Maternar é perder o controle: Da idealização do parto à cesárea de emergência

por | fev 20, 2018 | 5 Comentários

É chegado o grande dia. Seja de surpresa ou com data agendada, é sempre um mistério a maneira como se desenrolará a chegada da cria ao mundo. A verdade é que, independente da forma, a ansiedade e o nervosismo se manifestam na mesma intensidade. Parir é confrontar o desconhecido, é permitir-se entregar ao inexplorado e ao inesperado, visto que nenhum parto ocorre da mesma forma. E é aí que surgem as idealizações.

O parto idealizado

São, em média, 39 semanas, nas quais, na maior parte do tempo, é inevitável fazer com que o dia D seja esquecido. É comum quando nos deparamos com uma situação que não é dominada, a idealizarmos –  pois desta forma, é como se a contivéssemos.  Por isso, limitamos a um parto idealizado, é como se passássemos um recado tranquilizador a nós mesmas, que se o parto correr como o esperado, vai ficar tudo bem. E nem sempre é assim.

Quando colocamos em pauta a preferência pelo parto normal, muitas mulheres acabam por preferir o mínimo possível de interferências, para que tudo transcorra de acordo com os instintos da mãe e do bebê. Porém, em alguns casos, o corpo requer auxílio, o que põe fim à idealização do parto natural. Nasce uma emergência. Rompe a bolsa do parto natural e nasce a cirurgia e a mágoa por não ter conseguido.

Irrompendo o ventre, surge uma fenda moldada por um bisturi.

É a hora de parir o sonho do parto normal, de se inconformar. O dia esperado acaba por ser marcado por um momento de apreensão, o normal se torna utópico. Das inconstâncias da vida… Pausa-se a mágoa para receber aquele ser pequeno junto ao rosto. A incompreensão diante do milagre de dar luz a uma vida. Nessa hora, o filho transmite um pensamento via cordão umbilical: conseguimos.

A sensação do triunfo por ter gerado uma criança.

O filho vem ao seio, essa é a nova aliança, a nova ponte de comunicação, que substitui o cordão umbilical. Então, o pequeno experimenta o leite pela primeira vez, assim como o aconchego e o calor que tem os braços. A mãe aprende a recepcionar o recém-chegado.

O primeiro contato é rápido, retorna a realidade com a lembrança do ocorrido, do corte na barriga que precisa ser reparado. A cria se separa da mãe, pois é hora de remendar a passagem do filho e desenhar a cicatriz no ventre. A eterna marca de que houve uma vida gerada ali. São os sinais da aliança entre mãe e filho: as cicatrizes na barriga.

A mãe possui a cicatriz do corte.

O filho, a cicatriz em forma de umbigo.

Marcas de amor.

Infelizmente, a marca esconde, além do nascimento, a dor de não ter alcançado a utopia do parto perfeito. A lembrança de não ter sentido a chegada do filho, da passividade, das luzes do centro cirúrgico e o medo da anestesia.

Os riscos de uma cirurgia e a rejeição da mesma.

O incômodo diante do corpo que treme sem vontade, da coceira após o anestésico. Amamentar com um corte na barriga. O medo de manter a coluna ereta e romper os pontos.

A cabeça guarda a eterna dúvida.

Se tentasse mais um pouco? Se, de repente, a situação revertesse e o corpo conseguisse parir sem intervenções? Se acontecesse um milagre?

Pois o que houve foi um milagre. A sabedoria ao saber o momento certo de intervir e abrir mão do sonho do “parto ideal”. A força ao permitir deixar-se sedar para conceber uma cesárea.

De fato, a idealização do parto ocorre em qualquer situação. Seja natural, caso demore, o sonho é de que transcorresse mais rápido. Não obstante, caso o desenrolar se suceda mais rápido, sentimos como se não tivéssemos vivenciado a totalidade da experiência. Por fim, aprendemos que o parto ideal foi o parto que aconteceu. O que trouxe a cria ao mundo. Não importando o caminho, nem as horas, o êxtase do parto é o primeiro choro e é o que faz valer a pena toda a desconstrução da utopia.

O tempo acaba por conformar, mas quem dá a primeira lição é o filho. Aprendemos que não existem partos ideais, todo parto, por si só, é doloroso.

Independente da forma que são concebidos, os pequenos já nos ensinam desde início, que maternar é perder o controle.

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Categorias:
0 - 3 | Gravidez | Idade | Parto
Escrito por Victória Silveira
Sou Victória Silveira, escrevo como convidada para o Blog da Leiturinha e, no amanhecer dos meus 19 anos, acabei por me reconhecer como escritora, amante das Artes e mãe da Helena.
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5 Comentários

  1. Avatar

    Nossa que texto maravilhoso!!!!
    Me identifiquei ate a ultima letra!!!
    Durante a minha gestação, eu sempre tive a consciência que eu poderia sonhar com o parto normal, mas se não fosse possível, tudo bem… mais iria tentar pelo menos..
    Então, quando chegou o grande dia, eu e meu pequeno Arthur trabalhamos durante 22 horas seguidas para o nosso encontro ser feito da forma mais natural possível… mas quando cheguei a 10 cm de dilatação, não tive mais forças e ele não estava totalmente na posição que o permitisse sair, tivemos que ir para o centro cirúrgico o mais rápido possível.
    Até eu ouvir o primeiro choro, (o que deve ter levado menos de 3 min),pra mim, foi uma eternidade!! A ansiedade para conseguir vê-lo, tornou esse momento bem tenso, de uma forma que eu não esperava… mais no fim, deu tudo certo, Graças a Deus!
    Claro que por alguns minutos eu pensei, “poxa podia ter tentado mais”,” o que será que eu fiz pra ele não ficar com o ombro na posição que o deixasse sair”….
    Mas depois eu relaxei e só pensei e penso até hoje que eu tentei, fiz o máximo que pude e Graças a Deus tivemos uma médica que nos ajudou nesse trabalho e soube intervir no momento certo.
    Não sofro por ter uma cicatriz… e todas as mãe que tentam e não conseguem não deveriam sofre… temos que focar que o importante é ele vir com saúde e se precisar de ajuda, tudo bem.. a vida é assim, as vezes precisamos de outras pessoas e isso nunca nos tornará menos MÃES!

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  2. Avatar

    Grata, Victória.
    Passar por esse momento, após 41 semanas de preparo para um parto normal, é uma reelaboração mental e emocional diária.

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  3. Avatar

    Fico mto mto feliz com o seu texto. Vivi a idealização do parto normal, me preparei arduamente para isso, porém não foi possível. Ler seu texto foi uma forma de carinho recebido. Obrigada

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  4. Avatar

    Texto maravilhoso!! Super me identifiquei!!
    Me preparei durante as 39 semanas e 5 dias do meu parto para um parto humanizado, procurei um obstetra que me desse a assistência correta, eduquei meu marido, minha família e quando chegou o momento, tive uma hemorragia intensa junto com os batimentos cardíacos do meu filho caindo. Era o maior indicativo para uma cesárea de emergência. Ele nasceu maravilhosamente bem, eu passei 12h na UTI e mesmo depois de toda essa luta, eu levei uma semana para aceitar que as coisas fugiram do esperado. Como você disse, não é fácil para quem idealiza.
    É péssimo, eu sei, como eu passei a agradecer pela existência da cesárea: foi através do falecimento de uma conhecida da minha família, com o mesmo quadro que o meu. Foi ali, somente ali, que entendi que mesmo com as coisas fugindo ao controle, precisamos levantar as mãos para o céu e agradecer!

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  5. Avatar

    Olá! Hoje meu filho já tem 1 ano e sempre agradeço à Deus por estarmos juntos a cada dia. Não houve como ser parto normal, foi cesárea de emergência, mas penso… E se não houvesse a cesárea??? Então isso me conformou, pois após sentir contrações por horas, dilatação 10 e a barriga “não descer”, não havia mais a minha escolha, havia uma oportunidade que Deus deu à mim e meu filho de vivermos.
    Amém!

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