Coluninha | Por Lizandra Magon de Almeida.

Há duas semanas comecei essa brincadeira de refletir sobre o que deixamos para trás quando crescemos. Daí me lembrei de um texto que escrevi há alguns anos, na época em que frequentava o mundo de magia e sonho da poeta e escritora Regina Gulla, que oferece em sua casa a Oficina Literária Gato-de-Máscara, e que me ensinou a ir além dos textos profissionais para começar a frequentar o mundo literário.

Na Oficina, a ideia é fugir da lógica para escrever textos realmente criativos, novos no conteúdo e na forma. Eu poderia falar para o resto da vida sobre tudo que aprendi lá (e é claro que em outro dia vou voltar a esse assunto…), mas fiquei com vontade de escrever sobre esse exercício que fizemos e que tem tudo a ver com essa ideia de voltar ao passado para descobrir mais sobre quem somos hoje.

Regina certa vez nos pediu para escrever uma carta endereçada para nós mesmos quando crianças. O que gostaríamos de dizer para a menina ou menino que fomos? Que tipo de conselho eu poderia dar para que ela, no meu caso, crescesse se sentindo mais segura, mais feliz?

Meu convite a você, então, é que pense naquela pessoinha pequena que você foi: pare um pouco, respire fundo e lembre-se de quem você era quando criança. Tinha medo de quê? De que gostava? O que o entusiasmava? Preferia manteiga ou requeijão? Biscoito de morango ou de chocolate? Futebol ou vôlei?

De cara, lembramos de coisas que hoje parecem tão pequenas e banais, mas que tinham tanta importância… Se aprofundarmos um pouco mais, também vamos nos lembrar dos nossos maiores medos e inseguranças. Medo de fazer prova? Medo de desapontar os pais? Medo de perder a melhor amiga?

Foi pensando nisso tudo que escrevi minha carta para mim mesma pequena – não quer aproveitar para escrever a sua? Eu garanto que é uma boa chance de reconhecer que, afinal de contas, somos fruto de nossas próprias escolhas e que aprendemos muito nessa trajetória louca que se chama vida. Aí vai a minha carta:

Cara mim mesma pequena,

Se tem uma coisa que você pode ficar tranquila desde já é que palavras não vão lhe faltar. Você não vai ser dessas que precisa acender vela antes de prova. Pode contar com isso. As palavras vêm.

Mas nem sempre na hora que você precisa delas, é claro. Afinal, palavras são que nem guarda-chuva. Por mais que se seja precavido, quando menos se espera ele ficou em casa, todo encolhido, enquanto a chuva desaba lá fora.

Pode contar, então, com a imprevisibilidade das coisas. Assim como não existem fatos, apenas versões, também há sempre lentes que aumentam e diminuem o que seus olhos acham que veem.

Por mais que você tente aprisionar a verdade, é bom que se diga: ela costuma se desfazer como um laço de fita. E pode reparar: mesmo que a gente refaça o laço, ele nunca fica exatamente igual ao outro.

Ah, tem outra coisa importante. Papai Noel existe. Coelhinho da Páscoa também. Mas ‘pra sempre’ não tem. Não sei quem foi que inventou o pra sempre, mas não vou enganar você: isso não existe mesmo.

Então não precisa ficar sempre assim, tão séria. Pode relaxar. Isso. Descansa. Melhor já ir treinando.

A gente se vê,

Você, maiorzinha


Lizandra Magon de Almeida é jornalista, tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.

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Jornalista

Tradutora de profissão e proprietária da Pólen Livros, que edita livros infantis e voltados a questões do universo feminino.