Quando a hora de dar a luz se aproxima

Os sinais são mais intensos e evidentes. Um pézinho que encontra conforto próximo à costela, as espreguiçadas que tentam encontrar mais espaço, o mundo já não consegue mais se limitar à barriga. Não sendo o suficiente, aquele pequeno serzinho já se prepara para abraçar uma escala maior de mundo: a luz.

Mas, conciliado à ânsia de sentir o cheiro, o toque e o olhar da cria, brota também o medo do parto. Da dor. Do desconhecido. Como é a dor do parto? As lendas contam que é a dor da morte, de 20 ossos partindo-se, é como uma cólica menstrual muito mais intensa, mas então, como suportá-la?

O resgate ao parto humanizado

É importante lembrar do contexto em que nossas antepassadas pariam e do olhar com o qual passamos a ver esse processo. Quando o parto tomou o ambiente hospitalar, houve a tendência de enxergá-lo como doença. Procurava-se a cura para tal dor, deixando de ser um ato fisiológico. A grande quantidade de interferências desnecessárias e violência obstétrica, afastaram a mulher da capacidade de ouvir seu corpo e entender os momentos em que tudo corria bem, possibilitando o reconhecimento de uma situação atípica.

A falta de contato com o parto real levou-nos a fantasiar sobre como seria essa dor. Desde pequenas, semeamos nas crianças o distanciamento desse processo. A cegonha, a sementinha… A humanidade toda passou por isso, mas porque falamos e acobertamos tanto o parto? Diante de uma situação desconhecida, é comum sentirmos medo. Por isso, o maior anestésico para o momento do parto é estar informada sobre ele. Dessa forma, é possível identificar algo que não esteja certo e, assim, podemos solicitar uma intervenção realmente necessária.

Dor do parto: a dor da partida e a dor da chegada

De qualquer forma, também não podemos deixar de esclarecer: a dor do parto existe. Mas a presença do medo a torna muito maior. Conhecer esse processo, aceitá-lo e aprofundar-se nele, torna a dor uma fonte de aprendizado. Além da água quente, que pode aliviar o desconforto das contrações, a mente tranquila e segura de sua capacidade, respeitando as vontades e o tempo do corpo é a principal analgesia.

As contrações, de início, molham os pés, como ondas que vêm e vão, vagarosas, em seu tempo. O parto é um momento de imersão, é a chegada e a partida do bebê. Nosso corpo despede-se, toda partida é dolorosa. Senti-la é importante para ambos, ainda hão de vir muitas. Aos poucos, as ondas se intensificam e abraçam as pernas, o mar é a vida nos envolvendo por completo. É o primeiro contato que os bebês têm com a vida real: dolorosa, mas necessária, envolve a aceitação, o autoconhecimento, a confiança e sobretudo, o amor. O parto é dualidade: é a dor da chegada da vida, mas também, da morte que põe fim ao tempo em que mãe e bebê foram um só.

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Sou Victória Silveira, escrevo como convidada para o Blog da Leiturinha e, no amanhecer dos meus 19 anos, acabei por me reconhecer como escritora, amante das Artes e mãe da Helena.