Quem já se deparou com o desafio de lidar com o tédio na infância dos filhos sabe que não é fácil. Especialmente quando o tédio da criança acontece ao mesmo tempo e por causa dos momentos de maior ocupação dos adultos no trabalho, por exemplo. Aquele momento em que não há telas ligadas ou brincadeiras com roteiros a seguir, atividades a produzir, é então vivido com muita chateação. Mas os benefícios do tédio são muitos e negar esse sentimento a todo custo pode privar as crianças de seu aprendizado.
O que é o tédio e por que ele parece um vilão?
Tédio é um sentimento! Ele diz da sensação ruim, aborrecida, de ter de esperar por algo. Também pode ser lido como o sentimento de aversão a algo, mas sem que haja causas aparentes. Sendo assim, tão “tedioso”, no dia a dia ele é sempre tido como um vilão a ser combatido. O contrário do tédio é a diversão. Portanto, não, não queremos nada de tédio em nossas vidas e até passamos horas assistindo a programas de que nem gostamos tanto assim ou fazendo coisas em excesso só pra não sentir nadinha de tédio.
Mas desde o tão famoso filme da Disney, “Divertida Mente”, que crianças e adultos passaram a ter uma visão ilustrada e muito colorida da importância de todos os sentimentos, até daqueles que nós preferíamos ter deixado de lado. Os sentimentos todos tem sua função reguladora em nossas vidas e são todos muito importantes, certo? Mas o que fazer com o tédio, então? Como e por que encarar esse sentimento tão enfadonho?
O tédio no desenvolvimento infantil e a superestimulação das crianças
O tédio acontece normalmente em períodos de ócio, quando não se tem nada para fazer. Quando se tem crianças em casa é muito comum ouvir delas: ‘O que eu faço agora? Não tem nada pra fazer aqui!” quando vivem momentos de atividades não estruturadas.
Além do tempo de ócio, é muito comum que pais com filhos em idade escolar passem a se preocupar em como preencher a semana do filho com atividades extras, como se isso fosse o diferencial para seu desenvolvimento. É comum também que sobre os filhos recaiam o peso dos desejos que seus pais não puderam realizar no passado e que os filhos sejam vistos como a promessa de realizações dos próprios pais. É aquela famosa frase: “meu filho terá tudo que eu não tive”. E com essa tentativa de uma suposta reparação histórica, pais cuidadosos e preocupados matriculam seus filhos em programas extra escolares excessivos que muitas vezes transformam a rotina em um peso, acabando com seu tempo livre e sua autonomia na escolha das brincadeiras e atividades a fazer.
A busca incessante por produtividade e a falta de tempo livre 
Enquanto isso, sob uma perspectiva mais abrangente, podemos dizer que vivemos em uma sociedade em que o princípio da meritocracia ainda ameaça a todos com o temor da insuficiência e a crença de que se você trabalhar muito, “chega lá”. – “e se eu não for bom o bastante?”, “preciso garantir que meu filho tenha acesso a tudo que puder”. Preocupações justíssimas. Porém, dentre as muitas camadas que se ocultam nessa dinâmica complexa de tantas subtrações, há algo muito caro às infâncias – tempo de qualidade, com profundidade.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han nos fala sobre isso em seu livro “A sociedade do cansaço” (ed. Vozes). O professor Han analisa a forma como nossa sociedade evoluiu no século XXI, especialmente com o advento das tecnologias e redes sociais, a nossa forma de ver e se colocar no mundo mudou muito no sentido dessa subjetividade acelerada, de alta cobrança consigo mesmo e com os outros.
Han, em seu livro, nos apresenta uma reflexão crítica e valiosa sobre como estamos sempre focados em ter uma alta performance em tudo. Tanto, que hoje em dia é comum que estejamos sempre ocupados, atrasados, tensos, e façamos muitas coisas ao mesmo tempo. Até mesmo no trabalho, somos multitarefas. As empresas nos cobram isso e, mais importante – nós mesmos nos cobramos alta performance o tempo todo. “Temos que dar conta” de tudo. E se essa lógica parece ser algo positivo para nós, adultos, por que não seria também para nossos filhos? Afinal, são mais jovens que nós, têm mais energia para gastar e estão inquietos o tempo todo! Nada mais óbvio do que também esticar o tempo da escola para o curso extra, ocupar as manhãs com atividades direcionadas e pré-estabelecidas, não dar margem para “cabeça desocupada”. Não é mesmo?
Os impactos do excesso de estímulos na infância
O reflexo dessa tendência global de superestimulação, excesso de cobranças, informações e agendas sempre lotadas pode ser observado no aumento das prescrições médicas e psiquiátricas, bem como na banalização de diagnósticos de ansiedade generalizada, que afetam cada vez mais pessoas.
Diante disso, surge uma questão importante: devemos simplesmente adaptar nossos corpos cansados a um modelo de alta produtividade no menor tempo possível, moldando-nos a essa realidade exaustiva? Ou, por outro lado, devemos repensar e transformar o contexto que nos adoece?
Se esse ritmo acelerado e sobrecarregado prejudica os adultos, especialmente as crianças, é fundamental refletir: como podemos adotar estratégias eficazes para lidar com esse problema no dia a dia?
O papel do tédio no desenvolvimento infantil
Em uma educação respeitosa, crianças têm que ter tempo livre para vivenciar sua infância, criar brincadeiras sem roteiros pré-estabelecidos e nesse cenário resolver problemas por si mesmas, sentindo-se confiantes por dar conta disso. As crianças que experimentam situações tediosas, que precisam esperar pela sensação de prazer ou recompensa, podem aprender a acolher o diferente, incomodando, para então ter experiências que não sejam somente centradas em si mesmas, mas que expandem seus horizontes e os faça ver além.
Vivenciar o tempo ocioso e o tédio proporciona que uma criança conquiste maior repertório sócio emocional, experimente e teste habilidades, gostos e interesses. Assim, quando ela consegue imaginar e agir por si mesma, em como sair dessa situação desconfortável, ela tem sua criatividade aguçada, sua imaginação expandida, sua confiança em si reforçada. Além de tudo isso, passar por atividades mais longas, que exigem perseverança e disciplina, auxiliam na construção da atenção e concentração dos pequenos, habilidades importantíssimas para o raciocínio crítico e analítico ao longo da vida.
Além de tudo isso, negociar o que pode ser feito e como pode ser feito, estimula o desenvolvimento de habilidades interpessoais, empatia e respeito, maior compartilhamento de saberes e maior aprendizado uns com os outros, principalmente quando se tem a oportunidade de estar em grupos, com outras crianças. Mas, com tantos benefícios, por que ainda assim é tão difícil enfrentar e sustentar momentos de tédio?
Como ajudar a criança a lidar com o tédio? 
É claro que nem tudo são flores e nem toda criança lida bem com o silêncio do tédio. No início, pode ser difícil criar estratégias para enfrentá-lo. Um adulto que já experimentou esse sentimento pode ajudar. Se a criança perguntar “o que fazer agora?”, uma boa resposta é: “não sei. Vamos pensar juntos?”. Assim, ela se sente encorajada e, com o tempo, nem precisará mais de ajuda.
Dizer para a criança enfrentar o tédio sozinha soa vazio se o adulto recorre às telas o tempo todo. O exemplo é a melhor forma de ensinar. Antes de dormir ou em um intervalo do dia, estar presente, observar mais e intervir menos pode ajudar a criança a sustentar esse “vazio”.
Esses momentos revelam muito sobre a criança: suas brincadeiras, histórias e sentimentos. Situações mal resolvidas podem ganhar palavras e formas, trazendo alívio e organização interna. Isso vale não só para as crianças, mas para todos nós.
O tédio como aliado no desenvolvimento infantil
Garantir momentos livres e brincadeiras não estruturadas ajuda no aprendizado. Manter-se firme no “não saber” diante do “o que fazer agora?” também. Viver o tédio da melhor forma mostra que ele não só é possível, mas pode ser recompensador!
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