Vozes negras na literatura: a importância da representatividade nos livros infantis

por | nov 19, 2020 | 4 Comentários

Já falamos aqui no Blog da Leiturinha sobre a importância de trabalhar a autoestima na educação das crianças para que elas cresçam mais seguras e independentes. Também já ressaltamos como a literatura infantil, com sua ludicidade e linguagem leve e adequada ao imaginário dos pequenos, colabora para que, até mesmo, assuntos mais complexos sejam discutidos. É o caso do respeito às diferenças, o combate ao racismo e a intolerância, por exemplo.

Hoje, em comemoração ao mês da Consciência Negra, vamos falar sobre a importância da representatividade na literatura infantil, colaborando para a construção da identidade e da autoestima de crianças negras. Vamos lá?

A construção da identidade na infância

Durante a infância, vivemos o auge do nosso aprendizado. Especialmente na primeira infância, período que vai desde o nascimento até os seis anos de idade. Assim, tudo aquilo que os pequenos têm acesso e convivem, tornam-se referenciais na construção de suas teorias de mundo, suas ideias de família, de sociedade, de relações e de si mesmos.

Porém, as crianças ainda não filtram o que lhes é apresentado e não refletem por si só sobre o conteúdo que lhes chega. Isto é, se ele é bom, ruim ou se haveria outra possibilidade. Para isso, os pequenos precisam da intermediação de adultos, que os façam perguntas e os levem a refletir. Dessa forma, se uma criança sempre consome livros ou programas em que um padrão (de comportamento ou de imagem) se repete, aquela mensagem será captada como uma verdade para ela.

Por mais diversidade nas páginas dos livros!

Se vivemos em um mundo tão diverso e rico por suas diferenças, não faria sentido encontrarmos na literatura apenas uma pequena parcela da sociedade representada. Tanto pensando nos personagens quanto na autoria destes livros.

Por esse motivo, é cada vez mais importante que tenhamos personagens principais negros na literatura, bem como autores e autoras, de modo que todas as crianças possam se identificar e construir visões de mundo mais amplas e realistas.

A importância das diferentes histórias e culturas

A autora nigeriana Chimamanda Adichie, em uma palestra ao reconhecido Ted Talks, fala sobre a importância da representatividade para que não haja uma história única sobre os diferente povos, culturas e lugares. Em sua fala, ela lembra como se sentia, quando criança, ao ler apenas contos de fadas em que as personagens eram brancas, de olhos azuis e viviam no frio, sendo ela negra e morando em uma região muito quente.

Nesse sentido, faz-se necessário que a literatura, assim como os demais canais de comunicação, seja vasta e eclética, de modo a não apresentar sempre histórias com os mesmos padrões recorrentes. Como fator de identificação da criança, a literatura tem muito a contribuir para a construção de sua identidade e, no caso das crianças negras, é fundamental que hajam cada vez mais personagens principais negros.

E a importância da representatividade na literatura não perpassa somente o tema da cultura afro, mas todas as demais. Como, por exemplo, a importância de se ter autoras mulheres, sendo que, há algumas décadas, a maioria dos autores eram homens.

Literatura infantil, representatividade e identidade negra

Luana e família. Arquivo pessoal.

Pensando nisso, nós conversamos com Luana Gabriela, graduada em Pedagogia, professora do Ensino Fundamental desde 2010 e mãe de dois pequenos.

Neste bate-papo, ela relatou como vê a questão da representatividade na literatura, a importância de as crianças se identificarem com os personagens e como isso tem mudado desde a sua época de infância até os dias de hoje.

Veja abaixo a entrevista especial com Luana sobre consciência negra!

Leiturinha: Como você vê a questão da representatividade negra na literatura infantil?

Luana: Confesso que conheço pouquíssima literatura em que há uma  representatividade de negros. Vejo que não há um interesse em comercializar literaturas em que há negros. A maioria das histórias que vejo são de superação ou inclusão. E as crianças querem ser o que tem poderes e não aquele que venceu/superou preconceito ou a vida consequente de um massacre histórico.

Leiturinha: No seu dia a dia em sala de aula, como você lida com essa questão?

Luana: Estou em um momento de percepção, valorização e conhecimento da minha negritude agora, aos 35 anos. Em sala de aula, as crianças são provocadas a conhecerem quem, quando e como nosso país, povo e cultura foram construídos, através de estudos, mas sempre sinto falta de literatura que conte essa história de forma crítica, divertida e que as crianças compreendam. Sinto falta de heróis negros com os quais todas as crianças (negras ou não) se identifiquem.

Leiturinha: Qual a importância de as crianças se identificarem com os personagens?

Luana: Quando eu era criança, eu queria ser a Mulher Maravilha. Nem brasileira ela é! Penso que uma literatura que coloque personagens negros e, indígenas em situações cotidianas ou em situações que sirvam de referências para toda e qualquer criança, seja extremamente importante para que as crianças se identifiquem com personagens que sejam verdadeiramente nossos. Brasileiros! E que, ainda, dialoguem com essas crianças.

Leiturinha: Em relação a esta questão da representatividade, você sente que houve alguma melhora de sua época de infância em relação ao que seus filhos têm acesso hoje em dia? Como você conversa com eles a respeito deste tema?

Luana: Acredito, sim, que a representatividade seja diferente hoje em dia. Se hoje os negros aparecem timidamente na literatura, na minha época era ainda mais escasso. Na verdade nem me lembro de nenhum que eu tivesse conhecido na infância. É muito fácil embranquecer a vida de um filho, inclusive na literatura. Acredite, há muitos negros que pensam que são brancos. Isso é sério! Fruto de uma história, vida, mídia…

Todo o tipo de recurso de embranquecimento, mesmo que em alguns segmentos isso não seja proposital. Com meus filhos, busco que eles saibam e tenham orgulho da nossa história, que se identifiquem como negros e vejam o quanto são lindos! Sempre que encontro, mantenho-os em contato com literatura que esteja relacionada à personagem, herói, história, pessoa… Negro!

Dicas Leiturinha:

Por fim, pensando na importância da consciência negra e na representatividade na literatura infantil, a Equipe de Curadoria da Leiturinha indicou algumas obras e coleções incríveis, que valorizam a consciência negra, a história e a cultura afro. E todas elas estão disponíveis na Loja Leiturinha!

Coleção Ler e Aprender – Cultura Afro-brasileira

A Coleção “Ler e Aprender” é uma coleção de livros com temas relevantes e conteúdos complementares que irão fazer toda a diferença no aprendizado das crianças. Tendo a cultura afro como tema transversal, estes 4 livros sobre a cultura afro-brasileira estão repletos de conceitos e atividades sobre arte, literatura, história, culinária, matemática, raciocínio lógico e muito mais.

Uma ótima opção para educadores ampliarem suas opções de atividades ligados a este tema, e para família que acreditam que o conhecimento é a melhor forma de romper barreiras e ir além.

 

Princesas Negras

Elas estão nas escolas, nas universidades e em diversos postos de trabalho. As princesas negras são inteligentes, lutadoras, espertas e aprendem muito com suas mães e avós.  São especiais, com seus cabelos crespos e sua ancestralidade. Descubra mais sobre as princesas negras no livro de Edileuza Penha de Souza e Ariane Celestino Meireles. Quem sabe você não convive com uma, ou é uma delas?

Livros como o Princesas Negras são tão importantes e necessários, tanto para que crianças negras se reconheçam nas narrativas, como para construir uma educação não racista para crianças não negras. Afinal, toda criança é uma rainha, ou um rei!

 

O Pequeno Príncipe Preto

Em um minúsculo planeta, vive o Pequeno Príncipe Preto. Além dele, existe apenas uma árvore Baobá, sua única companheira. Quando chegam as ventanias, o menino viaja por diferentes planetas, espalhando o amor e a empatia. O texto é originalmente uma peça infantil que já rodou o país inteiro.

Agora, Rodrigo França traz essa delicada história no formato de conto, presenteando o jovem leitor com uma narrativa que fala da importância de valorizarmos quem somos e de onde viemos – além de nos mostrar a força de termos laços de carinho e afeto. Afinal, como diz o Pequeno Príncipe Preto, juntos e juntas todos ganhamos.

 

Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis

Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas.

Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires.

 

Quer saber ainda mais? A Leiturinha também preparou uma playlist especial sobre a Consciência Negra! Com importantes nomes da música nacional e internacional, cantando sobre diversidade, representatividade e importância da cultura negra, em ritmos leves e envolventes, a Playlist Consciência Negra é ideal para ouvir juntinho do seu pequeno!

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Escrito por Sarah Helena
Mãe da Cecília, formada em Psicologia, especialista em Filosofia e Mestranda em Educação Profissional e Tecnológica. Sempre trabalhou com famílias, especialmente com os pequenos. Por esse amor ao universo afetivo infantil, hoje, na Leiturinha, ela colabora fortalecendo o vínculo das famílias leitoras através da experiência da literatura.
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4 Comentários

  1. Avatar

    Eu gosto muito do livro: Menina Bonita do Laço de Fita que trabalha de maneira poética e gostosa que Ana Maria Machado trata a questão racial.
    Tenho um filho adotivo e negro que é a minha paixão, hoje ele tem quatro anos vocês teriam outras sugestões para trabalhar com o tema nessa idade?
    Atenciosamente.
    Cristina Gratão

    Responder
    • Sarah Helena

      Olá, Cristina! Tudo bem?

      Ótima lembrança do livro Menina Bonita do Laço de Fita! Um clássico!
      Para seu pequeno, tem um livro muito bacana e bem humorado, que se chama Chico Juba, de Gustavo Gaivota e Rubem Filho, Mazza Edições.

      Chico tinha tanto cabelo que deixava gente caindo de inveja dele. Mas durante uma época, Chico não gostava muito da sua juba e decidiu fazer alguns experimentos com ela. Em cada experimento, o resultado era diferente. Até que um dia Chico fez uma ótima escolha: se aceitar e ser feliz como ele é. 🙂

      Tem também um lindo livro que se chama O Mundo Black Power de Tayó, de Kiusam de Oliveira e Taisa Borges, Peirópolis.

      As belezas da menina Tayó são muitas! Mas uma delas é especial e cheia de histórias… Seu cabelos Black Power! Por fim, “Tayó é o que todas as outras meninas como ela são: princesas que vivem a carregar sobre seus penteados. suas coroas reais, mesmo que não as vejam quando estão acordadas”.

      Obrigada pelo seu comentário!

      Um grande abraço!

      Responder
  2. Avatar

    Como faço para adquirir os livros por títulos?

    Responder
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