Sem narrativas (…), o mundo permaneceria lá como está,  indiferenciado; ele não nos seria de nenhuma ajuda para habitar os lugares em que vivemos e construir nossa morada interior

– Michèle Petit

Por que não contar histórias?

A pergunta original deste texto deveria ser:Por que não contar histórias?”. As respostas seriam muitas, pois muitos são os motivos que nos fazem, no dia a dia, deixar de contar histórias ou dar importância a esses momentos. 

Contar histórias tem sido relegado a segundo plano em nossas vidas. A questão é que, tão fundamental como se alimentar ou fazer exercícios, contar e ouvir histórias é uma atividade essencial para nos tornarmos humanos. Essa atividade é a porta de entrada para a linguagem, no início da vida. Depois disso, continua sendo porta de entrada para a vida em família e em sociedade. Ler e ouvir histórias nos situa no tempo e no espaço. 

Não sobra tempo para contar histórias?

Essa atividade tem perdido seu espaço na rotina. Embora seja um elemento essencial de nossas vidas e presente em quase todos os momentos. Como, por exemplo, ao contarmos uma novidade a alguém ou ao apresentar nossa cidade e nossa família a alguém diferente. Seja pela correria imposta pelo trabalho, pelo cansaço no fim do dia, pela falta de condições materiais básicas, deixamos pouco a pouco de valorizar esse momento e toda sua magia.

Procurar por um motivo para ler ou uma justificativa científica que comprove seus benefícios, pode ajudar a priorizarmos essa atividade com os pequenos. Mas, antes, contar histórias deve ser fonte de prazer para que todos seus benefícios se concretizem. Certamente, é um esforço “cavar” um tempo inexistente na rotina para contar uma história. Uma possibilidade é buscarmos, cada um em si mesmo, as fontes de prazer. O que eu tenho o desejo de contar?

Onde encontrar histórias para contar?

Que tal se lembrar da sua infância? Deve haver histórias engraçadas, emocionantes, dramas e romances que valem a pena contar. Que tal buscar um livro e fazer uma leitura? Ou que tal ligar para sua tia e trocar dois dedinhos de prosa com ela. Uma história certamente aparecerá. Assim, no fio condutor de uma história qualquer, quem conta e quem escuta ganham. Ganham e se reinventam, se reescrevem, simbolizam a própria vida.

Contar histórias é um ato de transmissão cultural

Contar histórias faz parte do ato de transmitir a cultura a alguém. Ou seja, contar histórias a crianças e adolescentes significa inseri-los na cultura, na família. Por fim, no mundo como um todo. Significa dizer a eles que pertencem a um lugar, a algo maior. Mais importante ainda, significa dar-lhes o poder de escrever a própria história. 

Michèle Petit, antropóloga francesa e coordenadora do programa internacional sobre “a leitura em espaços de crise”, afirma que a leitura pode “reativar a interioridade, impulsionar o pensamento, relançar uma atividade de construção de sentido, suscitar trocas. Relembrando que a linguagem e a narrativa nos constituíram. Mas também mostrando que uma dimensão tão essencial quanto “inútil” devia associar-se à vida de todos os dias; e celebrando o imaginário” (p.11).

Contar histórias é um ato de amor!

Ao contar uma história para alguém, transmitimos o mundo de forma amorosa. Transmitimos o que para nós é valiosos. Transmitimos o que vale a pena, o que nos marcou a vida. Seja através de livros, de uma memória da infância, da memória do que nos foi contado um dia. As histórias que contamos são legados. São herança. São conexões. 

Para escrever essa matéria, usei como referência principal o poético e esclarecedor livro de Michèle Petit: “Ler o mundo: experiências de transmissão cultural nos dias de hoje”.O livro foi publicado em 2016 no Brasil pela editora 34. Um livro que vale a pena ser lido por todos aqueles que buscam os sentidos para o ato de ler, contar histórias, construir narrativas. 

Por fim, vale dizer que ouvir e contar histórias é um direito de todos!

Convidamos você a ouvir uma boa história com a gente!

A partir de agora, todas as quartas e sextas, você e seu pequeno estão convidados a ouvir uma história juntinho com a gente. É o nosso Podcast de Contação de Histórias, perfeito para curtir momentos deliciosos em família! 

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Profile photo of Sarah Helena

Mãe da Cecília, formada em Psicologia, especialista em Filosofia e Mestranda em Educação Profissional e Tecnológica. Sempre trabalhou com famílias, especialmente com os pequenos. Por esse amor ao universo afetivo infantil, hoje, na Leiturinha, ela colabora fortalecendo o vínculo das famílias leitoras através da experiência da literatura.