O vazio da quarentena: O que ele nos diz?

por | mar 20, 2020 | 0 Comentários

Tédio, vazio e… Um encontro consigo mesmo!

Ficar em casa em tempos de quarentena é o grande desafio do momento. Todos estamos empenhados em procurar atividades, leituras, afazeres domésticos, vale tudo para não deixar o tédio bater à porta. Mas, para quem realmente cumpre o isolamento, o tédio é um companheiro inevitável. Em algum momento ele chega, se instala confortavelmente ao seu lado trazendo a inevitável sensação de vazio. O que é esse vazio? O que é tédio?  

Um vazio cheio de possibilidades 

Acontece que essa sensação de vazio não é realmente “o vazio”. Ele é o espaço necessário para cada um se a haver consigo mesmo. O respiro que quase ninguém usa na correria do dia a dia para pensar em si mesmo. Suas angústias, suas questões pessoais e existenciais, além, é claro, de pensar no colapso mundial pelo qual estamos passando. Aquelas perguntas sem nexo e sem função alguma que nunca temos tempo para nos debruçar sobre elas. Pois é. Chegou a hora.

Enquanto escrevo esse texto meu vazio me faz companhia. Ele me cutuca e me lembra que tenho muito a conversar comigo mesma. Que tenho me negligenciado por muito tempo. Que agora, finalmente, o encontro comigo mesma não pode mais ser adiado. Talvez eu escreva para tentar aliviar esse incômodo, talvez eu faça uma sessão de terapia online, talvez eu vá ler um livro para encontrar eco, outras vozes sobre mim. O caminho é individual, mas a demanda é de todos.

O Tempo da Imaginação

Adultos trabalhando. Vejo o tédio fazendo farra ao meu lado quando vejo minha filha esparramando todos seus lápis de cor pelo chão. Logo penso: que bagunça! Mas resolvo observar e esperar. Logo, ela se deita de barriga no chão e mergulha em seu universo fantástico, em uma caça aos lápis, em que ela é a cozinheira que irá prepará-los em seu fogão especial. Ela carrega uma panelinha de brinquedo e uma lata vazia. Ela está, neste momento atendendo a um “chamado” interno, só dela. 

Estimular e dar opções de atividades aos pequenos é fundamental, mas também o é o tempo livre e o livre brincar! 

O Tédio e os Adolescentes

Adolescentes que se trancam em seus quartos e não querem sair pra nada andam querendo sair desesperadamente de casa. O fato de serem obrigados a fazer algo que faziam para contrariar as expectativas dos adultos pode ser um penoso desafio. A internet e as redes sociais salvam, mas nem só de telas vivem os adolescentes. 

Nessa hora, uma boa pedida pode ser a escrita. Assim, o tédio e os muitos conflitos internos, próprios dessa fase, podem ter vez e voz. Isso pode acalentar os dias e despertar a criatividade. Outra pedida é se fazer presente e atento quando o adolescente estiver pronto para falar. Ou então, demonstrar interesse em compartilhar suas questões. Ouvir sem pensar em conselhos é difícil, mas um bom exercício para conhecer e demonstrar respeito e interesse pelo que o adolescente pensa.

Olhando para o que realmente importa

Imaginar, pensar sobre nós mesmos e dar asas à nossa fantasia não é frescura ou perda de tempo. É uma necessidade humana. Fazemos isso no dia a dia quando paramos para escutar aquela boa fofoca ou quando sonhamos ou planejamos nosso futuro. Mas, de forma mais profunda e transformadora, podemos olhar para dentro e descobrir coisas sobre nós mesmos totalmente novas.

O que tenho vontade de fazer que nunca faço? Do que eu realmente gosto? Que temas mais me interessam? Quais atividades realmente fazem sentido na minha rotina? Como anda minha relação com as pessoas que me cercam? Tenho passado tempo comigo mesmo? Consigo ficar sozinho numa boa? Como anda o tempo com os filhos? Do que será que meu filho mais gosta nesse momento? 

Faça perguntas como essas. Dessa forma, teremos momentos introspectivos e ouviremos aquela voz que sempre teimamos em calar, já que na correria nunca sobra muito tempo para elas.

Leia mais:

Escrito por Sarah Helena
Mãe da Cecília, formada em Psicologia, especialista em Filosofia e Mestranda em Educação Profissional e Tecnológica. Sempre trabalhou com famílias, especialmente com os pequenos. Por esse amor ao universo afetivo infantil, hoje, na Leiturinha, ela colabora fortalecendo o vínculo das famílias leitoras através da experiência da literatura.
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