Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

Esses dias deparei com essa frase no Facebook e parei para pensar. Achei engraçado que muitos amigos comentaram sobre suas primeiras ideias de profissão, geralmente respostas à fatídica pergunta: o que você vai ser quando crescer?

Muitos falavam de um jeito meio melancólico, ao pensar nos desejos e sonhos que deixaram pelo caminho. Quanto a mim, não tenho nostalgia alguma: quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, queria ser dentista. Nem passava pela minha cabeça que trabalhar com livros fosse uma profissão. Eu gostava de ler e escrever, mas era algo tão distante da minha realidade que nunca chegou a ser um sonho.

Gostei da ideia porque ganhei do meu dentista um molde de aparelho feito de gesso e alguns apetrechos usados. Passei um mês de férias obturando aquele molde, furando e preenchendo de novo os buraquinhos com gesso. No final, o arremedo de boca estava completamente descaracterizado… Mas isso não me demoveu da ideia, por um tempinho ainda pensei em seguir essa carreira. Depois, muitas outras possibilidades surgiram, tornei-me jornalista, depois tradutora, depois editora. Sem muito planejamento, hoje posso dizer que sou exatamente o que fiz dos meus sonhos – mesmo sem ter claro quais eram eles.

Fiquei intrigada com as respostas sobre profissões porque, no fundo, o que deixamos para trás quando nos tornamos adultos é muito mais do que ideias como ser astronauta ou bailarina. Aqui entre nós, no fundo isso não tem tanta importância. O que deixamos para trás – e isso é muito mais grave – é justamente a nossa criança. Aquela pessoinha curiosa, autêntica, cheia de porquês, ávida por novidade, que questiona e não se contenta com respostas prontas, que se emociona quando ouve uma música ou quando marca um gol. A nossa Emília, a nossa Mafalda, o nosso Calvin, o nosso Charlie Brown.

Qual foi a última vez que você gargalhou de sair lágrimas dos olhos? Quando abraçou um amigo com toda força, como fazia no jardim da infância? Quando exigiu explicações, sem abaixar a cabeça? Quando defendeu um colega de uma injustiça? Quando fingiu que estava dormindo e levantou de madrugada para ler escondido ou roubar mais um pedaço de bolo de aniversário da geladeira?

De 22 a 28 de maio, é comemorada a Semana Mundial do Brincar, uma semana de mobilização promovida pela ONG Aliança pela Infância no Brasil. Uma série de atividades estão sendo propostas em várias cidades – e o feriadão abre espaço para que todos aproveitem ao máximo para brincar muito, e brincar junto – com os filhos, os amigos, o cachorro…

No site da própria ONG, Stela Barbieri – grande artista e autora de livros infantis – propõe que a cidade seja esse espaço de brincadeiras.

Brincar na cidade é experimentar um ambiente complexo de aproximações que se revelam numa investigação de possibilidades sem fim, alquimia de sentidos, de paradoxos, de potências e vetores que atingem cada um de nós – e as crianças não estão alheias a isso. Tudo ao mesmo tempo agora, a cidade não para. Ela nos invade, mas também nos convida a fazermos dela um lugar diferente, um lugar de brincar junto, de estar junto, um lugar das relações.

A ideia, então, é aproveitar a Semana, o feriado e a provocação do Facebook para resgatar o ser brincante que está aí dentro de você. E para brincar junto, que é sempre muito mais legal…


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.