A ansiedade hoje em dia faz parte dos sentimentos básicos das pessoas como fome e sono. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2019, o Brasil tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo, cerca de 9,3% da população. Se em um mundo livre de pandemia a situação já era preocupante, nos dias de hoje, é esperado que os sintomas se agravem mais ainda. Como lidar com a ansiedade no dia a dia devido a situação que estamos vivenciando?

Como a ansiedade nos aflige?

A ansiedade é o excesso de preocupação com o futuro e com situações que fogem do nosso controle. A pandemia traz a tona toda essa falta de controle, além de ser uma situação completamente nova, principalmente para os brasileiros, ela não tem prazo de duração, obrigando que os brasileiros coloquem em espera vários planos e objetivos para o ano.

Um dos campos de maior preocupação é a escola. Infelizmente, a epidemia evidencia a diferença entre classes. Mais uma vez, percebe-se que enquanto uns lidam com o tédio, outros lidam com ambientes precários e a falta de recurso. Algumas escolas conseguem, de forma remota, cumprir o ano letivo, mas outros alunos não têm os aparatos necessários para que os estudos assumam outros formatos. Isso é ser um grande divisor de água para a educação brasileira, e principalmente, para os alunos do Ensino Médio em 2020.

Conversando com um especialista!

Pensando nesse cenário, conversamos com o filósofo, especialista em educação socioemocional e coordenador pedagógico, Weslay Araújo Maia, sobre ansiedade e estudos nesse ano de 2020.

Nathalia: Pelo olhar da filosofia, qual seria a definição de ansiedade?

Weslay: A ansiedade é considerada hoje como um “mal do século”, junto com a depressão. Pela Filosofia, não temos uma definição específica, tendo em vista que a Psicologia a estuda com maior profundidade. Mas, podemos considerar a ansiedade como uma ausência do tempo presente. Ficamos ansiosos e sofremos por isso, ao nos preocuparmos demais com o futuro: o relatório que precisamos entregar, a tarefa para completar, enfim. Sofremos antecipadamente por algo que ainda não ocorreu. Há um conjunto de características que demonstram que estamos ansiosos.

Como por exemplo: passar as noites em claro, como se o cérebro não desligasse; acordar cansado mesmo que o dia tenha só começado; só enxergar um cenário negativo para o que vivenciamos; pedir desculpas por coisas que não precisam ser desculpadas. Querer consertar o problema de todos; ter constante estado de preocupação, pânico ou medos irracionais; medo de fracassar e a busca incansável por perfeição; procrastinar pelo medo de fracassar; pensar demais e se importar demais, achando que deveríamos ter o controle de tudo. Estes elementos são um alerta de que provavelmente precisamos diminuir o ritmo e/ou buscar ajuda.

Nathalia: Qual a sua visão sobre o momento atual? Qual a maior perda e o maior ganho que esse período de isolamento traz para pais e adolescentes em termos de ansiedade?

Weslay: Em tudo na nossa vida, nós ganhamos e perdemos. Quando fazemos uma escolha, sempre abrimos mão de outra opção. Creio que a perda e o ganho varia de pessoa para pessoa, dependendo daquilo que cada um valoriza. Em termos de ansiedade na família, acredito que as interações movidas por cobranças podem acabar intensificando um clima negativo, que socialmente já estamos sentindo. Os noticiários nos mostram atualizações constantes do caos que esta pandemia nos colocou. Por isso, para amenizar a pressão nas relações, precisaríamos cobrar menos e participar mais.

Ao lidar com as crianças, por exemplo, dispor-se de fazer tarefas de casa junto é mais efetivo do que mandá-la fazer sozinha. Dialogar com a criança, fazendo-a perceber que há uma divisão de tarefas e responsabilidades, pode fazê-la se sentir incluída e parte de uma dinâmica, que está muito além da mera cobrança ou do mando. Em resumo, precisamos definir um momento para cada coisa: tarefas de casa, trabalho, convivência e interação, fazer uma atividade divertida juntos. Isso muito provavelmente minimiza este “peso” negativo deste momento.

Nathalia: Colocando a escola no centro da discussão. Vemos que muitos alunos se mostram ansiosos por não conseguirem cumprir adequadamente as demandas escolares, ou se sentirem sobrecarregados por terem que absorver conteúdos de forma autônoma. Por outro lado, os pais ficam ansiosos por não saberem se os filhos conseguirão absorver todo o conteúdo do ano, podendo ser prejudicados. Qual a sua observação sobre isso? Você teria alguma sugestão para confortar esses pais? 

Weslay: É uma questão complexa. Como alguém que atua na gestão pedagógica, acredito que o ponto principal desta nova dinâmica escolar está no diálogo entre a escola e a família. A escola presta um serviço educacional às famílias e, por isso, precisaria buscar equilibrar os anseios dos estudantes e pais com as suas possibilidades de atuação. Não é viável agir numa via de mão única ou partir de decisões unilaterais. É preciso planejar as ações de ensino remoto e deixar claro para os pais como a instituição está desenvolvendo essas etapas. Se puder sugerir algo, indico que não sejamos perfeccionistas nem com a criança, nem com as videoaulas que estão disponibilizadas.

Podemos ser criteriosos, mas não perfeccionistas. É mais importante ter uma visão global do que se ater a detalhes. Buscar o essencial é o mais importante neste momento. Muitas vezes, o estresse que passamos ao acompanhar a criança nas tarefas escolares se deve ao grau de exigência que estamos impondo sobre ela. Lembremos que estamos numa situação de sensibilidade aflorada e precisamos agir com cautela no trato uns com os outros para não ferirmos ninguém. Diminuir nossa exigência, sem abrir mão de critério, manter o diálogo e visar o essencial.

Nathalia: Como você acha que os professores deveriam conduzir seus ensinamentos esse ano?

Weslay: Esta modalidade possui outras exigências pedagógicas, preparo dos professores, as aulas não podem ser uma mera transposição da sala presencial para um vídeo gravado. A comunicação é diferente em cada contexto. As videoaulas não precisam ter os 50 minutos de antes, porque, presencialmente, o ritmo da aula é mais lento. A interação entre professor e aluno consome um tempo significativo da aula. Portanto, algo que tenho sugerido é que as videoaulas tenham de 15 a 30 minutos de explicação do conteúdo, de modo a indagar e envolver o aluno a refletir sobre o que está sendo dito.

As solicitações das tarefas precisam ser comedidas. Estamos num momento em que lidar com o essencial é o mais importante. Se as aulas forem ao vivo, é importante considerar o momento para breves explicações objetivas e apresentações dos trabalhos das crianças, estabelecendo um momento para cada uma mostrar o que fez. As avaliações devem ser processuais e formativas. O professor precisa solicitar tarefas que, após um conjunto de conteúdo explicado, possa verificar o que a criança consegue fazer.

Nathalia: Qual a sua dica para a saúde mental de adolescentes durante esse período de quarentena?

Weslay: Como todos estamos muito sensíveis e muitos deles se perguntando sobre seu futuro, se haverá ENEM ou não, se sentindo “prejudicados” pela pandemia, minha dica é pensar no que é mais importante agora: a saúde pessoal e dos familiares. Vestibular, cursos e afins, não lhes foram totalmente retirados. Talvez, apenas prorrogados.

Faça lives temáticas com os amigos, combine com alguém de fazerem exercícios físicos, cumprindo metas viáveis. Ficar se lamentando sobre os prejuízos que está sofrendo agora, não mudará a necessidade de manter o isolamento social. Portanto, “dentro dos limites que me foram impostos, o que me é possível fazer?” Essa é uma boa opção para pensar em formas de se ocupar positivamente.

Nathalia: Você teria algum comentário adicional?

Weslay: Só gostaria de agradecer imensamente pelo convite e desejar que todas as famílias, pais, mães, responsáveis, tios, tias, avós e avôs que lerem esta publicação percebam que é possível enfrentarmos essa situação de uma maneira mais construtiva. Tenham em vista que ao nos construir como pessoas, carregamos nossas experiências boas e ruins, nunca apenas uma delas. Priorizar o que é mais importante agora é o que devemos fazer.

Conta para a gente, como seu filho adolescente tem lidado com a situação? 

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.