Com a declaração da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a pandemia do novo coronavírus, a mesma também alertou para o possível aumento de casos de violência doméstica. Isso, porque, a recomendação era para que a população ficasse em casa, cumprindo o isolamento social. 

É bem importante ressaltar que a pandemia não é responsável pela violência doméstica. Porém, essa pode ser uma consequência imediata de mulheres que estão em relacionamentos violentos e convivem por mais tempo com seus parceiros em um cenário de ameaça. 

Muitas famílias enfrentam o problema da violência doméstica em segredo

Isso acontece sem que haja motivação para denúncias ou quaisquer medidas que protejam mulher e filhos de agressões. As mulheres muitas vezes são desacreditadas e em alguns casos as crianças podem ser até afastadas de suas mães. 

A Itália e a Argentina são alguns dos países que também registraram aumento no número de denúncias de abusos domésticos em seus canais oficiais. No Brasil, o número de denúncias aumentou 34% entre março e abril deste ano (2020) em relação a 2019, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ao comparar apenas o mês de abril, o crescimento é de 36% entre os dois anos.

Mas o que é possível fazer quando existe violência doméstica acontecendo? 

A primeira medida importante é oferecer para as mulheres ambientes seguros para que possam contar o que está acontecendo. Se você conhece alguma mulher que esteja passando por situações de violência, você pode realizar uma denúncia anônima. Seja essa mulher sua vizinha, uma amiga ou parte de sua família.

O canal de denúncia oficial, por telefone, é o Ligue 180. Também é possível levar a mulher que está passando por situações de violência em uma Delegacia da Mulher para realizar a denúncia. Os endereços e os horários de funcionamento estão no site da Defensoria Pública do seu estado. 

E as famílias que têm crianças em casa?

Para esses casos, a situação pode ser ainda mais complexa. Crianças que fazem parte de lares onde há cenários de violência doméstica podem passar por situações muitas vezes traumatizantes. Por isso, entrevistamos a psicanalista infantil Monica Pessanha para sanar as principais dúvidas sobre o assunto. Leia a entrevista a seguir.

Regina: Se uma criança presenciar uma cena de violência doméstica, qual é a melhor forma de agir?

Monica: Uma criança pode presenciar a violência doméstica de diversas formas: auditiva, visual ou por inferência. As crianças que testemunham violência doméstica podem sofrer graves dificuldades emocionais e de desenvolvimento que são semelhantes aos de crianças vítimas diretas desse abuso. Por isso é importante que ela seja acolhida. Esse acolhimento dará à criança uma sensação de segurança, que ela perdeu em casa.

É preciso dar ouvidos ao que ela tem para falar e assegurar-lhe que enfrentar dificuldades como essas não a torna menos importante. Outra coisa importante é ensinar para a criança o que ela deve fazer quando a situação de violência ocorrer. Isso dará a ela a sensação de controle e segurança. Ensinar dicas de como ela não deve tentar intervir e também que deve tentar ir para um lugar mais seguro, como a casa de um amigo, é importante. Além disso, também deve deixar claro para a criança que caso alguma de suas estratégias não funcione, não é culpa dela. Também deve-se levar em consideração a idade da criança e a sugestão, por exemplo, uma criança de 10 anos, pode conseguir sair e ir para casa de um amigo vizinho. Porém, uma criança de 4 anos não.

Regina: Quais os traumas que a violência doméstica pode causar em uma criança?

Monica: Acho que devemos começar pontuando o que viria a ser um trauma ou mais especificamente um trauma psíquico. O conceito de trauma psíquico é entendido como decorrente de um acontecimento que abalou de tal forma o indivíduo, que provocou modificações consideráveis no seu modo de funcionamento psíquico. Isso se materializa em seu comportamento. Sendo assim, crianças expostas à violência doméstica podem ter autoestima baixa, altos níveis de ansiedade, medos extremos sobretudo de ficar sozinho em algum local. Esses traumas podem ser carregados para a vida adulta, o que pode contribuir para que ela entre em relacionamentos abusivos, como vítima ou como abusador. 

Regina: Como as crianças costumam reagir quando presenciam algo violento em casa?

Monica: Podemos pensar nos efeitos de curto e longo prazos e em faixas etárias distintas. Cada uma sentirá o peso da violência doméstica de maneira diferente. Em termos de efeitos de curto prazo, as crianças em idade pré-escolar podem começar a fazer coisas que costumavam fazer quando eram menores. Como por exemplo, urinar na cama, chupar o polegar e chorar mais frequentemente. Elas também podem ter dificuldade de dormir ou pegar no sono. Mostrar sinais de terror noturno, gagueira e sinais de ansiedade de separação de maneira bastante severa. 

As crianças em idade escolar acabam tendo sua autoestima prejudicada, pois podem se sentir culpadas pela situação. Além disso, elas podem  não participar de atividades escolares ou obter boas notas, ter menos amigos que outras crianças e ter problemas com mais frequência. Também podem ter muitas queixas de dores de cabeça e estômago.

No longo prazo, essas crianças correm maior risco de repetir o ciclo na idade adulta, entrando em relacionamentos abusivos ou tornando-se abusadores. Elas também correm maior risco de desenvolver problemas de saúde quando adultos, sobretudo no que diz respeito à saúde mental, como depressão e ansiedade.

Regina: Quando existe um cenário de violência doméstica constante em casa, como proceder com a criança?

Monica: Aqui está em jogo a proteção da vítima e, obviamente, da criança. Nesse caso, a segurança de ambos deve ser a prioridade. O que vai acontecer é que muitas vezes, a vítima ainda não está pronta para se livrar desse relacionamento abusivo. Para esses casos, é importante tomar algumas medidas. Tais como:

ter um plano de segurança para a vítima e para a criança (um contato para a vítima poder enviar uma mensagem simples com o sinal de que ela precisa de ajuda, um celular extra (simples), uma cópia extra da chave do carro, etc).

Ouvir, conversar com a criança e informá-la de que abuso não é bom e não é culpa dela é importante. Se a vítima está pensando em deixar um relacionamento abusivo, melhor não falar nada para os filhos ainda, pois as crianças pequenas podem não ser capazes de manter isso sob total sigilo. As crianças podem dizer algo sobre o plano de sair de casa sem perceber. Se não for seguro para um parceiro abusivo saber com antecedência que planeja sair, converse apenas com adultos confiáveis ​​sobre seu plano. Nesse caso, integridade física é mais importante do que anunciar ou explicar para as crianças o que se pretende fazer antes da coisa acontecer.

Regina: Como a criança pode manter uma relação saudável com o pai se ele é o causador da violência doméstica?

Monica: Os estudos sobre violência doméstica mostram que o lado mais vulnerável são as mulheres e as crianças. Talvez de início, a violência pode não ser dirigida à criança, mas ela pode virar alvo. Então, vamos ter que analisar caso a caso e no contexto de cada um. Mas em princípio, se a criança pode vir a ser vítima também da violência, uma relação mais à distância, talvez possa ser o caminho mais aconselhável. Ligações e vídeo chamadas, por exemplo. Mas antes de tudo há perguntas que precisam ser feitas. Como é a relação desse pai com os filhos? Como ele os trata? Há uma ordem de proteção judicial para a mãe e as crianças? Todas as questões vão influenciar no tipo de relação saudável que poderá ser construída entre esse pai agressor e a criança. Lembrando que violência não é só física, mas psicológica também.

Regina: Qual a melhor forma de conduzir com as crianças uma separação ou uma medida de proteção?

Monica: Geralmente, a separação deve ser conduzida de forma que não envolva nenhum elemento litigioso num processo de separação normal. No entanto, em se tratando de casos de violência ou abuso doméstico, não podemos nos esquecer de reforçar algumas ideias: 

1. Converse com a criança sobre os medos dela. 

Deixe-a saber que não é culpa dela ou sua. 

2. Ajude-a a compreender que existem relacionamentos saudáveis e abusivos e o que eles implicam. 

Se uma pessoa te ajuda a se sentir feliz, segura, respeitada e confortável, isso significa que essa pessoa a está envolvendo numa relação saudável. Esses sentimentos podem vir de nossos amigos, professores, pais, etc. Do contrário, se essas pessoas nos deixam com medo, inseguros e desconfortáveis, elas estão se envolvendo em uma relação de abuso. A melhor saída, é nos mantermos distantes.

3. Busque ajuda profissional.

Não hesite em buscar ajuda profissional se você sentir necessidade, até mesmo para te ajudar nesse processo.

Conta para a gente, as dicas foram úteis? Não se esqueça, se estiver sofrendo violência doméstica ou conhecer alguém nessa situação, ligue 180 e denuncie. 

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Profile photo of Regina Fiore Ribeiro

Formada em Jornalismo e especialista em Mídia, Cultura e Comunicação pela ECA/ USP, atua na área de relações públicas há quase 10 anos. Hoje é líder da área de PR da Leiturinha e está a frente do pilar de gênero do Respect, grupo de diversidade da Movile. É também repórter voluntária do Mulheres Jornalistas, coletivo formado por mulheres que faz reportagens e conteúdos pautados nos direitos humanos, diversidade e inclusão.