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O que os blogs de paternidade e os comerciais de margarina têm em comum

por | maio 19, 2018 | 5 Comentários

Escrever um blog sobre paternidade faz parecer que você é um pai extraordinário e que a relação com seus filhos é impecável. Faz parecer que você nunca erra, apesar de se esforçar. E mais, que tem sempre a solução para todas as dificuldades de criar filhos.

Você não é desse tempo, mas há muitas décadas atrás, falava-se muito dos comerciais de margarina. O roteiro era sempre o mesmo: uma linda família branca (não havia negros na publicidade) feliz, exultante já no café da manhã. Filhos em completa harmonia, cabelos suavemente descabelados, a mãe pronta para um dia de atividades junto aos filhos e o pai, jovem e de sorriso estampado no rosto pronto para sair para o trabalho. Só de escrever esse parágrafo já me deu um nó no estômago. Esse era o cenário ideal da família brasileira através das décadas de 1980 e 1990. Eram as “famílias de comercial de margarina”, era a “vida de comercial de margarina”.

Hoje, todos evoluímos, inclusive a propaganda, e entenderam que ninguém se identificava com a farsa daqueles comerciais. Além disso, se descobriu que a margarina é um verdadeiro veneno.

Pois bem, e o que tem a ver o comercial de margarina com um blog sobre paternidade?

Tudo.

Um blog, mesmo quando dá a real sobre maternidade/paternidade, parece um mundo de comercial de margarina, de soluções super simples e viáveis. Quantas vezes, ao ler inspirados blogueiros, ficamos com a sensação de “por que eu não pensei nisso antes?”?

É aí que entra a minha experiência e a minha versão do “por que eu não pensei nisso antes?”.

Meu caçula, dizem, é muito parecido comigo. Tanto fisicamente quanto em temperamento. Dizem que veio muito temperado – para o bem e para o mal, o que, aliás, acho ótimo! Talvez por isso mesmo, Freud explica, tenhamos alguns atritos que não tinha com o mais velho, que herdou a serenidade da mãe.

Como o amor é o mesmo e é imenso, embarquei numa viagem longa para criar formas alternativas de estreitar nossa relação evitando esses atritos. Quem nunca, não é?

A lista de tentativas foi grande: de brincar de massinha só nós dois, a jogar cartinhas Pokémon, passear de bicicleta, assistir a filmes na Netflix, entre outros. Mas era só eu ganhar no jogo ou querer mudar de desenho que a crise chegava. Tentei racionalmente também, mas o diálogo estava difícil. A baixa tolerância do caçula à frustração estava latente e não tínhamos como negar. Em termos “técnicos”, como diz nossa querida pediatra, ele estava ficando “como o filho dos outros”, ou seja, não estava alcançando nossas expectativas.

Foi então, e agora sim você vai entender que valeu a pena ler até aqui, que uma atividade conseguiu acalmar as ansiedades do meninote e de lambuja transformou nossos momentos num verdadeiro comercial de margarina: com direito a um pai bonitão, paz e harmonia reinando.

Foi nos aconchegando bem pertinho (porque a grande verdade é que só rola quando estamos grudadinhos) e passando a ler para ele seus livros favoritos que fui revertendo esses atritos a nosso favor.

Ler para o outro gera uma rede de amor com teias permanentes. É muito louco, a gente se enreda e essa rede é a mesma que os liberta para uma infância mais criativa, mais segura, mais serena.

No fim, meu povo, tudo o que os filhos querem, tudo, tudinho mesmo, são seus pais por perto. E ler para seu filho, bem pertinho, é a única atividade que vai juntar vocês tanto, mas tanto, que quando você se der conta, não saberá mais definir quem está mais completo, você ou ele.

Foi num dia desses, enquanto folheávamos páginas e mais páginas de um livro infantil, que olhei para os lados e vi aquela cena de pura ternura, um Stefano entregue à história e aconchegado no meu colo. Na hora me perguntei: por que não pensei nisso antes?

Comerciais de margarina e blogs são o que são. O que nos salva são as ideias que tiramos deles.

Leia mais:

Escrito por Alberto Bigatti
Pai Mala, conhecido também por Alberto Bigatti, pai, publicitário, designer gráfico e apaixonado por meus filhos. Blogueiro para espalhar a boa nova: ser pai é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Permita-se ser pai, você também. *Autor convidado e seus textos não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Leiturinha.
Livros selecionados por faixa etária, todo mês na sua casa. Saiba Mais.
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5 Comentários

  1. Jamile Romeu

    Que legal! Amei o texto! Desde que assinamos a leiturinha, o @papainocontrole e eu também tivemos experiências maravilhosas com a Tarsila! Todos os dias ela da tchau pro pai e fala: “não esquece minha leiturinha”! A noite o dia termina com eles na rede, balançando e lendo! São momentos que marcam mesmo! Tipo comercial de margarina! 😂😂😂😂

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  2. Lidia Maria Niza Tragante

    Sou vovó e fiz assinatura para meus dois netos, filhos de meus filhos, portanto sou mãe de papais, e por isso sinto-me em condições de dar meu depoimento e relatar a minha tristeza. Tenho visto muito alarde sobre a maternidade e muito descaso sobre a paternidade….assim como quando nasce um bebê nasce uma mamãe…também nasce um papai…um papai aprendiz pois até a geração passada raríssimos papais interagiam com as mamães na tarefa de “cuidar dos pimpolhos” e quando digo CUIDAR é no mais extenso e completo significado da palavra. As mulheres como gostam de dizer se EMPODERARAM, e simplesmente esqueceram do significado puro e de amor da MATERNIDADE, os filhos não são mais prioridade. Não quero julgar pois cada caso é um caso, mas o que vejo é o esfacelamento irracional da família que querendo ou não irão colher juntos, as mamães, os papais e os filhos, todo o resultado dessa tragédia. Os homens papais estão aprendendo a serem pro ativos, enquanto as mulheres mamães nasceram prontas. Eles não sabem da missa a metade, e terão que ter muito mais empenho nesse aprendizado de simplesmente serem papais, e as mulheres DEVERIAM ter um pouco mais de paciência, tolerância e respeito por esse empenho. O que a geração atual de mamães tem em termos de cooperação paterna, empresarial e da sociedade toda, não tem parâmetro, comparação com nada vivido num passado bem próximo. A mim vovó de carteirinha, só me resta rezar e rezar pois não adianta mamães e papais realizados financeiramente mas com a família desagregada. A perda é muito maior. Obrigada pela oportunidade de opinar sobre um assunto esquecido por muitos, quando as mulheres reclamarem da falta de respeito para com elas, chame-as para repensar e refletir sobre o mesmo tema… a falta de respeito para com os homens. Lidia

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  3. Rafael

    A gente que escreve sobre paternidade tem uma missão bastante difícil de trazer os pais para refletirem sobre sua masculinidade e responsabilidade na criação sem afastá-los de cara ou romantizar esse grande desafio. Você faz isso muito bem, Beto! E parabéns por incentivar a leitura entre pais e filhos, isso é mega importante <3

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  4. CAMILA DUARTE LAGE SANTOS

    Hoje em dia está havendo uma mudança de postura dos homens durante todo o processo da gestação,parto e nascimento do bebê.No entanto ainda acontece de que alguns homens ainda estejam acostumados com uma situação patriarcal e machista, tenham certa resistência a esse engajamento no que tange à esse “novo sistema” de descobertas e incertezas. Ainda é muito comum ver as atividades diárias dos filhos dividida de forma diferente entre o pai e a mãe, sendo assim o distanciamento dos homens no que se refere à paternidade ainda é algo presente.Mas felizmente há uma grande maioria de homens pais que que se engajam tão fielmente a essa nova missão que apresentam muito interesse, com dúvidas e questionamento assim como as mães.Assim mesmo o protagonismo das mulheres sendo ainda muito maior em vários aspectos é importantíssimo que o homem reconheça seu lugar na paternidade, esteja próximo do filho em toda sua vida ajudando em sua educação, em muitas casais ja está até havendo a troca de “papeis” o pai ficando em casa e a mãe saindo para trabalhar, acho que se for bom para o casal e para o filho todas as novas posturas devem ser adotadas.

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  5. Anny g.

    Muitos homens de diferentes idades demonstram desejo de participar ou efetivamente participam em todos os momentos da gravidez, desde a decisão compartilhada de ter um filho, passando por todas as fases da gestação, até o desenvolvimento da criança. Especificamente relacionado à população masculina, percebemos que a vivência de um número significativo é marcada por uma constante vigilância e questionamento sobre o que de fato representa ser um “homem de verdade” e como este deveria se comportar para tal. Nesse cenário, a necessidade de negação de qualquer aspecto que possa ser interpretado como ‘feminino’ é algo estritamente ligado às experiências masculinas, o que os afasta, por exemplo, do afeto e cuidado com os seus filhos e também do cuidado com a própria saúde.

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