Leitura e escrita: lugares de fala e visibilidade

Em um país que, embora tenha a multiculturalidade e a diversidade como marcas principais, mata e marginaliza suas minorias sociais cotidianamente, qual o papel da leitura e da escrita? Como as palavras podem visibilizar, invisibilizar e tornar possível outras narrativas? Como as histórias podem nos humanizar e colaborar para a nossa relação com nós mesmos e com o outro? Como a literatura pode nos formar enquanto pessoas mais críticas e sensíveis, em um contexto social e histórico que parece carecer cada vez mais de criticidade e sensibilidade?

Estas foram as questões que permearam os três dias de mesas, palestras e discussões do II Seminário Internacional de Arte, palavra e leitura, realizado pelo Itaú Social, SESC Pinheiros, Comunidade Educativa CEDAC e Instituto Emília, que, este ano, teve como tema: Leitura e escrita: lugares de fala e visibilidade.

Com convidados de diversas partes do Brasil, além de Colômbia, Chile e México, entre advogados, escritores e escritoras, mediadores e mediadoras, ativistas da leitura, editores e pesquisadores na área da literatura, o Seminário deixou claro para que veio: para mexer, tirar da zona de conforto e incomodar, fazendo-nos pensar sobre, não só o papel da palavra, mas também sobre o nosso papel perante a realidade em que vivemos.

A literatura, o eu e o outro: de que lugar você fala?

A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.

Antonio Candido                            

Antonio Candido, sociólogo, crítico literário e professor universitário brasileiro, afirmava a literatura como direito do ser humano. Assim, como foi dito durante o evento, a palavra é propriedade da comunidade e, por isso, a importância e a necessidade da apropriação da linguagem, da escrita e da leitura como direito e como ato político e de acolhimento. Pois, como disse Paulo Freire, “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”, mas uma não dispensa a outra, sendo o domínio da palavra um direito de todos!

Mais do que falar sobre a realidade, a linguagem constrói a realidade, colaborando com a construção da nossa identidade, da nossa relação com o outro e promovendo um lugar de pertencimento e enunciação. E como foi muito bem colocado pela bibliotecóloga colombiana Silvia Castrillón na mesa “O lugar da comunidade nos espaços de mediação e identidade”, pode-se negar a ler, desde que não se esteja excluído da literatura. Caso contrário, se negar a ler não seria uma escolha.

Assim, renovadas e incomodadas, saímos do II Seminário Internacional de Arte, palavra e leitura, com ainda mais energia para transformar por meio da palavra, entendendo que, mais do que leitores, temos a responsabilidade de formar cidadãos mais empáticos, críticos, solidários e sensíveis ao outro. Entendendo que a literatura não precisa ter esta finalidade, mas que, quando aliada ao momento compartilhado, ao vínculo e ao diálogo, ela, por si só, já nos torna mais humanos.

Foto de Capa: Fernando Cavalcanti (divulgação Revista Emília)

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Jornalista e editora do Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.