me vejo assim: tendo isso –  vida para fornecer.

Como um prematuro que se apega ao calor sintético, ao oxigênio e a tudo o que é disponibilizado à ele para sobreviver, eu me apego a tudo para também estar pronta para trazer a vida.

Aos vinte e poucos, cheguei às 36 semanas, tenho um peso aceitável. Minha pele é firme o suficiente para aguentar o esticar de muitos centímetros. Sem ausência de vitaminas ou problemas pré-natais, e com músculos suficientes para segurar agora o peso de uma vida.

Eu estou pronta, para deixar tudo pronto, arrumar a casa, dentro e fora, deixar o quarto e meu regaço quentinho para abraçá-lo.

Nesta altura, percebo que o parto deve ser o mais próximo que experienciamos da morte, ou do renascimento, sem dúvida, é uma transição. Uma parte que parte das nossas entranhas para nos trazer, enfim, depois de tanta adolescência, de tanto despreparo, para a vida real.

Caetano Veloso resume:

Coisa linda

Minha humanidade cresce

Quando o mundo te oferece e enfim te dás, tens lugar

Promessa de felicidade, festa da vontade, nítido farol, sinal novo sob o sol, vida mais real

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Categorias:
0 - 3 | Gestação | Gravidez | Idade
Escrito por Caroline Lara
Líder da Equipe de Curadoria da Leiturinha, é formada em Psicologia e mãe do Caetano. Leitora compulsiva, é apaixonada em provocar emoção, despertar a fantasia, entreter e alegrar pequenos através da literatura. Acredita que quanto menor nosso tamanho, maior a criatividade!
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4 Comentários

  1. Avatar

    Que linda….foi assim que me senti na chegada do Fábio…td preparada mais ao msm tempo sem saber o q viria 😍

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  2. Avatar

    Foi a forma mais linda de retratar tudo.
    Parabéns Carol!
    Caetano sem dúvida será sua melhor parte e seu amor maior.

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  3. Avatar

    Linda sua descrição, só não se assuste se esse amor louco não aparecer assim que o Caetano nascer. As pessoas não falam muito sobre isso mas para muitas mulheres esse amor louco vai se construído com o tempo! Não se culpe se ele não aparecer como um apertar de botão, pois ele pode ser como o primeiro encontro! Boa sorte na sua jornada. Pra mim o mais difícil sempre foi o educar, saber que uma pessoinha vai aprender quase tudo de mim e o quanto posso zoar essa cabecinha se fizer bosta. Abraço

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  4. Avatar

    Me identifiquei bastante com essa linda e emocionante leitura, estou me sentindo assim, completa, porém, vazia, como se fossem me tirar algo, como se não existisse outro ideal além da maternidade…. Já sou mãe, mas não me recordo de ter vivido toda essa confusão e aflição na espera da minha filha, é como se tudo fosse novo para mim, como se eu não tivesse vivido a maternidade antes e é isso que está me tirando o sono, o interesse em fazer coisas novas ” além de estar constantemente arrumando, limpando e organizando minha casa”, porém, minha cabeça está uma bagunça sem fim….

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