Das poucas certezas que tenho na vida, essa encabeça a lista. É preciso contar histórias para todo mundo. Todos os dias. Com entusiasmo. Sejam factuais ou ficcionais (eu nem acredito que haja diferença), que se contem histórias.

Coluninha | Por Marcella Abboud.

Estive internada por alguns dias e quem já esteve, sabe: quando não se dorme em função dos medicamentos, é quase insuportável o tédio de um hospital e a potência duradoura do tempo dentro daquelas paredes. Mas as narrativas nos salvam. Dona Luzia, 82 anos, minha companheira de quarto que o diga. Dona Luzia mudou meus dias naquele lugar, contando muito sobre sua vida. Dona Luzia me divertia falando sobre ser viúva “graças a Deus”. Não me divertiu só porque eu achava graça na história e no modo como ela contava, mas porque também era um tipo de empoderamento feminino sobre o qual eu nunca tinha parado para pensar: o da viuvez. Depois me contou de como arrumou uma profissão aos 57 anos. De onde morou, de onde queria morar. Contou que fez faculdade da terceira idade, e aprendeu inglês depois dos setenta.

Dona Luzia, entre um soro aqui e um remedinho acolá, transportou meu corpo que só pensava em dor para um novo universo que eu não conhecia, e eu me perguntei: o que, nesse mundo, que não seja nenhum tipo de droga (lícita ou ilícita), não custa nada (como o cinema, uma viagem real, ou fotografias) pode transportar a sua imaginação tão longe a ponto de fazê-lo esquecer a própria realidade? Nada. Só as histórias! E eram das histórias dela que nasciam a maioria das conversas amenas que eu tinha com minha mãe, que também precisava um pouco se esquecer de onde estava. Contar histórias e garantir que, em corrente e sucessivamente, o universo seja mais tolerável – e tolerante.

Hoje, eu nem vou me ater ao que há de educativo nesse ato. Também aqui já falei sobre imaginação. É que hoje, após semanas de dor, o meu foco é o prazer.

E antes que eu pareça esquisita e egoísta, é preciso que eu diga uma grande verdade: É preciso contar histórias. (de novo, eu sei!) E não só porque é preciso que se propague o prazer de ouvi-las, mas porque é absolutamente necessário contá-las. Eu não tinha muitas histórias com meus 25 anos (e, algumas, acho que o pudor da Dona Luzia talvez não aprovasse tanto…). Porém, eu contei algumas histórias e me senti melhor. Melhor que tomar remédio, era tomar dimensão de como a minha vida é incrível. Além disso, cada vez que eu a reproduzo em palavras algum momento, eu posso revivê-lo.

Ainda que a história seja triste. Ainda que seja uma lembrança complicada. O prazer não está no que aconteceu, mas no ato de contar. Só conta história quem vive, e é muito bom estar aqui para viver os meus dias…

E os de Dona Luzia.

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Coluninha

Mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP, onde também cursa doutorado. É professora de Língua Portuguesa e autora do livro Guia Prático do Feminismo: como dialogar com um machista. Escreve no blog marcellarosa.com.