Coluninha | Por Luciana Mendina.

Em 2008, aos sete anos de idade, depois de ter se formado no pré-escolar e ter entrado na primeira série (e ainda em tratamento com o Dr. Alfredo Jerusalinsky e a Dra. Eda Tavares), Bernardo teve de vencer outro desafio, algo completamente inesperado e que me causou muita aflição.

Uma das igrejas mais bonitas de Porto Alegre, em estilo gótico, a Igreja Santa Terezinha ficava a apenas três quadras da minha casa. Depois de ter ido várias vezes às missas de domingo nessa igreja, sempre fazendo mil perguntas sobre os santos que decoravam o altar e o teto, Bernardo ficou assustado com uma imagem em particular. Engraçado ter reparado na imagem só naquele dia: era uma imagem enorme, em tamanho real, de Jesus crucificado. Quando ele olhou para a imagem, ficou apavorado.

Ela o assustou tanto que ele só falava nisso; queria saber a razão de Jesus ter sido pregado naquela cruz, a razão dos pregos, por que havia tanto sangue, o que Jesus tinha feito para ter sido morto, etc, etc. Eu disse que a crucificação tinha ocorrido há muito tempo, há séculos, mas ele não parecia satisfeito com as minhas respostas.

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Ao sairmos da igreja, fomos à Confeitaria Maomé, ao lado da igreja, para tomarmos um café; Bernardo, no entanto, estava transtornado. Ele abordava as pessoas sentadas nas outras mesas da cafeteria, completos estranhos, e lhes perguntava:

– Você viu o que eles fizeram com Jesus? E continuava repetindo:

– Você viu o que eles fizeram com Jesus?

Era para ser cômico, mas só foi trágico. Ele estava se referindo à imagem da igreja e ninguém entendia o que ele estava perguntando; não compreendiam sua pergunta. Ele não parava de repetir que as pessoas pregaram Jesus e o mataram. “Como puderam fazer aquilo?”, ele indagava.

Fiquei preocupada com a sua reação, principalmente por que eu tentava acalmá-lo, mudava de assunto, tirava o foco daquela conversa, mas não adiantava. Ele retornava ao assunto. E o que era mais preocupante: falava de um fato do passado distante como se tivesse acabado de acontecer.

Liguei para o Dr. Alfredo para que ele pudesse me orientar sobre o que fazer nessa situação, o que dizer para o Bernardo, como lidar com essa novidade. Mas o que ouvi do Dr. Alfredo me assustou ainda mais. Ele disse que esse episódio mostrava que Bernardo podia entrar na psicose, que era preciso tomar muito cuidado.

Mas era só o que faltava! Bernardo se curava do autismo e se tornava um psicótico, o que era ainda pior! Apesar do susto inicial, os dias foram passando e ele deixou de tocar no assunto.

Foi quando em um domingo de julho, alguns meses depois, presenciei progresso no tratamento do Bernardo. Minha prima do RJ tinha vindo nos visitar e decidimos ir ao parque. Quando ela avistou a igreja Santa Terezinha (aquela que causava horror ao Bernardo), disse que gostaria de conhecê-la. Eu disse que iriamos lá na volta e foi o que fizemos. Eu lembrava do pânico que o Bernardo sentia pela igreja, mas era só ficarmos nós dois do lado de fora que nada aconteceria.

Como era de se esperar, Bernardo reagiu muito mal. Gritava que não entraria na igreja de jeito nenhum e eu o acalmei, avisando que ficaria do lado de fora com ele, mas que Maria Júlia e Patrícia entrariam. Não falei mais nada. Sentei em um banco que ficava no pátio da igreja e esperei o retorno das duas.

Bernardo, então, começou a se aproximar lentamente. Ele foi chegando, chegando, observando o interior da igreja de canto de olho, e parou ao meu lado. Olhou para a estátua que tanto lhe causava medo, olhou para as outras estátuas, quadros e pinturas e disse:

– É só uma estátua, mãe, como as outras. Eu não tenho mais medo. Eu sei que é só uma estátua. Eu acho até que vou entrar na igreja. Não tenho mais medo”.

A minha felicidade foi imensa, parecia um sonho ver meu filho diferenciando a fantasia da realidade, a imaginação do simbólico. Fiquei radiante, mas procurei não demonstrar minha euforia. Não queria quebrar a magia daquele momento. Não queria que transparecesse o alívio que eu sentia. A partir daquele momento, tomei outra decisão: iria disfarçar um pouco a minha emoção. Seria uma estratégia para que ele não se valesse das minhas emoções para me controlar ou me chantagear.

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Mas as boas surpresas não pararam por aí. Voltamos para casa e, sem brigas ou estresse, ele tomou banho sozinho, comeu a comida que estava no prato e, na hora que pedi, sem reclamar, aceitou dormir no seu quarto, em vez de dormir comigo.

As conversas que tivemos, quando eu lhe dizia que ele já era um menino com quase oito anos, grande e inteligente, foram bem-sucedidas e o ajudaram a entender que ele precisava ter seu espaço e não ocupar o meu.

Quase um ano depois, ele falou novamente sobre a estátua de Jesus:

– Mãe, sabe aquela estátua do Jesus que eu vi na igreja?

Pensei: vai começar tudo de novo. Mas não! Ele acrescentou:

– Pois é, mãe, eu não tenho mais medo dela. Eu sei que aquilo aconteceu há muito tempo!

Foi um alívio tão grande! Mais uma etapa vencida, mais um obstáculo superado.


Luciana Mendina é jornalista e autora do livro “O autismo tem cura?”, publicado pela Editora Langage.

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Jornalista

Autora do livro “O autismo tem cura?", publicado pela Editora Langage.