“Ninguém vai querer ficar com você porque você é mãe.” A frase insinuada pelos parentes e amigos. Aquela certeza que sussurra baixinho dentro de si. O medo que faz insistir em uma relação acabada. Por que ainda é um tabu namorar depois dos filhos?

O medo de ficar só

O ato de tornar-se mãe é ferida porque deixa uma cicatriz. Nem sempre no corpo, mas fica a marca. Uma cicatriz fina que simboliza o fim de uma mulher: agora é a mãe. Te entregam um pacote do que deve-se tornar e a mãe agora é o ser evoluído. Sabe cozinhar, limpar, adivinhar se vai chover. Vira a chata e a cansada. E é nesse pedestal que a mãe é inatingível, que “mãe é tudo igual”.

“Ninguém vai querer ficar com você porque você é mãe” 

Quando essa frase me foi dita, eu vi meu receio tomar forma. Esse é o medo que a gente se segura para não ter que lidar, e que muitas vezes, amarra mulheres a relacionamentos violentos, já que ninguém quer uma mãe. Um pai, tudo bem, aliás, é até fofo. O pai não deixa de ser homem. A mãe é mãe e pronto. Quando muito, ainda existe uma frase que também é interessante de ser analisada, e que parece irmã da primeira: você não tem cara de mãe.

Isso porque transpassa o que foi dito no início. A mãe tem uma cara específica. Como se tornar-se mãe fosse perder toda a singularidade e transformar-se em um ser indistinto de outros. Não é cara de mulher, não é desejável. É cansada e sagrada. Mas no sentido de não poder tocar, olhar. É um ser que não deseja nada além da própria cria e de constituir uma família. 

A mãe não namora

Esse é um ponto forte do “porque ninguém quer uma mãe”. Se mãe é tudo igual e mães são as responsáveis por sustentar o vínculo familiar, então é claro que essas “mães solteiras” só podem estar em busca de uma figura para manter o equilíbrio. Para preencher o posto faltante. 

E quando decide namorar, entre as incontáveis dicas que ajudam essas mulheres a voltarem a se relacionar, a mais recorrente talvez seria “não dizer de início que você é mãe”. 

É óbvio que não é algo que eu sinto a necessidade de contar logo na primeira apresentação, como “oi, sou mãe, meu nome é fulana, tudo bem?”, isso por vários motivos. Primeiro, minha cria não irá comigo ao encontro. Eu vou ao encontro. 

Segundo, ser mãe é apenas uma das diversas coisas que eu sou. Quando eu saio com outra pessoa, é claro que essa característica me influencia em certo ponto, mas sobretudo, eu sou mulher. Eu jamais ouviria a frase “ninguém vai ficar com você porque você estuda Psicologia”, ou “porque você é atriz”, apesar de serem características minhas que também dizem muito sobre mim. O ponto aqui é que essas características são apresentadas com o tempo e apenas me singularizam mais enquanto pessoa, já ser mãe, se torna um fator de exclusão. 

Mães solteiras buscam namorados e não pais para seus filhos

Eu realmente não espero que alguém vá ficar comigo por ser mãe, afinal, eu sou mãe apenas da minha filha e ponto. Não tenho a pretensão nenhuma de assumir papel de mãe na vida de adulto já criado, ou de colocar outro homem para substituir o lugar do pai. Esse posto já é preenchido e ainda que exista casos onde o posto não seja atuante, ele já é ocupado pela falta. 

Mulheres mães não precisam de dicas para voltarem a se relacionar. Não há fórmula. Se uma pessoa se afasta por não conseguir enxergar uma mulher incrível junto à figura da mãe, por não se interessar em descobrir as incontáveis outras características e particularidades dessa mulher, azar.

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Sou Victória Silveira, escrevo como convidada para o Blog da Leiturinha e, no amanhecer dos meus 19 anos, acabei por me reconhecer como escritora, amante das Artes e mãe da Helena.