“Que fofa!” é o que dizem quando veem minha foto criança no facebook, essa rede social tão estonteantemente temática, que inventa razões o tempo para que a gente brinque com a própria imagem. A razão do mês de Outubro é o dia das crianças, e dá-lhe avatares com crianças de diferentes épocas. Todo mundo adere à novidade. Enfim, fofura não era o meu forte quando criança – menos ainda agora. Eu era dessas crianças que não param um minuto e que existem para fazer até as mais crentes no desejo de maternidade duvidarem da ideia de ser mãe. Eu era do tipo terrível (termo antigo), do tipo hiperativa (termo pós-moderno). Eu era. E poucas pessoas aceitam isso: que a gente seja, apenas. Sem um determinante. Ensinamos nossas crianças a colocar rótulos desde que elas nascem: esse é um amor; esse é mimado; fulano é carinhoso; beltrano é chorão. Eu tive muitos rótulos, mas talvez o mais cruel deles foi colocado sob o véu da ingenuidade (e uma dose de ignorância das pessoas): “Que bonitinho, ela fala árabe”.

Ser filha de imigrantes não é fácil em nenhum sentido; e isso não muda se a existência se dá em um país que tem quase um fetiche com estrangeiros, como o Brasil. Eu misturava o português aprendido na rua, com o árabe e o francês, aprendidos em casa. Obviamente, eu não tinha noção de continuidade de língua e, por vezes, misturava a sintaxe de uma com a semântica ou a morfologia de outra, montando pequenos Frankensteins linguísticos que só faziam sentido para mim. Mas as pessoas achavam bonitinho. E pediam para que eu repetisse. De novo. Mais uma vez. E riam. As crianças não dissociam a risada de carinho daquela risada de escárnio. Eu, adulta, não tenho certeza se elas têm, de fato, tanta diferença assim. Isso me deixou intrigada com a minha língua. Isso estava inscrito em mim, no meu futuro.

Teorias vão dizer para não repetir o que a criança fala de errado porque isso a ensinaria a cometer sempre o erro. Eu digo mais: que tal começarmos a agir com um pouco mais de naturalidade? Ficar imitando, ridicularizando, aplaudindo ou venerando linguajares infantis pode resultar em consequências muito maiores que a mera repetição do erro. Eu fiz Letras. Não à toa. Eu tenho sérios problemas com línguas estrangeiras, mesmo sabendo fluentemente várias. Não à toa.

Nada diz mais que a gente do que a nossa linguagem. A criança pode não saber disso, mas ela sente.

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Coluninha

Mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP, onde também cursa doutorado. É professora de Língua Portuguesa e autora do livro Guia Prático do Feminismo: como dialogar com um machista. Escreve no blog marcellarosa.com.