A História de Bernardo (parte 9) – As primeiras conquistas: o desenho e a fala

por | abr 27, 2016 | 1 Comentário

Coluninha | Por Luciana Mendina.

Bernardo desenhou pela primeira vez quando tinha quase seis anos, mas ainda não falava. Além da questão da linguagem, até aquele momento, ele se recusava obstinadamente a desenhar. Não desenhava sob hipótese alguma. Os lápis e as canetas, para ele, tinham outra função: ele os pegava e girava. Acredita que na recusa em desenhar estava inserida também a recusa em se sujar.

Bem próximo dos seis anos, ele passou a pedir para eu desenhar para ele: se aproximava com um lápis ou com uma caneta hidrocor, entregava para mim, juntamente com o papel, e pedia para eu desenhar um jacaré ou um dinossauro. Apenas balbuciava “jacaré” e “dinossauro”; não formava frases completas. Eram apenas algumas palavras soltas.

Eu tentava convencê-lo a desenhar: pedia, pacientemente, para ele desenhar comigo. Tudo inútil. Ele nem sequer me respondia. Apenas continuava segurando a minha mão, imitando o gesto de quem desenha (fazendo-me de seu instrumento, o que os autistas fazem frequentemente com as pessoas mais próximas), forçando-me a desenhar.

Leia também A História de Bernardo (parte 8) – Mitos sobre o autismo.

De repente, como que por estalo, quando tinha seis anos, ele começou a desenhar. E não desenhou esporadicamente, como era de se esperar. O desenho se tornou uma verdadeira paixão e, aos 12 anos de idade, ele já tinha produzido mais de 10 histórias em quadrinhos. Duas delas foram encadernadas a seu pedido.

A etapa seguinte foi a aquisição da linguagem, tão aguardada por nós. O progresso que Bernardo apresentou nesses poucos meses, com os desenhos e as conversas, nos impressionou. Ele avançou nesse curto período de tempo o que não tinha avançado em quatro anos de tratamento. A impressão que dava era a de que essas conquistas estivessem escondidas em um canto do seu cérebro, esperando a hora propícia para se revelarem.

Se afirmo que meu filho não falava até os seis anos é porque não podemos considerar como aquisição da linguagem frases curtas soltas ou meros balbucios sem progressos na conversação. Aos dois anos, de forma rudimentar ainda, ele se comunicava com seus psicanalistas, mais aptos a compreender seus balbucios e outros sons que, emitidos dentro de um contexto específico, tornavam-se palavras. Mas as orações e as frases mais elaboradas só foram ditas depois dos seis anos.

Depois que desandou a falar, Bernardo não parou mais. Não precisou de acompanhamento fonoaudiólogo ou de qualquer outro especialista em fala. Muito pelo contrário. Ele pronunciava as palavras corretamente, usando apropriadamente os pronomes, o que é raro de se ver em um menino tão pequeno. Lembro-me como se fosse hoje de uma noite em que fomos jantar no apartamento de um casal de amigos.

Eles moravam na Rua Anita Garibaldi, atrás do Shopping Iguatemi, em Porto Alegre. Ela era minha amiga desde a faculdade de Jornalismo e foi bom reencontrá-la e fazermos um programa todos juntos. O churrasco seria na cobertura do apartamento, onde havia um espaçoso terraço sem obstáculos para as crianças, que podiam correr, brincar, inventar peraltices à vontade.

Era uma noite muito agradável, temperatura amena (o que é bom sinal quando se trata de Porto Alegre e a lua cheia chamava a atenção. As crianças corriam no terraço, inventavam brincadeiras, quando Bernardo avistou a lua e ficou impressionado:

– Nooooooossa! Nooooooossa! Nooooooooossa!

E ficou assim, repetindo, com uma entonação bem engraçada, essa palavra. Olhava fixo para a lua e repetia:

– Nooooooossa!

Maria Júlia, sua irmã, e eu rimos muito. Espontaneidade total! Mais uma vitória! E assim, com descontração e autenticidade, a linguagem passou a fazer parte de sua vida, transformando aquele menino arredio, isolado e calado em uma criança questionadora, feliz e integrada. Uma criança que saiu de seu mundo de isolamento e passou a fazer parte do mundo de todos!

A história de Bernardo continua em Mais um obstáculo a ser vencido!


Luciana Mendina é jornalista e autora do livro “O autismo tem cura?”, publicado pela Editora Langage.

Escrito por Luciana Mendina
Jornalista e autora do livro “O autismo tem cura?", publicado pela Editora Langage. *Autora convidada e seus textos não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Leiturinha.
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1 Comentário

  1. Avatar

    olá luciana, parabéns pelo trabalho e divulgação das conquistas do bernardo, a ele toda sorte de graça e benção! luciana voçe poderia dizer se bernado utilizou medicações para reduzir a ansiedade??

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