Há alguns mitos sobre o autismo que precisam ser desfeitos. Um deles é o da falta de emoção. 

Falta de emoção

Carinhoso, agarradinho, meu filho nunca foi uma criança fria, distante. Às vezes, ficava ausente, mas eu era o seu contato com o mundo. Sua distância era com os outros, não comigo. Bernardo sempre foi um bebê carinhoso e se tornou um menino beijoqueiro e muito afetuoso, mesmo com as limitações que o autismo impunha. Ele não tinha aversão ao colo ou ao toque como alguns autistas; inclusive, foi esse potencial afetivo que ele apresentava que me fez duvidar, no início, sobre o diagnóstico de autismo. Para mim, para ser autista a criança precisava ser emocionalmente “distante”. Comigo e com a irmã, Bernardo sempre foi muito afetuoso. Com os outros, menos.

Agressividade

Outro mito é o da agressividade. Ele podia até se isolar das outras crianças, mas, em compensação, ele nunca as agrediu. Ele nunca bateu, mordeu outra criança, nem mesmo gritou com outras crianças. Pelo contrário, meu medo era de que os outros o machucassem. Por isso, eu ficava muito atenta a todos os seus passos. Quando íamos ao parquinho, era a agressividade das outras crianças que eu temia. Tinha medo de que algo o traumatizasse a ele se fechasse de vez para o mundo.

Retardo ou genialidade

Há também o mito do retardo ou da genialidade. Foi engraçado perceber que, para alguns pais, é mais fácil aceitar o autismo se o filho for diagnosticado com Asperger, já que isso significaria que a criança é superdotada, com inteligência acima da média. Felizmente, nunca considerei meu filho gênio, nem preferia que ele fosse Asperger.

Há uma discrepância enorme de dados quando o assunto é retardo mental. Chegou-se a acreditar que 70% dos autistas tinham algum tipo de retardo, o que é um absurdo. Feitas as devidas correções, hoje sabe-se que o percentual chega, no máximo, a 10% e, mesmo assim, trata-se de um leve retardo. A origem da confusão estava na dificuldade de se separar características “semelhantes” encontradas em crianças que tinham retardo mental e crianças autistas, o que levou muitas crianças que tinham retardo apenas a serem consideradas autistas. Daí a falácia do percentual de 70%.

Em relação aos autistas com algum tipo de genialidade (normalmente diagnosticados com Asperger), esse número também é bem abaixo da crença popular, com percentual em torno de 5% a 6%. A esmagadora maioria é formada por crianças com inteligência dentro da média, que precisam de estímulos diários para desenvolver suas potencialidades.

Balanço

Rodar pratos, balançar-se para frente e para trás continuamente (rocking). Esses são os sintomas mais conhecidos do imaginário popular quando o assunto é autismo. Muitas pessoas associam esses sintomas ao autismo e acreditam que todos os autistas agem exatamente da mesma forma, como o menininho que se balançava sem parar no filme Meu filho, meu mundo, apresentado na Sessão da Tarde pela TV Globo nos anos 80. Outro mito. O mito do balanço!

É verdade que meu filho fazia movimentos circulares com os objetos e rodava em torno de si mesmo, mas ele nunca rodou um prato ou ficou sentado se balançando, embora balançasse outros objetos. Rodava lápis, canetas, talheres. Não se balançava para frente e para trás, mas girava, girava muito.

Aprendi que não existe um jeito autista de ser. Não existe um padrão fixo para todos os autistas. No entanto, a falta de informações confiáveis faz com que os pais neguem o autismo quando não vêem esses estereótipos nos seus filhos. Se ele não roda pratos, não se balança, não é autista, certo? Errado.

Procurem um especialista!

Aconselho os pais a observarem o comportamento dos filhos e a procurarem ajuda especializada, seja de pediatras, psicólogos, psicanalistas ou de psiquiatras, assim que encontrarem sintomas que possam levar ao diagnóstico do autismo. Não é preciso que a criança tenha todos os sintomas do autismo para ser diagnosticada. Basta alguns deles. Bernardo não apresentava alguns dos principais sintomas e, mesmo assim, seu quadro era de autismo leve.

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Profile photo of Luciana Mendina
Jornalista

Autora do livro “O autismo tem cura?", publicado pela Editora Langage.