Normalmente associamos crianças à vitalidade e à felicidade. Então, é muito difícil conceber que crianças possam sofrer de depressão infantil. A depressão é o mal do século e hoje é não é difícil  encontrar alguém que sofra de ansiedade, taquicardia, ou estados depressivos, e isso tem uma relação direta com o estilo de vida que levamos, não é à toa, que esse mesmo ritmo e pressão também afetem os pequenos.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que 300 milhões de pessoas de diferentes idades no mundo sofrem de depressão. Sendo que 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, tornando o suicídio a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. Com números alarmantes como este, é preciso falar sobre depressão.

Existe uma banalidade na forma de tratar o termo depressão, atribuído, muitas vezes, erroneamente a qualquer estado de tristeza, desânimo, mágoa ou até preguiça. O que dificulta o tratamento e reconhecimento da doença. Existe também ainda um certo preconceito e dificuldade de conceber que a depressão é uma patologia, que requer tratamento, cuidados e acompanhamento específico.

Em entrevista, A Dra. Gabriela Rached El Helou Siloto, Psiquiatra infantil, CRM 132260, nos respondeu algumas dúvidas para orientar os pais e educadores quanto às características da depressão infantil.

O que caracteriza depressão infantil?

Dra. Gabriela Siloto: As manifestações da depressão na infância e adolescência podem ser diferentes de acordo com com a idade. Nas crianças, é mais comum a irritabilidade (episódios de birra e desobediência, por exemplo), e queixas relacionadas ao corpo (como dores de barriga, dores de cabeça, “mal-estar”). Na adolescência também são comuns a irritabilidade e queixas relacionadas ao corpo, mas com frequência também se observa aumento do apetite e ganho de peso, mudança no padrão de sono (para mais ou para menos), menor tolerância à frustração e maior sensibilidade à rejeição. Outros sintomas que podem existir são a queda no rendimento escolar, retraimento social, diminuição do apetite, desânimo, variação do humor durante o dia e agitação ou lentificação psicomotora. Importante ressaltar que, mesmo estando separados por faixa etária, todos os sintomas podem acometer qualquer idade. Além disso, é muito comum a associação de transtornos depressivos  a transtornos de ansiedade, transtornos de déficit de atenção e hiperatividade e outros problemas comportamentais na infância e adolescência.

Como podemos diferenciar depressão de outros transtornos como hiperatividade?

 Dra. Gabriela Siloto: Pesquisas sugerem que a existência de outros transtornos psiquiátricos concomitantes à depressão são frequentes em crianças e adolescentes. Assim, mais do que diferenciar a depressão de outros transtornos, é fundamental investigar clinicamente para avaliar a existência de outros transtornos associados. Só assim o tratamento proposto será adequado.

Qual é o tratamento para a depressão infantil?

Dra. Gabriela Siloto: O tratamento busca a remissão completa dos sintomas, e a opção se dá de acordo com a gravidade do quadro de cada paciente. É indicada psicoterapia, psicoeducação dos pais ou responsáveis acerca do quadro e seu tratamento, e medicação antidepressiva.

Quando o pai ou responsável deve procurar ajuda profissional?

Dra. Gabriela Siloto:  Ao observar alterações de comportamento nos filhos que se mantenham por duas semanas ou mais (mesmo que não sejam constantes durante este período), já está indicada a busca por ajuda médica. Só assim poderá ser feito o diagnóstico correto e proposto o tratamento adequado. Quanto antes as intervenções forem iniciadas, melhores as chances de recuperação.

Não é tarefa fácil identificar possíveis sinais de depressão, então, na suspeita, é bacana consultar os diversos pontos de contato de seu filho para compartilhar situações, e ver se o mesmo comportamento se repete em locais e contextos diferentes. Nesse ponto, os educadores podem se tornar fortes aliados no acompanhamento dos pequenos e inclusive serem os primeiros a notar uma alteração de comportamento.

O papel da escola e dos educadores neste momento

A Diretora Pedagógica, Ruymara Almeida, dá algumas dicas para pais e educadores:

Como pais e educadores podem ajudar crianças que possuem sinais de depressão infantil?

Ruymara Almeida: É muito importante estar informado sobre tudo o que concerne o desenvolvimento físico, motor, cognitivo, emocional e social das crianças. Bem como é necessário educarmo-nos sobre os sinais de depressão infantil. Acima de tudo é necessário investir tempo de qualidade para conhecer e compreender cada criança. Dessa forma, teremos um bom repertório de situações variadas para que possamos notar mudanças de comportamento ou humor.

Diante de quais comportamentos torna-se importante que educadores contatem os pais e/ou responsáveis para que estes possam procurar ajuda médica ou psicológica para seus filhos?

Ruymara Almeida: Quando se conhece bem as crianças é possível observar mudanças de comportamento como irritabilidade excessiva, desinteresse por atividades que costumavam gostar, dificuldades em manter a atenção, por exemplo. Estar presente com as crianças, sem distrações, e com um olhar atento, é essencial para prevenir e detectar a depressão infantil. Escola e pais devem ter canais de comunicação claros que possibilitem trocas de informações sobre novidades ou mudanças de atitude e comportamento, sejam positivas ou preocupantes. Dessa maneira, estabelece-se um relacionamento de confiança onde as crianças são vistas de forma respeitosa e amorosa e onde suas necessidades podem ser atendidas de forma apropriada.

Pais, profissionais da educação e mentores devem estar alerta à possíveis sinais de depressão infantil. É trabalho de todos o auxílio e apoio aos nossos jovens. Às vezes um olhar mais atento pode fazer a diferença aos nossos pequenos.

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.