Ser fluente em um outro idioma já deixou de ser um diferencial, para se tornar praticamente um pré-requisito no mundo globalizado que vivemos hoje. Não é à toa que matricular os filhos em escolas e cursos de outra língua está entre as principais preocupações de muitos pais. Com o intuito de que os pequenos cheguem à vida adulta dominando um segundo idioma, na maioria das vezes o inglês, os pais têm encontrado diferentes formas de introduzir outra língua na vida dos filhos, desde cedo.

Hoje em dia, já é comum ver crianças com menos de seis anos, frequentando escolas de inglês. Nesse contexto, surgem diferentes posicionamentos e questionamentos acerca do ensino de outra língua para crianças ainda tão novas. Alguns profissionais alegam que introduzir outro idioma antes da assimilação completa da língua materna ou da conclusão do processo de alfabetização pode confundir os pequenos, prejudicando o desenvolvimento da fala. Por outro lado, profissionais e pesquisas apontam que o bilinguismo na infância, não só é benéfico para o desenvolvimento cognitivo das crianças, como também contribui para uma melhor comunicação, repertório cultural, conhecimento de uma maneira geral e oportunidades no futuro.

Para entender melhor como esse processo funciona com pequenos ainda tão novinhos, nós conversamos com Marina Fideles, formada em História pela Universidade de São Paulo, graduanda em Pedagogia e professora auxiliar de classe com pequenos de dois e três anos, em uma escola bilíngue em São Paulo. Ela nos contou um pouco sobre a dinâmica das aulas, o processo de aprendizagem de seus alunos e sobre sua visão em relação a essa forma de ensino, seus benefícios e possíveis desvantagens.

Nada de explicar em português! Desde cedo as crianças são estimuladas a falar somente a segunda língua na escola

Na instituição em que Marina leciona, durante toda a Educação Infantil, as aulas são estritamente na língua inglesa, portanto, o(a) professor(a) deve se comunicar com os pequeninos apenas nesse idioma, em todas as situações. A partir do primeiro ano do Ensino Fundamental, as aulas passam a ser em período integral: metade em inglês e metade em português. Tanto em um caso quanto no outro, os professores que lecionam em inglês, tornam-se referência nesse idioma na vida dos pequenos, devendo manter a comunicação apenas nessa língua para que as crianças assimilem que, com aquela pessoa, fala-se apenas em inglês.

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Marina Fideles é professora da Educação Infantil, em uma escola bilíngue em São Paulo

Para Marina, a maior dificuldade em ser uma educadora bilíngue é não utilizar a língua portuguesa nos momentos de resolução de conflitos entre as crianças. “É muito difícil não sucumbir à vontade de explicar em português os porquês nessas situações, ainda mais quando as crianças estão emocionalmente abaladas. No entanto, para esta proposta, é importante não ceder a tais vontades, já que o intuito é que se estabeleça um vínculo sempre na língua inglesa, em qualquer circunstância do cotidiano escolar, com o objetivo de que, na escola, a criança viva verdadeiramente uma imersão na língua não materna”, conta.

Nessa faixa-etária, muitos dos pequenos ainda não dominam totalmente o português e observa-se com frequência que, na construção de frases, as crianças utilizam tanto palavras em inglês quanto em português. “Acredito que isto se dê justamente porque as crianças bilíngues têm uma relação diferente das crianças não-bilíngues na construção de seus repertórios linguísticos, apresentando não só a sua língua materna como referência na construção de sua linguagem e comunicação, mas também a língua inglesa. Isto muda a relação e interação das crianças com tudo aquilo com que as envolve, com a forma como compreendem o mundo. E acompanhar isso cotidianamente em sala de aula é incrível”, relata Marina Fideles.

Conheça as vantagens e desafios da educação bilíngue

Marina acredita que a imersão oferecida pela escola bilíngue, desde os primeiros anos de vida, faz toda a diferença na construção da linguagem e oralidade de uma pessoa. “Acredito que a proposta de educação bilíngue seja bastante benéfica no sentido de ampliar ao máximo a compreensão de mundo que essas crianças têm. Uma criança que desde muito nova é fluente em diversos idiomas enxergará as situações de forma diferente, necessariamente. Isso, porque seu repertório linguístico e cultural será diversificado. Ela poderá ter acesso, desde muito nova, a livros, filmes, músicas em outras línguas e isso é algo bastante incrível, pois a acompanhará para o resto da vida. Tornando algo que poderia ser uma barreira (a língua não materna), em uma ponte, uma abertura para os mais diversos campos da vida dessa pessoa”, afirma.

Ainda sobre os benefícios da educação bilíngue, Marina complementa: “Pensando como educadora, que lida com seres humanos tão novinhos em formação, acredito que a educação bilíngue tem o potencial de trazer perspectivas mais humanizadas para essas crianças, demonstrando desde o início a diversidade, tanto na forma de se expressar quanto na cultura em si. Pode ser útil para contribuir para a formação mais humanizada e menos voltada à exaltação de uma só cultura, indo contra a ideia de supremacia de uma cultura em relação a outra. A educação bilíngue, ao meu ver, apresenta a possibilidade prática de ampliar horizontes e abordar, cotidianamente, questões como a diversidade e a tolerância”.

Sobre as desvantagens dessa forma de educação, Marina afirma não enxergar nenhuma dimensão negativa no bilinguismo em si. No entanto, dependendo da proposta pedagógica da escola, a educadora acredita que o ensino bilíngue pode distanciar os pequenos da cultura brasileira, especialmente na primeira infância. “Fico me perguntando se as crianças que pouco tem acesso à cultura brasileira se compreenderão como partes integrantes dela ou se, de alguma forma, se considerarão apartados de tal cultura… Não por acreditar numa necessidade de afirmação de suas identidades nacionais, mas por temer que elas menosprezem outras pessoas que têm vivências diferentes das suas, visto que são poucas as crianças que podem ter acesso a uma educação bilíngue no Brasil, atualmente”, relata Marina Fideles.

Se divertir enquanto aprende é muito importante!

Como já falamos diversas vezes aqui no Blog da Leiturinha, a ludicidade é sempre uma ótima aliada no momento de introduzir novos conhecimentos ou abordar diferentes assuntos com os pequenos. Com o ensino de uma segunda língua, não seria diferente. Brincadeiras, contação de histórias, jogos, atividades artísticas e músicas…Tudo que há de lúdico colabora para a introdução de um outro idioma na vida das crianças, de forma leve e de fácil assimilação.

Marina conta que em suas aulas, se utiliza do lúdico de diversas formas, principalmente por meio da música. “Desenvolvo um projeto com violão, semanalmente, com meus alunos de 2 anos, em que passamos cerca de 40 minutos tocando e cantando “nursery rhymes” (músicas tradicionais de língua inglesa). Acredito que este trabalho seja bastante importante para a aquisição de vocabulário, especialmente para crianças tão pequenas, que muitas vezes ainda pouco se utilizam da linguagem oral para a sua comunicação, mas que vêem muito sentido na linguagem musical – o que é percebido na prática cotidiana. Através das músicas, introduzimos situações, contamos histórias, usamos o ritmo combinado com as palavras e eles vêem sentido nisso. Com o tempo, em suas falas, passam a usar o vocabulário assimilado, a usar exemplos que aprenderam com as músicas e etc. Acredito que este seja um ótimo recurso para auxiliar na introdução da língua não materna para crianças tão pequenas”, conta.

I Can Speak English! Uma playlist de músicas em inglês para crianças

Pensando na linguagem musical enquanto ferramenta na introdução da língua inglesa, preparamos uma Playlist em nosso Spotify, com músicas em inglês, que vai ajudar as crianças a assimilar mais facilmente este idioma. Confira:

Dica Leiturinha: Coleção Inglês para Crianças

Promover o aprendizado dos pequenos no inglês é uma grande preocupação dos pais e instituições, e, nada melhor do que a literatura para que isso aconteça de forma completa e divertida! Pensando nisso, a Equipe de Curadoria da Leiturinha preparou uma coleção de livros ideal para incluir os pequenos neste idioma!

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Profile photo of Ana Clara Oliveira

Jornalista e autora no Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.